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A avaliação é um item muito importante e como não poderia deixar de faltar, perguntamos aos sujeitos: Qual a sua avaliação da inserção da disciplina de Libras no currículo?

Realizar qualquer modificação no âmbito educacional nos faz confrontar antigas concepções e buscar novas maneiras de educar, respeitando a diversidade cultural, social, econômica, étnicas, raciais, de gênero e de necessidades educacionais especiais. Os surdos, como muito já discutimos nos capítulos anteriores, não são uma categoria homogênea, assim como as demais necessidades especiais também não o são. No entanto, os surdos usuários da Libras tem uma característica que os identifica: a língua de sinais.

Também, já enumeramos e explicamos que a língua de sinais é tão complexa e rica quanto as línguas orais e, que os surdos legalmente e culturalmente são amparados para o uso da sua língua materna, apesar de poucas serem as experiências que destacam o lugar desta língua no currículo.

Como já observamos até então Castanhal, partindo das dificuldades comunicativas e da necessidade de implementação de uma política de inclusão, ousou inserir a Libras enquanto componente curricular obrigatório em toda a sua rede de ensino. Iniciativa esta que, com intuito de desenvolver uma educação de qualidade para os educandos surdos, teve suas dificuldades e seus ganhos, atendendo a um direito democrático constitucional de acesso e usufruto da educação regular.

Buscamos alcançar a visão dos sujeitos acerca dessa inserção a partir da seguinte pergunta: Qual a sua avaliação da inserção da disciplina de Libras no currículo?

Esta indagação foi feita a fim de obtermos uma avaliação crítica dos sujeitos acerca do projeto e de suas pretensões de expansão, de permanência e/ou de modificações em relação à disciplina de Libras. A figura 8 abaixo sintetiza a avaliação feita por cada um dos sujeitos que, de forma unânime, fazem uma avaliação positiva ao indicar que melhorou a educação tanto para alunos surdos quanto para professores.

Figura 8: Avaliação dos sujeitos acerca da inserção da Libras no currículo.

Fonte: Elaborada pela autora a partir dos dados.

Fonte: Elaborada pela autora a partir das falas dos sujeitos.

A figura 8 nos mostra que todos os entrevistados avaliam como positiva a inserção da disciplina de Libras no currículo e, apesar de pouco tempo de sua implementação,

Avaliação da inserção da disciplina de Libras no

currículo

Técnico 1 Técnico 2 Sec.Educ

. Respeito ao Surdo Progressão Escolar Diminuição da reprovação Melhor preparação dos professores Diminuição das dificuldades de comunicação Pioneirismo da proposta de inserção da disciplina Melhoria da comunicação Socialização dos surdos Desmistificação do surdo enquanto “coitadinho” Ganho qualitativo na educação dos surdos Comunicação entre surdos e ouvintes Escolas ensinando várias línguas

já perceberam resultados significativos na educação do surdo, na sua relação com a comunidade escolar e na melhoria do trabalho do professor em relação a esse aluno.

O Técnico 1 aponta que melhorou o respeito da comunidade escolar em relação ao surdo, pois passaram a observá-lo enquanto capaz, desconstruindo a visão de doente e coitadinho. A oportunização ao surdo de ter acesso a sua língua e de ter o profissional intérprete permitiu a sua progressão escolar e, conseqüentemente, a diminuição da evasão e da repetência. Além disso, melhorou a comunicação e o desempenho dos professores em lidar com esses alunos. De modo geral, a progressão escolar foi mais destacada pelo Técnico 1, conforme a fala abaixo:

(...) hoje já 2 anos quase 3 anos de trabalho da Libras lá nas escolas, pro que a gente tinha, pro que a gente tem hoje, apesar de muitas dificuldades, mas hoje ela tá como muito boa, porque nós recebemos em 2007 surdos que foram incluídos, eram de classe especial e vieram pra gente. Aluno com 24, 25 anos, que tava 7 anos na 2ª série. Hoje, final do ano, pelo nosso acompanhamento ele tá com médias excelentes, muito bem, ele tem intérprete agora em sala, em 2007 ele não tinha intérprete fez a 2ª etapa, ano passado ele foi pra 3ª, esse ano ele tá na 4ª etapa. Então, ele vai para o 1º ano, ele tá em 3 anos com a gente e ele já vai pro 1º ano, ano que vem e há 3 anos atrás ele tava na 2ª série. (TÉCNICO 1).

O problema da repetência do aluno surdo, como já discutimos anteriormente, é fruto da implementação de uma política de inclusão que cumpre a lei, mas não prepara a realidade escolar para o atendimento dos alunos com necessidades especiais, em especial, dos alunos surdos que requerem mais do que adaptações e sim uma língua para sua inclusão.

O Técnico 2 chama a atenção para o pioneirismo da proposta – pois não tem conhecimento de haver, em outro lugar, inserção da disciplina de Libras no currículo da forma como estão implementando em Castanhal –, além de destacar, assim como o Técnico 1, o aspecto da socialização, já que, com a comunicação, a interação surdo-ouvinte pode ser estabelecida com maior qualidade, ajudando na desconstrução da percepção do surdo enquanto coitadinho.

O aspecto mais enfatizado da fala do Técnico 2 foi referente à socialização, conforme a citação a seguir:

E a gente tem feito um diferencial e a gente percebe que surtiu um efeito positivo nos alunos surdos mesmos, os colegas saberem se comunicarem com eles “Oi” “Bom Dia” dizer o nome dele em Libras, saber fazer essa comunicação básica com eles. A gente percebeu que eles avançaram muito, nesse sentido da socialização, esse é o primeiro objetivo, fazer com que eles não se sintam um peixe fora d’água, mas que alí ele é amparado, ali ele é bem vindo, ali ele não é excluído. (TÉCNICO 2).

Esse efeito positivo decorrente da comunicação, ao qual o Técnico 2 se refere é importante na relação surdo x ouvinte, pois mostra aos ouvintes que os surdos têm a sua

língua e a sua forma particular de se comunicar, além de estabelecer uma relação comunicativa entre ambos.

O Secretário de Educação, além de apontar a melhoria na comunicação, destaca a melhoria qualitativa da educação do surdo, visto que, por ter acesso às informações e aos conhecimentos, deixa de repetir e alcança uma progressão escolar, como também observamos na fala do Técnico 1. O gestor ainda destacou a importância de a escola trabalhar e ensinar várias línguas, pois, além do português e do inglês, por exemplo, foi inserida a língua de sinais. Em sua fala vemos a seguinte comparação:

Eu até digo que o aluno europeu ele fala pelo menos 5 línguas, 4, 5 línguas e eu brinco que até com os professores aqui quando a gente ta discutindo, que o nosso aluno vai chegar quase no padrão europeu, porque ele vai ter acesso a ter a nossa língua materna o português, nós estamos com o inglês, vamos agora em 2010 implantar o espanhol e tem a Língua Brasileira de Sinais, que é uma disciplina, então são quatro línguas, que o nosso aluno da rede municipal está tendo acesso (...) (SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO).

A confluência de várias línguas configura uma experiência enriquecedora para os alunos que passam a conhecer outras culturas e sociedades representantes da língua que está sendo adquirida. A inserção da Libras é importante, sobretudo, porque é uma língua nacional e, apesar de não ter o prestígio do inglês, construído pela sociedade capitalista, tem tanta ou mais importância, na medida em que representa uma comunidade nacional.

Além disso, a realidade de confluência de várias línguas seria a condição natural do Brasil, pois abriga diferentes grupos linguísticos como: índios, imigrantes e os surdos. Essa realidade configura o que Quadros (2005) chama de multilinguísmo, contrapondo com a visão propagada nas escolas, de que somos monolíngues, e o português é a primeira língua de todos os cidadãos naturais dessa nação.

Mas, não se trata de justaposição de diferentes línguas em um mesmo ambiente. A necessidade de inserção da língua de sinais nas escolas se configura pelo que viemos discutindo ao longo de toda essa pesquisa: por fatores culturais, lingüísticos, identitários e políticos.

Portanto, a avaliação dos sujeitos da pesquisa, acerca da inserção da disciplina de Libras, é positiva. No entanto, precisamos ser críticos em perceber as lacunas de sua implementação, a fim de realizamos uma reflexão sobre a prática, e uma auto-reflexão com o intuito de não fazer da tentativa de incluir, uma exclusão silenciosa e concedida dos educandos surdos.

Souza & Góes (1999) discutem que a educação de surdos vive à sombra da constante mutação do oralismo, que renasce sob novas roupagens, conforme vemos nesta citação:

Mesmo com todo este cenário, renasce das cinzas, na educação de surdos, um aspecto negro e mutante de Fênix: o oralismo. Revitaliza-se, de modo parasitário, aos anseios neoliberais, com uma pelagem mais adaptada aos novos tempos. Apropria-se de nossos próprios discursos sobre a condição bilíngüe da criança surda, como se tivessem sido sempre os ecos silenciados de enunciados que jamais produziram. Hipocritamente, os sinais passam a ser tolerados e até incentivados (alguns centros contam até com instrutores surdos para o ensino da LIBRAS!), mas, é bom que se diga, desde que eles – os sinais – sirvam como mero instrumento de acesso à cultura e à língua majoritárias. (SOUZA & GÓES, 1999, p.182).

As autoras colocam em cheque até mesmo as “boas intenções” do bilinguismo, pois pode configurar uma nova roupagem do oralismo na tentativa de utilizar a concessão do aprendizado da língua de sinais como instrumento de aprendizado da língua majoritária.

Oliveira (2004), afirma que a exclusão dos alunos não-padrão (no caso em questão, o surdo) é justificada e reforçada no dia-a-dia de uma prática tradicional, que ainda permanece centrada na mensuração e comparação de capacidades e na observância dos alunos com necessidades especiais como incapazes. Para a autora, essa exclusão não é realizada pelo não acesso desses alunos ou pela sua evasão, mas por uma permanência excludente.

Assim, a permanência excludente esconde-se atrás de um discurso inclusivo, sendo que os alunos estão matriculados, junto com os ditos normais, porém são excluídos silenciosamente no cotidiano escolar, pela tentativa incessante de homogeneização e de normalização imputadas seja pelo currículo prescrito seja pelo oculto.

A prática da inclusão seja do surdo ou de qualquer pessoa com necessidades especiais deve se desvencilhar do discurso médico - clinico e valorizar os surdos, os cegos etc, como seres capazes, não porque concedemos a eles essa oportunidade, mas porque eles lutaram por esse reconhecimento.