Neste estudo, o envelhecimento foi percebido como algo complexo, que, por sua vez, extrapola os parâmetros cronológicos e biológicos. Também pôde-se notar que se trata de um processo, um estado de espírito variável de um sujeito a outro – ou variável num mesmo sujeito – ou, ainda, variável em diversos grupos. Pode-se manifestar de várias formas, dependendo das experiências e das possibilidades existentes no âmbito social e cultural em que está inserido.
Embora os jornalistas aqui entrevistados não lidem diretamente com ideias de exclusão, essa situação a meu ver aparece presente na vida deles de modo claro. Isso pode ser percebido, por exemplo, na condição em que todos se encontram: desempenhando funções jornalísticas como colaboradores terceirizados ou como
freelancer. Ou seja, um indício de que não há espaço para eles nas redações, como
dizem ter havido no passado para os profissionais mais velhos.
Mas isso também não exclui o fato de eles se sentirem incluídos no mercado de trabalho – ideia que também percebo claramente em seus depoimentos.
Ao se mostrarem plenamente ativos, de certa forma subvertem o imaginário que consagra o velho à aposentadoria, ao recolhimento. Mesmo quando se referem à decadência do físico, enaltecem os ganhos cognitivos. Para os entrevistados, o corpo se estende para as razões do intelecto. Afinal, trata-se de um grupo privilegiado em termos de conhecimento, informação, educação. Essa é uma característica específica do Jornalismo, ou dos profissionais que trabalham no campo das ideias.
Eles trazem em suas falas marcadores cronológicos expressivos, como já dito no Capítulo 4: o período da ditadura militar, sua luta contra esta forma de governo, o engajamento maior nos partidos políticos de esquerda; a influência dos movimentos que eclodiram nos anos 1960/70 no Brasil e no mundo, o feminismo; o advento dos computadores e as transformações no modo de se fazer Jornalismo; a tensão dos profissionais mais velhos na relação com os mais jovens nas redações.
Também apresentam os marcadores do tempo kairós, que igualmente moldam o perfil desses jornalistas: a relação com o pai, o tio, os ídolos e ícones, as
referências profissionais, as leituras, as peças de teatro, os jornais da época, a convivência com outros colegas, as viagens, as pautas, os sonhos.
Ressalta-se ainda a questão da intergeracionalidade no exercício diário dessa profissão em pauta. Tema muito importante nesta pesquisa. Os entrevistados são ativos e se afirmam como profissionais experientes, talentosos, com a capacidade intelectual preservada. Muito do que são e aprenderam ao longos dos anos na profissão – desde a escolha por ela – se deve ao contato que puderam ter na vida com pessoas mais jovens e, especialmente, com os mais velhos, num movimento constante de troca, ensinando e aprendendo.
Nas redações, eles já ocuparam os papéis dos mais jovens, inicialmente, e também dos mais velhos, porém em contextos muito menos tensos e sem a mesma competição havida a partir dos anos 80, quando pude presenciar tal situação.
Ao realizar essas entrevistas, elaborando algumas interpretações para esta pesquisa, verifiquei que, de forma simbólica, aqueles jornalistas que eram mais velhos quando comecei a trabalhar no Estadão, estavam sendo “trazidos” para esse espaço de questionamentos mais profundos, talvez, na ordem do tempo kairós em mim.
Naquele tempo, eu tinha quase 30 anos de idade. E os mais velhos estavam na faixa em que eu me encontro hoje, com 50 anos.
Atualmente, o que se faz mais presente no contexto do Jornalismo já não é tanto a política reivindicatória como foco, porém a adesão a novos planos pessoais de aperfeiçoamento da carreira do jornalista como tal. É a tecnologia como pano de fundo, absorvendo preocupações da pessoa individualmente, muito mais do que razões coletivas e sociais. As redações (novas) dos grandes jornais, onde a informação deixa de ter o caráter majoritário dos engajamentos, tornam-se espaços de produção de notícia como negócio, produto de venda, comercialização, mercadoria.
O que se pode concluir é que a reunião desses depoimentos sugere uma série de possibilidades – dentro do campo do Jornalismo no referente à existência de diversas maneiras de envelhecimento. E, também, no modo de realizar a profissão, trazendo com isso as razões e os problemas dessa trajetória.
Trata-se aqui, nesta pesquisa de mestrado, de um começo de reflexão crítica, mas que carece, num segundo momento, de ampliação e aprofundamento, tanto em termos quantitativos – trazendo mais jornalistas velhos e jovens para essa “ausculta” de entrevistas; quanto qualitativos – fazendo reviver outras memórias e marcações de tempos kairós e cronos.
Para finalizar, trago aqui, de modo a ilustrar essas inquietações, parte de uma crônica do escritor mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991), escrita em 1969, presente na coletânea O Anjo Bêbado. O autor nos mostra, já nos anos 1960, o quanto é preciso modificar a ideia que se faz do velho e da velhice em nosso meio social, para que todos possam ser, em suma, mais livres e felizes.
Tantos gestos afetivos lesam mais que confortam, tantas solicitudes desastradas arranham feridas latentes. Nosso amor pela pessoa velha não deve ser uma opressão, uma tirania a inventar cuidados chocantes, temores que machucam. Façam o que bem entendam, cometam imprudências, desobedeçam conselhos. Libertemos os velhos da nossa fatigante bondade. Que exagerem, se lhes der vontade, na comida e na bebida, esqueçam de tomar o remédio, fumem, apanhem sol, chuva, sereno.