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1.6 T-celler
A Sociologia Compreensiva, de Maffesoli, método escolhido para desenvolver esta tese, baseia-se em cinco pressupostos explicados no livro O Conhecimento Comum, escrito em 1985, e publicado no Brasil três anos depois. São eles: 1 - crítica do Dualismo Esquemático; 2 - a “Forma”; 3 – uma Sensibilidade Relativista; 4 - uma Pesquisa Estilística; e 5 - o Pensamento Libertário. Maffesoli (1985, p. 25) considera que a Sociologia Compreensiva é uma espécie de sociologia romântica: “Uma atitude que pensa em termos de globalidade, que recusa a discriminação, a avaliação do que seria importante, e do que não o fosse”. Segundo o autor, a Sociologia Compreensiva “descreve o vivido naquilo que é, contentando- se, assim, em discernir as visadas dos diferentes atores envolvidos”.
Maffesoli (1998) concentra seus estudos na vida cotidiana. Ele observa que a Comunicação, a Imagem e o estilo são elementos marcantes de uma nova Cultura que está nascendo. Cultura essa, segundo o autor, que está revolucionando o “estar-junto” Pós-Moderno.
Em função, certamente, da massificação da Cultura, mas também porque todas as situações e práticas minúsculas constituem a terra fértil sobre as quais crescem Cultura e civilização. Sem querer se aprofundar aqui pode-se dizer que o interesse culinário, o jogo das aparências, os pequenos momentos festivos, as perambulações diárias e o lazer não podem ser mais vistos como elementos sem importância ou frívolos da vida social (MAFFESOLI, 2005, p. 12).
O sociólogo salienta que a vida cotidiana como obra arte exerce o mesmo papel que a “arte” desempenhou nas civilizações antigas. Para ele (2005, p. 8), vivemos uma ética da estética, isto é: “Um ethos constituído a partir de emoções partilhadas em comum”. Ele cita como exemplo, os espetáculos de variedades, as práticas desportivas, as campanhas eleitorais na televisão, os fait divers mais ou
menos espetaculares. Tudo isso faz parte de um jogo social, onde a emoção é compartilhada:
Pratica-se a comunhão de emoções ou de sensações que, sem isso, perderiam a graça. Essa partilha de emoções ou de sensações – difundida nas ações mais comuns ou cristalizada nos grandes eventos pontuais ou comemorativos (aniversários, revoluções, movimentos de massa, greves, manifestações, etc.) – é, stricto sensu, o que funda a vida social ou lembra a sua fundação (MAFFESOLI, 2005, p. 54-55).
Em 2006, Maffesoli explicou durante um Seminário, realizado em Porto Alegre, qual é a tarefa da Sociologia Compreensiva. Segundo ele, o seu papel é compreender tudo aquilo que foi separado na Modernidade. Ressaltou que, em Latim, a palavra “compreender” vem de com/preendere que significa “pegar tudo junto”. Ele explicou que durante a Modernidade (século XIX), época em que houve a invenção do Indivíduo, prevaleceu a idéia de que era preciso “separar” para explicar o mundo. De acordo com o pensador francês, uma das conseqüências dessa maneira de pensar é a destruição da natureza. O homem acreditava que podia tudo, que era soberano, que nada podia lhe acontecer. Hoje, início do século XXI vive-se uma luta global para preservar o que ainda resta do planeta Terra.
O sociólogo (1985, p. 25) esclarece ainda o papel do pensador nessa maneira de enxergar o mundo: “Aquele que diz o mundo, não se deve abstrair; é que ele faz parte daquilo que descreve e, situado no plano interno, é capaz de manifestar uma certa visão de dentro, uma in-tuição”. Ao permitir que o pesquisador use a sua “intuição”, a Sociologia Compreensiva rejeita o dualismo esquemático presente no positivismo, onde A+B é igual a C. E coloca o pesquisador dentro da pesquisa, admitindo que exista uma “subjetividade” em toda interpretação. E, de certa forma, “liberta” o pesquisador da culpa de estar presente na sua pesquisa.
No Seminário Porto Alegre (2006), Maffesoli disse que a função do intelectual é cristalizar aquilo que está na sua cabeça, destacando o que já existe. Ele reforçou a idéia de que primeiro vem a Existência e depois a sua formatação. Este último aspecto é o que ele denomina de Formismo: “o termo pouco importa, pretendia indicar por ele a prevalência da aparência, a necessidade de levar a sério tudo aquilo que os espíritos sérios consideram frívolo. Numa palavra, integrar à análise da vida social uma constatação bem trivial: o que é, é” (1998, p. 82).
Portanto, o segundo pressuposto é a “Forma” – pois, conforme o autor, o mais importante é o “modo de dizer” as coisas. Neste aspecto, é preciso integrar e promover o equilíbrio entre o “lógico e o não lógico”. Uma das maneiras de se fazer isso é valer-se de categorias irreais para apreender o “real”. Maffesoli (1985, p. 30) adotou este procedimento quando estudou a burocracia, a violência e o cotidiano. Empregou categorias, como Poder, Potência, Rito, Teatralidade, entre outras. Para o autor, essas categorias são modulações da Forma:
É que, enquanto tais, elas não existem; são irreais e não são a não ser metodologicamente, muito úteis para ilustrar, propor imagens de todos estes pequenos nadas significantes ou de todas estas estruturas macroscópicas, que constituem nossas sociedades.
Em relação à Forma, Maffesoli (2006) explica que usa categorias ou noções por que é preciso dar a “realidade social” uma visão mais ampla. O autor salienta que o “conceito” é algo fechado, finito, um produto acabado, uma coisa que não tem nada a ver com a vida. Ele prefere usar a palavra “noção” ou as palavras menos erradas possíveis, já que não é mais a “verdade” que está em jogo. Sobre isto, ainda esclarece que a “noção” pode acompanhar a realidade e não criá-la. Nesta tese, usamos cinco noções de Maffesoli: Comunicação, Empatia, Imaginário,
Cultura e Pós-Modernidade. Além disso, como não há uma única verdade, relacionamos as noções com outros autores.
O terceiro pressuposto é a “Sensibilidade Relativista”, uma vez que “não há uma realidade única, mas maneiras diferentes de concebê-la”. Maffesoli (1985, p. 31) não condena o positivismo e o marxismo, mas considera conceitos importantes no momento histórico em que surgiram. Hoje, não conseguem dar conta da realidade que se vive:
Assim, não se trata de invalidá-los pelo que são, mas de mostrar que provêm e explicam um dado período. Elaborados num tempo marcado pela homogeneização de civilizações em expansão, não são mais (como o foram) adequados para descrever o processo de heterogeneização consecutivo à decadência de uma civilização.
Neste sentido, Maffesoli (1985) busca evitar uma visão redutora da realidade social. É preciso ter prudência e fugir do que chama de “terrorismo da coerência”. Cita, por exemplo, o conceito de homo economicus que não se explica somente pelas leis econômicas, mas por um conjunto mais amplo de situações pelas quais passa a Comunicação e o desenvolvimento tecnológico. Esse raciocínio também vale para a pesquisa científica, que não pode ser algo pronto, acabado, definitivo. O sociólogo recorre a Max Weber, para explicar o seu pensamento:
Toda obra científica ‘acabada’ não possui outro sentido que o de suscitar novas indagações: ela clama por sua própria ‘superação’ e se condena ao envelhecimento. Aquele que deseja servir à ciência deve resignar-se a esta sorte (MAFFESOLI, 1985, p. 33).
O pensador francês (2006) lembra que a Modernidade defendia valores universais como os direitos humanos, a soberania, a ordem, o progresso. Mas que, ao longo do tempo, esses valores perderam força para se compreender o mundo contemporâneo. O autor destaca que a Sensibilidade Relativista leva em conta o
“policulturalismo, a polissemia, o politeísmo de valores”. E adverte: “só existo, através e sob o olhar do outro”.
O quarto pressuposto da Sociologia Compreensiva é a Pesquisa Estilística. De acordo com Maffesoli (1985, p. 36), cada época tem o seu próprio “gênero particular de literatura” – que serve de pretexto para tudo dizer. Ele exemplifica que a “história” foi a marca do século XIX e a “filosofia” a do século XVIII. “Há um estilo cotidiano, feito de gestos, de palavras, de teatralidade, de obras em caracteres maiúsculos e minúsculos, do qual é preciso que se dê conta”. Mais adiante, o autor (1985, p. 37) esclarece: “A existência de uma especificidade linguageira é particularmente evidente. As palavras, do mesmo modo, fazem parte de nossa instrumentação – a qual de resto inclui ‘pequenos truques’ e habilidades de ‘saber fazer’ (ou saber dizer)”.
O Pensamento Libertário compõe o quinto pressuposto da Sociologia Compreensiva. Neste item, articulam-se os fundamentos desta maneira de se produzir conhecimento: a universalidade de parâmetros e a subjetividade de interpretação. Maffesoli escreve (1985, p. 41 e 43) que é preciso “trabalhar pela liberdade do olhar” e admitir que existe uma certa interação entre o pesquisador e o objeto pesquisado: “Há conivência, às vezes, cumplicidade, diríamos que se trata de Empatia. É isto mesmo que talvez constitua a especificidade de nossa disciplina. A compreensão envolve a generosidade de espírito, a proximidade, a correspondência”. Por último, ele esclarece a necessidade de se contentar em “dizer o que é” – sabendo de diversas maneiras que “somos elemento deste real”.
A nossa pesquisa tem como objetivo geral, estudar o papel social dos telejornais na era Pós-Moderna. O seu corpus é composto de dois noticiários líderes
de audiência em seus respectivos horários. Um tem abrangência nacional, o Jornal Nacional da Rede Globo. O outro, tem alcance regional, o RBS Notícias, produzido no Estado de Santa Catarina, pelo grupo RBS. O objetivo específico desta pesquisa será: compreender sociologicamente a produção de sentidos verbal e não-verbal, presente nas matérias jornalísticas, que envolvam acontecimentos de relevância social que estejam relacionados a fatos do cotidiano. Além disso, iremos analisar o trabalho dos Âncoras nos dois telejornais escolhidos como objetos deste estudo.
As questões da pesquisa estão relacionadas com as cinco noções e as duas subnoções escolhidas para compor o referencial teórico do trabalho. De que maneira se manifesta a noção de Comunicação e as subnoções de Âncora, Gêneros Jornalísticos, Imagem, Planos de Imagem e Elementos da Reportagem, na produção de sentido verbal e não-verbal, nos telejornais Jornal Nacional e RBS Notícias? Como os valores da Pós-Modernidade aparecem no JN e no RBS N? De que modo a noção de Empatia se faz presente no JN e no RBS N? Como o Imaginário de um país e de uma região aparece no JN e no RBS N? De que forma a Cultura de um país e de uma região pode ser identificada no JN e no RBS N?
O método escolhido para elaborar este estudo é a Sociologia Compreensiva de Maffesoli (1985). A técnica será a Análise de Conteúdo e a pesquisa terá uma abordagem Qualitativa e Estilística. De acordo com Chizzotti (1991, p. 79), a pesquisa Qualitativa: “parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito”. Segundo o autor (1991, p. 80), o pesquisador é “um ativo descobridor do significado das ações e das relações que se ocultam nas estruturas sociais”. Portanto, este estudo, não trará uma verdade pronta, mas reflexão, diálogo e compreensão acerca dos jornais televisivos em nossa sociedade.