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A terminologia da palavra cerâmica vem do grego “kéramus”, ou “terra queimada” (PILEGGI, 1958). Considera-se que a história dos produtos cerâmicos se confunde com a própria evolução das civilizações (AMBONI, 1997) e os registros antropológicos revelam a presença de utensílios de cerâmica entre os povos mesopotâmios já por volta de 25 mil A.C., no período pré-neolítico, quando se passam a incorporar peças, seja como forma de armazenamento de água ou cozimento de alimentos. Tais peças começam a substituir artefatos em madeira, couro e pedra trabalhada. Dadas as evidências tão primitivas, intui-se que a indústria cerâmica é a mais antiga conhecida.

Para Tacla (1984, p.1), entre os povos mediterrâneos percebeu-se que o barro, deixado ao sol escaldante, endurecia. “Quanto mais abrasador o sol, mais firme ficava o barro. Nascia, assim, a cerâmica e, com ela, todas as suas utilidades”.

A utilização de argila e de técnicas ceramistas é também identificada no período de 8000 A.C., no Japão, facilitando a reprodução das técnicas ao longo de territórios asiáticos. (ANFACER, [?]). Em torno de 4000 A.C., povos caldeus e assírios empregam a técnica construtiva de tijolos ou blocos cerâmicos (HOLANDA, 1975) e no mesmo período, há registros de tijolos em escavações na cidade de Jericó, Oriente Médio (ANICER, 2002).

O uso de moldes, a incorporação de novas técnicas, como a modelação movida a pedal, permitiram que a produção de peças em cerâmica se disseminasse por diferentes regiões, impulsionada pelo intenso comércio que se estabelece ligando regiões europeias e asiáticas.

Seja sob a forma de utensílios, peças decorativas, blocos de barro utilizados em construções, a presença da cerâmica na história de diferentes povos pode ser constatada, com características, desenhos e detalhes próprios, a depender do próprio nível de evolução das sociedades, revelando-lhes aspectos culturais, econômicos, religiosos etc. Assim, registram-se as construções mais estruturais e complexas, nos povos egípcios; a cerâmica da região mediterrânea, com maior requinte nas construções gregas e sua posterior influência na civilização romana; a cerâmica rebuscada e esmaltada de origem árabe; a porcelana chinesa, que incorpora o caulim. Os registros seguem nos povos da América pré-Colombiana, como Maias e Astecas e no Brasil, as peças de origem indígena, sendo as mais antigas de origem marajoara, registradas no norte do território brasileiro (NASCIMENTO, 2007).

O desenvolvimento da atividade de cerâmica no ocidente ganha impulso com produtores europeus que tentavam reproduzir peças no estilo da porcelana chinesa, no século XV. Porém, a produção em escala e a evolução técnico-científica encontram dificuldades no estilo da manufatura europeia, com largo consumo de energia e encarecimento dos custos de produção, bem como na diferença de qualidade nas peças, resultado da dificuldade de adaptação dos processos de queima, em fornos de alta temperatura e da própria adaptação da mão de obra (SOUZA, 2003).

Após a multiplicação de produções artesanais, a atividade ganha dimensão industrial com o uso de máquinas a vapor na trituração de matérias-primas e movimentação dos fornos, nas oficinas do empresário Josiah Wedgwood, por volta de 1769 (NASCIMENTO, 2007).

No Brasil, a presença da cerâmica é marcada pelos artefatos indígenas, sendo anterior ao período colonial, como mostram os estudos arqueológicos, que identificam vastos registros na Ilha de Marajó, na Amazônia. A cerâmica marajoara ou tapajônica já é encontrada em expedições arqueológicas do século XVII e fora produzida possivelmente por índios que habitaram a bacia Amazônica do ano 980A.C., até o séc. XVIII. As técnicas rudimentares aborígenes vão sendo aperfeiçoadas sob a atuação colonizadora e a principal influência parece ser a introdução do torno e de rodadeiras. Posteriormente, a influência europeia se faz presente já nas primeiras ocupações do território paulista, onde se constata a produção de telhas, por volta de 1575. A produção permanece, por séculos, basicamente artesanal e as peças mais refinadas eram objeto de importação.

As restrições impostas por choques externos à economia brasileira, no início do século XX, como a dificuldade de importação durante a primeira guerra mundial, constituem-se num impulso interno para o desenvolvimento de manufaturas ligadas à produção de bens não duráveis de consumo e à exploração e processamento de recursos primários, contribuindo para a instalação das primeiras indústrias ligadas ao segmento de cerâmica no Brasil.

A pioneira vai se localizar no polo paulista de produção industrial, na capital São Paulo, que passa a abrigar a primeira fábrica de louças do país, em 1913, a Fábrica Santa Catarina, através do empresário italiano José Zappi (SOUZA, 2003).

A produção em escala industrial só será mais evidente após a Segunda Guerra Mundial, com a importação de bens de capital que, mesmo de segunda ou terceira geração, promovem produção de tijolos, telhas, refratários, abrasivos e revestimentos cerâmicos. Porém, o setor é dominado, na maioria das regiões, pela produção em olarias, com menor nível de especialização, tecnologia, produtividade e organização administrativa.

O rápido crescimento urbano-industrial pelo qual passa o Brasil, nas últimas décadas do século XX, determina um processo de crescimento da atividade cerâmica nas diferentes regiões do território brasileiro, quando se evidencia, em parte, substituição do processo artesanal pela produção mais automatizada, que agrega valor às mercadorias e garante maior diversificação de produtos. De forma geral, o setor encontra-se largamente atrelado à dinâmica da indústria de construção civil nacional.

No Ceará, atividades com cerâmica são identificadas em registros pré-colombianos e, posteriormente, em atividades indígenas, juntamente com utensílios de palha. Sob a influência jesuíta e dos primeiros colonizadores, ganha um pouco mais de sofisticação, melhorando o acabamento e diminuindo o tempo de produção das peças.

No século XX, já na década de 1950, em diversas regiões do estado, a atividade é desenvolvida artesanalmente por inúmeras famílias que trabalhavam o barro e construíam produtos cerâmicos. Daí grande parte dos grupos produtores ter origem essencialmente familiar. Todavia, já nos anos 1970, diversas unidades passam a desenvolver processos produtivos com algum nível de automação, com introdução de maquinário e forno contínuo (tipo Hoffman). As unidades ganham força em diversos municípios da Região Metropolitana de Fortaleza – RMF, como Maranguape, Itaitinga, Aquiraz, entre outros, e em outras regiões do Ceará, como Centro-Sul, Cariri. Em alguns casos, os ceramistas já passam a dispor de financiamentos, através de programas de incentivos implementados pelo Banco do Nordeste, por exemplo.

Os anos 1980 trazem novas técnicas de produção, com extração mecanizada da argila e diversos equipamentos, como caixa de alimentação, esteiras, marombas, prensas etc. Posteriormente se destacam as unidades produtivas que reaproveitam a argila encontrada às margens do Rio Jaguaribe, como as localizadas nas cidades de Russas e Limoeiro do Norte.

De forma geral, o uso de novas tecnologias garante maior uniformidade das peças produtivas, melhoram a qualidade dos produtos, aumentando, também, padrões de especialização no setor.

Mais recentemente, principalmente nos anos 2000, impulsionadas pelo crescimento da construção civil e aquecimento do mercado de capitais no Nordeste, o segmento de cerâmica vermelha cresce nas várias regiões do estado e passa a incorporar a preocupação com técnicas mais limpas de produção, fazendo uso de medidas mitigadoras de seus impactos ambientais, ao mesmo tempo em que crescem as exigências legais e as demandas por uma responsabilidade socioambiental como elemento para os processos de desenvolvimento.

A fabricação de peças em barro modela a cultura em diversas regiões do Ceará, revelando o peso de costumes religiosos, tradições, estilo de vida, sendo a atividade artesanal importante alternativa de geração de renda e de transmissão de conhecimentos histórico- culturais de inúmeras comunidades, como em Aquiraz, Cascavel, Viçosa do Ceará, Juazeiro do Norte etc. A formação de associações e cooperativas, centros de comercialização de artesanato e o apoio de instituições, como o Sebrae, facilita a organização e escoamento de produção, melhora a administração dos pequenos negócios e melhora a qualificação técnica da mão de obra, que pode passar por processos de aprimoramento e, ainda, contribui para a produção de produtos de melhor qualidade, com algum nível de sofisticação.