6. Discussion
6.4. CEL VNTR sequence and length alter glycosylation and protein charge
Localizado no norte do estado de M inas Gerais, na margem esquerda do Rio São Francisco, o município de São Romão pertence à microrregião de Pirapora e faz parte da Associação dos M unicípios do Alto e M édio São Francisco, mesorregião do Norte de M inas.
Sua configuração territorial, marcada pela presença de grandes rios como o São Francisco, o Urucuia e o Paracatu, e sua localização em uma área de transição entre o cerrado e a caatinga, favoreceu a atração da migração, devido, principalmente, à abundância de água numa região com predisposição à sua escassez.9
.A população residente no município apresenta atualmente características bem distintas que marcaram sua história desde o início do povoado. Até o final da década de 1990 apresentou predomínio da população rural sobre a urbana e um relativo crescimento populacional. A partir de então este quadro se inverteu, sendo que hoje predominam os moradores urbanos e a população passou por um período de decréscimo, voltando a crescer timidamente nos últimos anos. Podemos constatar isso com a ajuda do quadro 2.
Quadro 2 - EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO RESIDENTE
ANOS URBANA RURAL TOTAL
1970 1.553 10.095 11.648 1980 2.505 9.529 12.034 1991 5.893 8.669 14.562 2000 5.169 2.614 7.783 2005* - - 8.083 2007** 6.704 2.376 9.080
Fonte: IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística * Dados preliminares
** Contagem da população de 2007
A economia local baseia-se nas atividades agropecuárias, principalmente as relacionadas à pecuária de corte e agricultura de subsistência. O setor de serviços e comércio tem crescido nos últimos anos, acompanhando o crescimento da população urbana. No entanto, ele se limita apenas ao fornecimento básico de produtos e serviços à população residente. O quadro 3, com dados do censo realizado pelo IBGE no ano de 2000, mostra a distribuição da população ocupada nos setores econômicos. É possível observar o número pequeno de pessoas economicamente ativas na cidade, devido à grande presença de aposentados e pensionistas entre os seus moradores, ou ainda a pessoas que vivem de algum tipo de recurso assistencialista, como “bolsa-escola”.
Quadro 3 - POPULAÇÃO OCUPADA POR SETORES ECONÔMICOS – 2000
SETORES Nº DE PESSOAS
Agropecuário, extração vegetal e pesca 958
Industrial 206
Comércio de mercadorias 214
Serviços 1.022
Total 2.400
No que diz respeito à agricultura, destacam-se as plantações de milho, mandioca, arroz e feijão como principais produtos agrícolas. Porém não existe quase que nenhum tipo de incremento da produção, principalmente devido à precariedade da infra-estrutura de escoamento e da presença de solos pouco férteis e também pela total ausência de empresas voltadas para o beneficiamento destes produtos. O quadro 4 mostra o levantamento dos principais produtos agrícolas produzidos no município no ano de 2003.
Quadro 4 - PRINCIPAIS PRODUTOS AGRÍCOLAS – 2006
PRODUTO ÁREA COLHIDA
(ha)
PRODUÇÃO (t) RENDIMENTO
MÉDIO (kg/ha)
Arroz em cas ca várzea úmida 104 333 3.201,92
Banana (2) 6 114 19.000,00 Cana-de-açúcar 150 2.180 14.533,33 Feijão (1a.safra) 35 21 600,00 Feijão (2a.safra) 40 36 900,00 Feijão (3a.safra) 9 22 2.444,44 Laranj a (1) 22 100 4.545,45 Mandioca 78 1.092 14.000,00 Milho 193 174 901,55 Coco-da-Bahi a 7 11 1.571,43
Fonte: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Censo Agropecuário/2006 (1) Produção em mil frutos e rendimento em frutos/ha
(2) Produção em mil cachos e rendimento em cachos/há
Na pecuária, destaca-se a criação de gado bovino, quase exclusivamente voltada para o corte, com criação de caráter extensivo, sendo que parte dele é voltada para a produção leiteira com objetivo de complementar a renda familiar. Esta atividade remonta o início do povoamento na região, quando vieram os primeiros moradores subindo o rio São Francisco e trazendo para a região os primeiros rebanhos, o que favoreceu o surgimento da expressão “o rio dos currais”, para designar o rio São Francisco na região norte-mineira.
Quadro 5 - PECUÁRIA - PRINCIPAIS EFETIVOS ESPECIFICAÇÃO Nº DE CABEÇAS Asininos 45 Bovinos 32.500 Bubalinos 96 Caprinos 180 Equinos 1.350 Galináceos 16.800 Muares 340 Ovinos 580 Suínos 1.183
Fonte: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Censo Agropecuário / 2006.
Ao analisarmos o quadro 6, podemos perceber a importância do setor agropecuário para o município, tendo em conta que o setor de serviços é o que gera maiores recursos, mas que se baseia em atividades básicas, voltadas para atender às necessidades da crescente população urbana. É possível, também, avaliar uma relativa pobreza, com baixos volumes de capital.
Quadro 6 - PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) A PREÇOS CORRENTES
Unidade: R$(mil) – cotação do dólar em 01/12/2009: R$ 1,73
ANO AGROPECUÁRIO INDÚSTRIA SERVIÇO TOTAL
1998 3.185 827 7.900 11.912
1999 3.534 1.843 8.636 14.013
2000 3.909 2.068 9.803 15.780
2001 3.428 2.029 10.301 15.758
2002 4.858 2.134 11.537 18.529
Fontes: Fundação João Pinheiro (FJP) e Centro de Estatística e Informações (CEI)
De todos os dados analisados, o que mais me chamou a atenção, no entanto, foi a intensificação dos fluxos migratórios, principalmente relacionados a um êxodo rural na
região, nos últimos dez anos, a despeito de toda uma dinâmica nacional muito anterior no resto do país. Até o ano de 1996, a maioria da população do município era predominantemente rural. De acordo com IBGE, somente no ano de 2000, a população urbana ultrapassou a rural. Esta dinâmica migratória tardia pode ser melhor analisada com a ajuda de Abramovay (1998):
A importância do êxodo rural é confi rmada quando se examinam os dados dos últimos 50 anos: desde 1950, a cada 10 anos, um em cada três brasileiros vivendo no meio rural opta pela emigração. Os anos 90 não arrefeceram em muito esta tendência: se as taxas de evasão do m eio rural obs ervada entre 1990 e 1995 persistirem pelo restante da década, quas e 30% dos brasileiros que então viviam no campo em 1990 terão mudado seu local de residência na virada do milênio. (ABRAMOVAY,1998, p.11)
A vinda da população rural para a área urbana intensificou a demanda pela melhoria na qualidade de vida. Serviços como infra-estrutura de água e energia elétrica foram implantados, sendo que a canalização do es goto iniciou-se apenas no ano de 2009. Houve uma maior preocupação com a educação e a saúde, no entanto os índices de desenvolvimento humano no município permanecem baixos, apesar de apresentarem um relativo crescimento nas últimas décadas.
Quadro 7 - EVOLUÇÃO DO IDH NO MUNICÍPIO DE SÃO ROMÃO
ANO IDH
1970 0,30
1980 0,44
1991 0,50
2000 0,65
Fonte: FJP – Fundação João Pinheiro, 2004.
No quadro abaixo, é possível verificar as características do desenvolvimento humano em São Romão com mais detalhes, de acordo com levantamento do ano de 2000.
Quadro 8 – MUNICÍPIO DE SÃO ROMÃO – ÍNDICES SOCIAIS - 2000
Esperança de vida 63,272 anos
Taxa de alfabetização de adultos 0,775%
Renda per capita 102,793 (reais)
Índice de esperança de vida (IDHM-L) 0,638
Índice de educação (IDHM-E) 0,764
Índice de PIB (IDHM-R) 0,546
Índice de Des. Humano Municipal (IDH-M) 0,649
Ranking por UF (Minas Gerais) 744º
Ranking Nacional 3788º
Fonte: ONU, disponível em: http://www.frgoletto.com.br/GeoEcon/menuecon.html, acess ado em 24/08/2009.
Apesar dos dados serem um tanto antigos, é possível identificar os níveis de pobreza vividos no município de São Romão, os quais podem ser observados até os dias de hoje. A posição ocupada no ranking estadual e nacional coloca-o entre os municípios mais pobres do Brasil. M uitos destes índices têm melhorado, mas nada muito significativo, tendo em vista que somente no ano de 2009 teve início o trabalho de instalação da rede de esgoto na cidade.
Ao analisar estes aspectos, é possível constatar em São Romão a precariedade das condições de vida de sua população. A taxa de alfabetização de adultos, calculada em 0,775%, não leva em consideração o analfabetismo funcional de grande parte de sua população. Constatei em minhas pesquisas que entre os principais agentes de eventos da cultura popular em São Romão, a maioria é analfabeta. O que me chamou mais atenção, no entanto, foi a relação entre a pobreza de seus moradores e o alto custo de produtos alimentícios presente na cidade, devido principalmente às dificuldades de acesso. De acordo com um levantamento feito por mim em outubro de 2009, estas eram as médias de preços dos principais produtos da cesta básica.
Quadro 9 – CESTA BÁSICA EM SÃO ROMÃO - 200910 PRODUTO (kg) VALOR (R$) Arroz 2,50 Açúcar 2,50 Café 13,00 Farinha de mandioca 2,30 Farinha de trigo 2,00 Feijão 2,30 Macarrão 4,50
Óleo de soja (litro) 2,50
Banha de porco (muito consumida no município) 5,00
Sal 1,00 Carne bovina (1ª) 13,00 Carne bovina (2ª) 9,00 Frango (inteiro) 5,00 Batata 3,00 Tomate 3,00 Margarina 8,00
Fonte: Pesquisa de campo / outubro de 2009 Org.: BORGES, M. C.
Na luta pela sobrevivência, observei formas de resistência às práticas capitalistas de consumo e produção. Grande parte da população procura estabelecer estratégias de consumo relacionadas à produção e às trocas recíprocas de alimentos entre parentes e vizinhos, diante dos elevados custos de produtos da cesta básica. É crescente também a venda informal, muitas vezes realizada nas ruas ou nas próprias casas, de produtos que vão desde hortaliças até biscoitos caseiros, leite e queijo.
10 Os preços destes produtos, de acordo com a cesta básica divulgada pelo DIESE (Depart amento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), para Belo Horizonte em dezembro de 2009, foram: Arroz – 1,88 kg; Açúcar – 1,46 kg; Café – 9,76 kg; Farinha de trigo – 2,00 kg; Feijão – 2,60 kg; Óleo de soja – 2,58 litro; Carne (1ª) – R$ 11,00 o quilo; Batata – 2,27 quilo; Tomate – 2,32 quilo. Para os demais produtos, uso a comparação com os preços médios praticados na cidade de Uberl ândia, MG (levantamento feito por mim entre os meses de dez/2009 e jan/2010): farinha de mandioca – R$ 1,80 kg; Macarrão – R$ 3,00 kg; Banha de porco – R$ 3,00 kg; Sal – R$ 0,70; Carne bovina (2ª) – R$ 6,00; Frango – R$ 3,00 kg; Margarina – R$ 4,00.
Tomo aqui como exemplo a estratégia de obtenção de alimentos da família onde fiquei hospedada durante as pesquisas de campo, que pode ser analisado como correspondente ao modo de vida e às estratégias de consumo da maioria da população da cidade.
Quadro 10 - ESTRATÉGIAS DE CONSUMO FAMILIAR EM SÃO ROMÃO
Produtos comprados no comércio formal
(supermercados, armazéns, etc.)
Produtos comprados e/ou trocados entre vi zinhos, parentes e amigos
Produtos produzidos em casa ou em outros lugares* (para o consumo familiar e/ou para venda informal e/ou troca) Açúcar Café Farinha de trigo Macarrão Óleo de soja Sal Carne bovina Frango Batata Margarina Arroz Farinha de mandioca Banha de porco
Biscoito (substituto do pão) Mandioca
Carne suína
Frutos típicos da região (pequi, buriti, baru, etc.)
Peixe Feijão milho Leite Queijo Hortaliças Frutas Doces e biscoitos
* “ outros lugares” correspondem a espaços vari ados, como terrenos baldios usados para a agricultura urbana11 e pequenos sítios, que neste caso é o local de trabalho do chefe da família e onde ele pode obt er e/ou produzi r produtos como leite, queijo, milho, feijão e frutas.
Fonte: Pesquisa de campo / outubro de 2009 Org.: BORGES, M. C.
11 A agricultura urbana present e em São Romão restringe-se a pequenos cultivos de milho, mandioca e hortaliças em quintais ou em lotes vazios, principalmente dos bairros mais recentes como o Novo Horizonte.
Foto 9 – Quintal com plantação de mandioca Autor: BORGES, M.C. Janeiro de 2009.