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Fundada em Belo Horizonte em 21 de novembro de 1915, por um grupo de jovens católicos, a maioria estudantes; entre eles: Olinto Orsini de Castro, Aprigio Ribeiro de Oliveira Jr., Pery Orsini, José Augusto Martins Silva e Paulo Vilhena,102 grupo que tinha a aprovação de D. Silvério Gomes Pimenta, arcebispo de Mariana.

A finalidade da associação era reunir os jovens católicos para orientá-los nos princípios cristãos e sociais e encaminhá-los na doutrina católica, a qual deveriam propagar e defender em qualquer ocasião. A orientação era “formar homens patriotas que compreend[essem] com exatidão os seus deveres de católicos e de cidadãos brasileiros, de acordo com as instrucções da Santa Sé, do episcopado brasileiro e dos congressistas internacionaes da Juventude Católica”.103

Desde sua criação, a UMC104 manteve-se em franca expansão até a década de 1940. A entidade se estabeleceu em outros estados brasileiros e, por conta disso, foi implantado um Conselho Superior em Belo Horizonte e foram instalados conselhos regionais e estaduais. Em 1928, contava a UMC com 15.000 associados, 183 uniões

       

102 LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 227. Sobre a formação dos membros da UMC, ver Anexo 1: Perfil biográfico dos intelectuais católicos.

103 LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 227.

104 Vale ressaltar que o grupo aqui selecionado não corresponde a União dos Moços Cristãos criada em 1844 e composta por jovens protestantes.

locais, 12 conselhos estaduais e 18 conselhos regionais subordinados ao Conselho Superior de Belo Horizonte.105

A UMC servia para consolidar a influência do catolicismo na formação dos jovens, iniciada nas escolas secundárias. Era uma forma de garantir a sociabilidade e a homogeneidade dos jovens aos programas católicos.

Com a não aprovação do Projeto 135, as lideranças católicas (eclesiástica e leiga) convocaram um novo Congresso Católico, que veio a se realizar no dia 8 de setembro de 1914. Durante esse congresso, decidiu-se que, perante a resistência oficial à permissão do ensino facultativo do catecismo fora do horário escolar, deveriam os católicos mudar o foco da luta pela escola, especialmente depois da derrota do projeto de Xavier Rolim. O novo objetivo era a “entronização” da imagem do divino pedagogo nos estabelecimentos públicos de instrução primária.106

A luta pela entronização nas escolas foi gerida e operacionalizada no ano de 1915, pela recém-criada União dos Moços Católicos (UMC). Nessa batalha, os católicos saíram vitoriosos, pois, mesmo sem a autorização explícita por parte do governo, imagens de Jesus Cristo foram introduzidas nas escolas públicas primárias sem qualquer resistência governamental. A entronização das imagens católicas ocorreu, inclusive, na Escola Normal Modelo de Belo Horizonte e no Ginásio Mineiro, escolas públicas símbolos do estado. Para tanto, os católicos organizavam uma cerimônia, na qual membros da UMC e eclesiásticos faziam orações, para, enfim, fixar a imagem de “Jesus Pedagogo” nas escolas.107

Pouco a pouco, a UMC ocupou o lugar da União Popular frente aos movimentos laicos. Em 1915, a União Popular entrou em profunda crise. Nesse mesmo ano, os efeitos da Primeira Guerra Mundial tornavam visíveis os problemas econômicos e sociais e a dificuldade do Estado em manter a ordem social. Os católicos, nesse momento, sinalizavam que a solução para o problema estava na “(re)espiritualização” do Estado e da sociedade. Como afirma Beired (1999), nessa ocasião, os católicos destacavam

       

105 LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 227 106 LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 219. 107 LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 220.

que os aspectos da crise residiam na expansão das ideologias de esquerda no ensino laico, na dissolução dos costumes tradicionais da família católica – manifestada no controle de natalidade, no aborto, divórcio, entre outros. No entanto percebe-se que tais aspectos da crise estavam subordinados a um problema de fundo: a relação Estado e Sociedade, que só podia ser contornado pela cristianização do Estado e da política.108

Acreditando que as causas da crise residiam nas utopias positivistas e no alastramento do liberalismo, os intelectuais católicos apresentavam o catolicismo como única solução. Afirmavam que as obras de caridades, a instrução moral e religiosa, as obras sociais eram campos excelentes para a demonstração da capacidade católica de instaurar a ordem. A disciplina, o trabalho, a educação e a beneficência católica eram considerados elementos fundamentais para a reconstrução nacional.

Vale ressaltar que, no ano de 1916, D. Sebastião Leme publicou uma Carta Pastoral, definida por muitos como o primeiro sinal da grande mobilização dos católicos brasileiros depois da Constituição de 1891. Segundo Nagle,109 a carta de D. Leme serviu para sacudir o “catolicismo dorminhoco” e arregimentar os católicos para a ação. Em outro estudo, Nagle acrescenta que aquele período correspondeu ao surgimento de “uma ampla campanha, e uma multiplicidade de realizações configurando um novo momento significativo: o do entusiasmo pela educação” na difusão do ensino primário popular.110 A partir dessa data, ampliaram-se as discussões sobre a importância da educação para o “soerguimento moral da nacionalidade” brasileira. Tais discussões ganharam maior fôlego na década de 1920.

Assumindo a frente do movimento católico nesse delicado momento, a UMC formou uma nova comissão para gerir as associações católicas em Minas Gerais. Essa comissão recebeu do arcebispo de Mariana a incumbência de convocar o 4º Congresso Católico de Minas Gerais, com a seguinte determinação: “o Congresso terá de manifestar-se sobre os assuntos de palpitante interesse para a hora da pátria destacando- se a QUESTÃO DO ENSINO em seus múltiplos aspectos e a questão da imprensa”.111

       

108 BEIRED, José Luís Bendicho. Sob o signo da nova ordem. São Paulo: Edições Loyola, 1999. p. 84. 109 NAGLE, Jorge. A educação na Primeira República. In: FAUSTO, Boris. História Geral da

Civilização Brasileira. Tomo III. O Brasil Republicano, v. 2: Sociedade e Instituições (1889-1930).

Rio de Janeiro: Difel, 1978. p. 78.

110 NAGLE, Jorge. A educação na Primeira República. Op. cit. p. 80. 111 LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 237.

A utilização de letras garrafais ao fazer referência à questão do ensino revela a importância do mesmo para os católicos, que entendiam ser aquele momento oportuno para expandir seus vínculos com o Estado e demonstrar que a educação católica podia ser útil à integração do estado, quiçá do país.

Tendo em vista esses objetivos, na quarta edição do Congresso Católico Mineiro, realizado em fevereiro de 1918, decidiu-se pela organização de uma associação, sob o título “Agremiação Catholica pró Ensino Religioso”, que agiria particularmente em prol do ensino religioso, sem, no entanto, perder de vista as demais reivindicações católicas.112

A agremiação era dirigida por uma comissão central na capital, com filiais nas sedes diocesanas dos municípios. A comissão central era composta por Furtado de Menezes (professor da Escola de Minas de Ouro Preto), Mário de Lima (diretor da Imprensa Oficial do Estado), Lúcio José dos Santos (professor da Escola de Minas de Ouro Preto), Alípio Peres (reitor do Externato do Ginásio Mineiro de Belo Horizonte), Francisco Magalhães Gomes (professor da Escola Normal Modelo de Belo Horizonte), Olyntho Orsini de Castro (professor da Faculdade de Medicina), e J. Martins Silva (advogado).113

Importante destacar que a comissão central era composta por figuras de amplo prestígio na sociedade mineira e que ocupavam cargos estratégicos no campo do ensino, o que favorecia a difusão dos interesses católicos nesses meios. Entre os objetivos da associação, estavam, segundo Mário de Lima:

a) auxiliar por todos os meios os vigários, no ensino do catecismo, da história sagrada e da doutrina cristã;

b) velar pela pureza e moralidade ensinadas nos grupos e escolas isoladas; c) desenvolver intensa propaganda em favor do ensino religioso e, em geral, da

adoção, pelo Congresso Estadual, do Projeto 135, do Rev.mo Sr. Cônego Xavier Rolim.114

Pouco se sabe sobre a atuação efetiva da “Agremiação Catholica pró Ensino Religioso”, mas fato é que, depois de sua criação, os católicos concretizaram muitas de        

112  LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 250.  113

  LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 250. 114 LIMA, Mário de. O bom combate... Op. cit. p. 249.

suas aspirações, a começar pela sanção da lei n. 752, pela qual o presidente Arthur Bernardes, em 27 de setembro de 1919, facultava o ensino religioso nas escolas primárias, ficando esclarecido que seria ministrado fora das horas dos trabalhos escolares e em caráter facultativo. Sendo a maioria da população mineira declaradamente católica, tal liberação foi amplamente comemorada pelo laicato, que afirmava

ser essa uma atitude que respeitava a liberdade de consciência, o direito que tem os paes catholicos de não querer que sejam os filhos iniciados nessa moral agnóstica que vem perturbar a educação cristã, carinhosamente ministrada no lar.115

Com essa medida, o governo de Arthur Bernardes abriu um novo ciclo de atuação do laicato mineiro, pela participação no ensino, no sentido de ser o primeiro governo, após a Reforma João Pinheiro (1906), a favorecer oficialmente a participação dos católicos na educação. Depois dessa medida, os governos que o sucederam acabaram por atender amplamente as reivindicações católicas, especialmente os governos Raul Soares (1922-1924), Mello Vianna (1925-1926) e Antônio Carlos de Andrada (1926-1930).