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7.2 Challenges and enablers

São sete personagens que movem a intriga, a maior parte com pouco estudo, alguns católicos fervorosos e outros com muitas crendices. Sumariemos as características físicas e psicológicas de cada personagem segundo a sua leitura.

Rebelo – Velho tabelião retirado para a aldeia, muito religioso, apegado aos valores do passado, é um miguelista saudosista do Absolutismo. Reside em sua casa com Nazaré, viúva de seu filho Manuel, e a tia de Nazaré, a velha, Maria do Ó. Ele tem ―saúde gastada, idade decrépita‖ (CÂMARA, 2006c, p.56). E com a morte de seu filho, encontrou em Nazaré a compensação ―para que o golpe não fosse fatal‖ (CÂMARA, 2006c, p.56). A dor de sua solidão é substituída pela presença de Nazaré. Ela é a viuvinha de seu único filho Manuel.

Rebelo faz parte da sociedade letrada, com posses. Sua leitura se concentra no século XVII, ele aprecia e sabe os Sermões do padre Vieira e do Padre Manoel Bernardes. Essa sua leitura contrapõe-se energicamente à leitura do Alferes, seu amigo, que lhe manda ler textos mais recentes. Os dois são amigos de infância, mas têm divergências de cultura e de visão política.

O Alferes – velho militar reformado, foi batizado na mesma pia de seu amigo e vizinho Rebelo, é homem de poucas crenças, um espírito jovial e brincalhão. Tem o pensamento ligado ao futuro português, apreciador das novas descobertas. Quando se trata de política opõe-se ao amigo, pois é liberalista e monarquista constitucional.

Lá me vai vossemecê dizer mal do Alferes! Bem sei que o homem tem lá outras ideias. Deus perdoe aos moradores deste século o muito que o têm esquecido. Não diz o seu génio com o meu; mas ele é muito meu amigo.[...] Fomos baptizados na mesma pia [...]nasceram os nossos filhos na mesma hora; dos partos das nossas mulheres enviuvámos ambos [...] Aquele herege com um filho assim (CÂMARA, 2006c, p.55).

É também viúvo, mas mora com seu filho, João da Alegria. Ele lê Voltaire. Esta leitura no século XIX transpassa a época do Iluminismo, progresso, desenvolvimento.

Nazaré – é nora de Rebelo, jovem viúva após conviver apenas dois anos com Manuel. Para os outros personagens, tivera um marido comparado a um santo. Tem uma fragilidade na hora que lhe convém, pois se transforma, quando se trata de encontrar com o seu amado João da Alegria. Como informa a rubrica ―O Rebelo e a Maria do Ó saem pela porta da direita. A Nazaré abre a gaveta da cómoda, donde tira um espelho. Concerta o lenço e o cabelo. Vai à janela, olha para fora, sufoca um pequenino grito e recolhe-se logo.‖ (CÂMARA, 2006c, p. 56). Na parte da manhã está sempre triste e desconsolada, mas à tarde ―como pode vir alguém, lá se arranja, lá se penteia; mas pela manhã, se há coisa mais frangalhona!‖ (CÂMARA, 2006c, p. 59). Ela é condenada à viuvez eterna pelo sogro, e pela comodidade de sua tia. Antes de ser casada com o filho de Rebelo, ela tinha uma vida

difícil junto da Maria do Ó. Quando se apaixona por João da Alegria e ameaça a contar para a tia que quer casar outra vez, essa responde:

Mas ainda não pensaste, cabecinha-de-vento...Tens duas cerquinhas ali em baixo, um ferregial de nada no caminho de Colos, olha a grande riqueza! O Sr. Rebelo, sim; quanto ganhou na vila como tabelião e o mais que lhe veio da família são hoje belas herdades, montados, terras de pão, várzeas das melhores. De teu sogro hás-de herdar, todos o sabem, casa de tão bom recheio, com que leves vida regalada. E até lá, que sossego! Depois...vá de torcer a orelha!... Adeus, dias serenos, com tanto vagar para as tuas orações! (CÂMARA, 2006c, p.77).

Maria de Ó com medo de perder sua comodidade na casa de Rebelo, apela para a bondade de Nazaré, lembrando-a de que seu sogro já está velho, e com esse desgosto pode vir falecer. Ela não se importa com a juventude da sua sobrinha, demonstra um egoísmo como indica a fala: ―E porque és nova, toca a dar cabo do velho!‖. Nazaré retruca que não, mas pede ajuda para tia. Maria do Ó articula desconhecedora do santo para esse caso, e explica: ―Sei lá de que santo me hei-de valer! És viúva e nova, Santo António só casa solteiras, S. Gonçalo só casa velhas...!‖ (CÂMARA, 2006c, p. 77, 78). Nazaré fica sozinha, sem apóio da tia e principalmente atormentada pela presença do sogro:

As noites que eu passo até ver as gretas da janela a luzirem! E que dias! Abafo aqui, debaixo destes tectos! Meu pai sempre a lembrar-me, a lembrar-me... Eu, às vezes, não queria, e ele a lembrar-me...! A culpa é dele também!... Que inveja das outras! Pobrezinhas, mas cantam, riem, apanham sol!... E eu...! Ele aí vem! Que tormento! Pelo amor de Deus, tia! ... (CÂMARA, 2006c, p. 78).

Ela, com seu destino de ser triste e viúva, no auge de sua juventude, sem auxilio de ninguém, ao mesmo tempo, sonha com a felicidade, visto que se mantêm no luto apenas para satisfazer ao sogro e não por sua vontade.

Maria do Ó – tia de Nazaré, velha, solteirona e beata. Seu maior medo é perder a comodidade e o conforto da casa proporcionada pelo sogro de sua sobrinha. Com medo de voltar à vida cheia de penúria antes de vir morar na casa de Rebelo, procura manipular a

bondade de Nazaré. Procura constantemente lembrá-la da velhice do sogro. Seu egoísmo é patente durante seus diálogos com a sobrinha. Cuida da habitação e está sempre atenta às atitudes e comportamento de Nazaré. Ela não aceita o progresso e as ―ideias modernas! Só me avenho com os fósforos, que Deus Nosso Senhor criou.‖ (CÂMARA, 2006c, p.74). Ela professa junto de Rebelo as mesmas ideias conservadoras e deixa claro que não suporta as opiniões do Alferes, chamando de herege.

João da Alegria – inteligente e trabalhador, é mestre-escola, ―dirig[e] a educação dos pequenos, ensina-lhes latim, francês, o milhão de coisas que [...] sabe [...]aí se fica em Santa Luzia‖ (CÂMARA, 2006c, p. 55). Ele possui estudos, fato pouco frequente em filhos de pobres. Sua vida é oposta a do seu nome, pois não tem nada de alegre e sim a tristeza. ―Como pessoa vezada a tristezas [...] Meu coração é triste de si e gosta de dar gasalhado às melancolias‖ (CÂMARA, 2006c, p. 56-57). É apaixonado pela Nazaré, que também o corresponde, mas o amor de ambos não é concretizado, pois, o casal dele abdica por um ideal mais elevado, o amor aos pais, ele a renuncia e parte para outra cidade. Ela se mantém no luto para satisfazer a seu sogro, esse que ela considera e chama pai.

Assunção – rapariga do campo, sem família e enjeitada, alegre, viva, honesta e trabalhadeira, ganha a vida no cultivo da terra. Com esse contato com o campo, tem uma pureza simples e saudável, conhece como ninguém os segredos da vida rústica, da estação que faz, e do tempo das colheitas, gosta de caçar os coelhos, e os grilos. Tem suas crendices. Sonha com um casamento e com a sua casa. Sonha com a ideia de ser feliz, mas desconfia de todos, pois não tem quem a defenda.

Bom! É sabido: apanham sozinha a moça, põem-se logo com paleios. Mas quem não tem de seu, nem vê herdamento, chama padrinho a todos e não chama pai a ninguém, uma enjeitadinha como eu, pouco se lhe dá de promessas, que são o visco das outras.(CÂMARA, 2006c, p.65).

Barros – Sargento da Guarda fiscal, não é da aldeia, e sim um rapaz do povo português, forte, sadio, de corpo e alma, alegre, um ―sargentão da alfândega! [...] Com uma espada ao lado e quatro divisas. Desde que aí chegou, nessa diligência do contrabando do tabaco, traz sempre consigo um estadão de moças. A farda.‖ (CÂMARA, 2006c, p.67). Homem que aspira a uma casa. ―Sonhos de Santa Luzia! Mas simpatizo com a terriola. Tenho umas inscriçõezitas que [...] deixou [...], com uns cobres poucos, que pude juntar...‖ (CÂMARA, 2006c, p. 70). Barros é descrito como um rapaz trintão. Ele é comparado ao João da Alegria pelo velho Rebelo no diálogo com o seu amigo o Alferes. ―Então este Barros vale o João!‖ (CÂMARA, 2006c, p. 67) por sua virilidade e sucesso com as moças de Santa Luzia, principalmente quando toca guitarra. Sua profissão faz com que se orgulhe de ser sargento da guarda fiscal. Sonha com um lar modesto, mas seu. Ele também se opõe às ideias de Rebelo, pois comunga Liberalismo junto do velho Alferes.

Um bravo cá de dentro a D. João da Câmara – a quem mais largamente nos referimos na Chronica – pela perfeição da peça, e outro aos interpretes pela perfeição do desempenho, que não póde ser excedida, e dificilmente poderá ser egualada!

Figura 7: Cartaz da peça Triste Viuvinha

Fonte: Retirada do livro Teatro de D. João da Câmara 2006 Vol. III, pag. 51