Entre 1920 e 1940, algumas das imagens foram identificadas com legendas em alemão, indicando que Cleonice compreendia o que ali estava escrito. Este é o caso, por exemplo, das fotografias feitas em um passeio à Freguesia do Ó, em 1929, ao sítio de Dona Therezinha (Dar Mitt Dona Therezinha) 22 (fotos 16 e 17). Se com relação à presença alemã nesta região da cidade não foi encontrada nenhuma referência precisa, é possível dizer que a Freguesia do Ó era uma zona bastante procurada por quem buscava lazer e descanso próximo à capital23. Antes de trazer mais informações sobre essa região e sua função para a cidade, vale a pena notar o quanto a foto 16 e seu enquadramento são adequados ao motivo fotografado, isto é, o grupo. A coletividade reunida colocava certas dificuldades aos fotógrafos amadores, indica Charles Bourée, quando recomenda em seu Manual Prático ao Alcance de Todos:
Se o grupo for numeroso maiores serão as dificuldades. O operador após ter disposto as pessoas, escolhido bem o local, visão de conjunto, etc., terá que afastar-se um pouco do local de forma que os extremos do grupo nunca atinjam os bordos da chapa que se vá empregar, ficando, no entanto, deles afastados de cada lado cerca de dois a três centímetros. (1952: 30,31)
22
Agradeço a Tiago Svoboda e Adriano Rotero as traduções de algumas legendas.
Foto 16: Cleonice, então com 10 anos de idade, sentada em primeiro plano à esquerda no sítio de Dona Therezinha em Freguesia do Ó. Dimensões: 11 x 7cm.
Se esta recomendação de Bourée ajuda a explicar a composição equilibrada da (foto 16) a foto 17, ao contrário, guarda uma espontaneidade que foge a convenções. O fotógrafo valoriza a amplidão do espaço visto em perspectiva; Cleonice destaca-se com absoluta nitidez entre as meninas à frente e a figura borrada do rapaz que se moveu, estruturando a cena. Nesta imagem, podem estar misturados os trabalhadores do sítio e seus proprietários, que talvez estejam no fundo, em último plano (detalhe 17a). A menina em primeiro plano, desfocada, a segunda e alguns dos homens, logo atrás de Cleonice, parecem ser colonos do sítio.
Foto 17: Cleonice em foto no sítio de Dona Therezinha na Freguesia do Ó. Redução das dimensões originais: 11 x 8, 5 cm.
Detalhe 17 a: Cleonice, em primeiro plano, e os possíveis donos da propriedade ao fundo.
Lembremos que os sítios tinham funções úteis em relação à cidade, assim que essas terras podem ter sido adquiridas a partir da especulação imobiliária, que cria loteamentos nos arredores da cidade desde os anos 1920. Segundo Jurgen Von Langenbuch, tais áreas tinham três funções importantes para a capital: I – Equipamento hidrelétrico e hidráulico da cidade; II – Recreação campestre dos paulistanos; III – Agricultura comercial de abastecimento urbano. Os três aspectos estão, segundo o autor, vinculados à vida experimentada na cidade e ao desenvolvimento econômico e cultural do período (1971: 161). Eles permitem entender o contexto no qual essas fotografias foram produzidas e também o tipo de passeio disponível nos arredores que atraíam os citadinos. Nesse sentido, as duas imagens podem ter sido tomadas em um fim de semana, ou no período das férias escolares, ou mesmo em um feriado.
Cinco anos depois, em 1934, Cleonice aparece posicionada exatamente no meio de um grupo de seis jovens, no qual Germano, seu irmão, deve ser o fotógrafo, em um passeio a Parada de Taipas próximo ao Pico do Jaraguá (foto 18 e detalhe18a). Parte do solo, sobre o qual está deitado o grupo, organiza o primeiro plano sugerindo que o fotógrafo também se deitou colocando-se com a câmara, um pouco abaixo dos modelos. Nessa fotografia Cleonice é personagem secundária e a cena na se estrutura em torno dela, ao contrário do que ocorre em várias outras fotos em que está presente.
Foto 18: Cleonice e grupo de jovens em Parada de Taipas, 1934. Dimensões: 6 x 8,5 cm. Laboratório Casa Bevilacqua, Rua Direita 13, São Paulo.
Detalhe 18a: Rosto de Cleonice. Nesta imagem, ao contrário de muitas outras, ela não estrutura a cena, e sua posição é secundária.
Esse deslocamento até Taipas lembra que os passeios campestres foram uma prática comum entre a juventude alemã já durante o século XIX. O movimento romântico ensinou a muitos jovens o gosto pelas caminhadas e pela contemplação da natureza.
Entre outros movimentos naturistas naquele país, o Wandervögel (pássaros migratórios), criado em 1896, apresentava essa verve romântica, e seus adeptos faziam passeios para contemplação da natureza, em oposição ao conforto citadino e ao utilitarismo da sociedade industrial. Bosques, montanhas, lagos e mares passaram a receber cada vez mais viandantes (CORREA, 2010: 175).
Em São Paulo, a atuação do Partido Nacionalista envolvia as práticas de
recreação por meio de um programa de “excursões campestres”, divulgando um ideário
nazista que, de acordo com as autoridades policiais do DEOPS/SP, eram fomentadas por escolas como o Colégio Porto Seguro, localizado no centro de São Paulo, e a Escola Alemã da Vila Mariana (DIETRICH, 2007: 246-247). O gosto pela natureza revelado pela fotografia da Freguesia do Ó, de Taipas e, mais tarde, de Santo Amaro (nos arredores paulistanos), condiz com os sentimentos da época.
É possível que Cleonice tenha estudado na (Deutsche Schule), escola alemã 24 da Vila Mariana, quando chegou a São Paulo. Já moça, ela aparece nas celebrações do carnaval do ano de 1940 nessa escola como mostra a foto 19. Aí vemo-la, discretíssima no meio da multidão; está à direita e olha na direção de uma amiga (sem máscara) que a acompanhou a um passeio em 1939 e que aparece ao seu lado em uma foto instantânea de rua andando no centro de São Paulo. É a familiaridade com a personagem, permitida pela manipulação sistemática de um grande número de retratos, que torna possível identificá-la nesta imagem. Traços peculiares, como a orelha descoberta sob a boina (como pode ser conferido no detalhe, detalhe 19 a), foram indícios nesta identificação25 permitindo confirmar ser ela a moça, então com 21 anos, entre alemães e seus descendentes na capital paulista.
24Atual Colégio Benjamim Constant. Não foi possível consultar os arquivos desta escola, onde fiz várias
tentativas e não obtive respostas. A propósito das escolas alemãs, cf. Ribeiro (2002) e Wernet (1989).
25
O método indiciário desenvolvido por Giovanni Morelli para atribuir autenticidade a pinturas do
período renascentista deu especial atenção a traços até então considerados insignificantes como “lóbulos das orelhas, as formas dos dedos das mãos e dos pés”. Dessa maneira, diz Ginzburg, Morelli descobriu, e
escrupulosamente catalogou, a forma de orelha própria de Boticelli, a de Cosmè Tura e assim por diante: traços presentes nos originais, mas não nas cópias. GINZBURG (2003: 144).
Foto 19: Carnaval na Vila Mariana Schule (escola alemã da Vila Mariana), 1940. Fotografia reduzida do original tamanho 17,5 x 23 cm. Fotógrafo João Alt. R. São Bento, 307.
Detalhe 19a: Cleonice no retrato coletivo do carnaval na Vila Mariana Schule.
Segundo Ana Maria Dietrich, a Deutsche Schule, fundada em 1901, é uma das 1.260 escolas alemãs espalhadas pelo Brasil. É possível que Cleonice e Germano tenham estudado nesta escola desde crianças, pois há para cada um deles uma fotografia em grande formato, diante do que talvez fosse a entrada do estabelecimento que, ao que
tudo indica, separava meninos e meninas. No período do carnaval, porém, a proximidade entre os sexos, conforme mostra a foto, era permitida, ao menos para aqueles que, à época, eram jovens adultos. O clima de festa nada revela das tensões sociais daquele momento.
Durante os anos 1930, como já indicado, a política nacionalista brasileira inicia um processo de hostilização dos estrangeiros, escolas alemãs incluídas. A Constituição de 1934 obriga as escolas estrangeiras a ensinarem no vernáculo, embora permitissem aulas em língua estrangeira. A situação começa a radicalizar-se com o decreto n. 383 de 18 de abril de 1938, após o Estado Novo, quando o governo suspende os direitos políticos dos estrangeiros confiscando bens de clubes, sociedades e escolas (WERNET, 1989: 5). A situação agrava-se a partir de 1940, sobretudo com a declaração de guerra à Alemanha em 1942. Neste ano, como parte de seu projeto de “caça” aos estrangeiros, o então presidente Getulio Vargas decreta a nacionalização das escolas. A Deutsche passa a chamar-se Benjamim Constant, e o português, que era língua secundária no estabelecimento, passa a língua obrigatória (DIETRICH, op.cit). Pode estar aí uma chave de explicação para o fato de haver várias legendas escritas em alemão na coleção NCW. Em outras palavras, ao estudar em uma escola da comunidade germânica, o estímulo à manutenção da língua foi mantido.
As tensões pelas quais as comunidades germânicas passaram, em especial nos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo, transparecem no desaparecimento gradativo do uso da língua alemã para identificar os eventos fotografados na coleção CMH.
Antes dessa foto de carnaval na escola alemã Cleonice havia participado de festa similar dois anos antes. Em 1938, então com 19 anos, ela é fotografada ao lado de duas moças que, suponho, possuem algum grau de parentesco com a personagem, pois são as mesmas que aparecem no passeio a Parada de Taipas e em outras ocasiões. Infelizmente, não há nada que permita identificá-las. Na foto 20, as três estão trajadas de espanholas, embora as duas não identificadas apareçam em outra série de fotografias vestidas de homens (mas não Cleonice) 26. É interessante observar que o carnaval permitiu que elas, descendentes de imigrantes, brincassem com a representação do elemento estrangeiro na cidade.
26É curioso notar ainda que a palavra “carnaval” é grafada diferentemente no verso da fotografia de 1940
com a letra C, ao passo que na foto 20 é escrita com K. Pequenas alterações, sem dúvida, que embora não modifiquem o sentido da informação, apontam para a plasticidade da linguagem escrita na identificação das cenas registradas.
Foto 20: Cleonice à esquerda entre possíveis primas ou amigas de São Paulo que também aparecem no passeio a Taipas em 1934. Retrato do Karnaval de 1938. Dimensões: 6 x 8,5 cm.
A ascendência alemã, ressaltada na foto 19 dá lugar aí à representação convencional – quase caricata – das mulheres espanholas. Se as duas moças (primas?) somem completamente a partir de 1938, outras personagens entram em cena. É difícil conjeturar sobre seus destinos uma vez que não deixaram quaisquer outros rastros na coleção. A essa ausência corresponde o aumento da rede de sociabilidades de Cleonice e, a esta, o incremento do consumo de fotografias e a diversificação dos motivos das imagens. Um deles é a recreação esportiva em parques públicos como o Parque da Água Branca ou o Parque das Orquídeas (que não mostro aqui) e em clubes privados.