Como muito bem afirma Marcuschi (2008), o interesse dos pesquisadores/estudiosos pelos gêneros textuais não é nada recente, mas ultimamente tem tomado grandes proporções.
No entanto, é preciso considerar que desde tempos longínquos esse objeto já despertava desejo em filósofos como Aristóteles (1966), com a Poética, quando
classificava os gêneros literários em tragédia, comédia e epopéia e os gêneros da retórica em judiciário, deliberativo e epidítico, e Platão (2000), com A República, em seu diálogo com Adimanto, quando buscava fazer uma sistematização dos gêneros já estudados pelo autor de A Poética. É relevante ressaltar que os filósofos citados não usavam o termo gêneros textuais, mas gêneros literários ou gêneros da retórica e que, por sinal, foram esses os gêneros até pouco tempo utilizados e estudados nas escolas e para diferentes concursos.
Nos estudos hodiernos sobre o tema em questão, o autor russo Mikhail Bakhtin (2000[1992]) surge com a proposta de que os gêneros do discurso são textos produzidos nas diversas esferas da sociedade. Para esse autor, os gêneros são constituídos de três elementos básicos: estilo, estrutura composicional e conteúdo temático. Esse autor afirma ainda que os gêneros do discurso podem ser considerados como “tipos relativamente estáveis de enunciados”. Isso significa dizer que os gêneros do discurso podem sofrer variações em quaisquer dos seus três elementos constituintes. Assim, uma carta pode ter um estilo informal (aquela que escrevo para um amigo mais íntimo) ou um estilo mais formal (aquela dirigida ao diretor da escola) e ainda assim será considerada uma carta, enquanto gênero.
Os estudos desenvolvidos por Marcuschi (2008) apresentam a distinção entre
tipos textuais e gêneros textuais. Esse autor, sobre os tipos textuais, afirma:
Usamos a expressão tipo textual para designar uma espécie de sequência teoricamente definida pela natureza linguística de sua composição {aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas}. Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção. (2007, p.22)
Em relação aos gêneros textuais o autor afirma que:
Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. Em contraposição aos tipos, os gêneros são entidades empíricas em situações comunicativas e se expressam em designações diversas, constituindo em princípio listagens abertas. Alguns exemplos de gêneros textuais seriam: telefonema, sermão,
carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem, aula expositiva, reunião de condomínio, notícia jornalística, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica, bate-papo por computador, aulas virtuais e assim por
diante. Como tal, os gêneros são formas textuais escritas ou orais bastante estáveis, histórica e socialmente situadas. (2008, p. 155)
Ainda para esse autor, no interior de diversos gêneros textuais estão presentes diferentes tipos ou sequências textuais, daí poder-se afirmar a heterogeneidade dos gêneros. Ou seja, em um gênero, como o romance, por exemplo, é possível que existam tipos ou sequências narrativas, descritivas, argumentativas e até mesmo a presença de um outro gênero como, por exemplo, uma carta ou um poema. Mas, vale ressaltar que esses tipos, ou mesmo os gêneros primários (carta, bilhete, poema etc), conforme Bakhtin (2000)35, estão diretamente relacionados com os gêneros secundários, a exemplo do romance.
Outro aspecto relevante sobre os gêneros textuais é que, dependendo do seu propósito comunicativo, conteúdo temático e estilo, podem apresentar subgêneros. Podemos pensar, por exemplo, no gênero epistolar carta que pode desencadear na carta pessoal, na carta de pedido de emprego, na carta ao leitor, carta do leitor, carta de intenção, carta de recomendação, entre outras, e todas elas com seu propósito comunicativo específico visando a uma determinada situação.
Partindo da definição de gêneros discursivos proposta por Bakhtin e da de gêneros textuais proposta por Marcuschi (2008), consideraremos o texto de opinião um gênero textual/discursivo, até mesmo porque assim o foi considerado no PSS. Para tanto, foi urgente observar a proposta de Swales (apud Andrade, 2000, p. 1118), ao especificar as condições necessárias para considerar um texto como um gênero:
Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos, cujos exemplares compartilham os mesmos propósitos comunicativos. Esses propósitos são reconhecidos pelos membros mais experientes da comunidade discursiva original e constituem a razão do gênero. A razão subjacente dá o contorno da estrutura esquemática do discurso e influencia e restringe as escolhas de conteúdo e estilo. O propósito comunicativo é o critério que é privilegiado e que faz com que o escopo do gênero se mantenha enfocado estreitamente em
35 Bakhtin (2000, p. 28) classifica os gêneros em primários (simples) e secundários (complexos). Aos
primeiros estariam relacionados “a carta, o bilhete, o poema” etc; aos segundos, “o romance, o teatro, o discurso científico” etc.
determinada ação retórica compatível com o gênero. Além do propósito, os exemplares do gênero demonstram padrões semelhantes, mas com variações em termos de estrutura, estilo, conteúdo temático e público-alvo. Se forem realizadas todas as expectativas em relação àquilo que é altamente provável para o gênero, o exemplar será visto pela comunidade discursiva original como um protótipo. Os gêneros têm nomes herdados e produzidos pelas comunidades discursivas e importados por outras comunidades. Esses nomes constituem uma comunicação etnográfica valiosa, porém normalmente precisam de validação adicional.
A partir da definição apresentada por Swales, o texto de opinião nos parece atender a todos os três elementos apresentados por esse autor, constituindo, dessa forma, um gênero textual. Vejamos as condições possíveis para essa nossa posição, uma vez que o texto de opinião apresenta:
Propósito comunicativo: o locutor do texto de opinião terá seu(s) objetivo(s), o
de “convencer alguém” a aceitar seu ponto de vista em relação a uma dada questão, em determinado contexto;
Razão subjacente: as escolhas, em relação ao conteúdo e estilo, tendo em mente
os interlocutores os quais o produtor deseja atingir;
Padrões semelhantes: ainda que os textos de opinião possuam uma estrutura
característica do gênero, podem variar em relação ao conteúdo temático (o texto pode abordar desde a questão do funk carioca à transposição das águas do Rio São Francisco); à estrutura (o texto pode ter apenas a metade de uma página, como duas ou mais páginas); ao estilo (formal ou informal) e ao público-alvo (desde o colega de sala ao Ministro da Saúde). Esse caráter variacionista é o que os torna semelhantes. Mas, podemos ir um pouco mais além e afirmar que, apesar do caráter variacionista, os gêneros textuais tornam-se semelhantes em razão da sua função social (qual seja convencer a respeito de um ponto de vista em consideração de um assunto relevante, como no caso do texto de opinião), de seu estilo e estrutura composicional (qual seja a apresentação de um ponto de vista a partir de determinados argumentos, em linguagem formal).
Com base nessas considerações, podemos dizer que o texto de opinião é o lugar onde o locutor apresenta sua opinião sobre um determinado fato/assunto, tendo como objetivo convencer seu interlocutor a aceitar/assumir o mesmo ponto de vista defendido por ele, o locutor.
Quando da elaboração de um texto de opinião, é necessário que o seu locutor adote uma posição (contra ou a favor) sobre um fato, e que através de argumentos teça essa posição. Para a confecção do texto de opinião, o indivíduo pode lançar mão, por exemplo, de estruturas como “Eu acho que...”, “Na minha opinião...”, “No meu ponto de vista...”, “Para mim...” etc., na construção daquilo que será enunciado.
Dutra (2010) apresenta que algumas expressões, como: em primeiro lugar, em
segundo lugar, finalmente, por um lado, por outro lado etc., servem para articular o
texto como um todo (grupo de períodos, parágrafos e partes maiores do texto). Enquanto alguns operadores, como assim, desse modo, então etc., estão reservados para a conclusão do texto de opinião.
Além de garantir a coesão do texto, com o uso desses operadores, o locutor pode garantir o sucesso na aceitação do seu ponto de vista ou de seus argumentos em relação ao que ele propõe ao seu interlocutor.