5. Diskusjon
5.2. Casestudier
Antes de entrarmos nos significados do luxo propriamente dito, fecharemos o perfil de consumo dessas mulheres abordando suas construções de feminino. Em relação a essa questão, de como o grupo de entrevistadas se define com mulher, além da necessidade de estar bem informada, foi observado que isso é feito muitas vezes através da
comparação/diferenciação com a mãe, tias, filhas, amigas e até mesmo irmãos. Aparece aqui o núcleo familiar como tendo um peso enorme na construção da identidade social dessas mulheres.
Pode ser observado nesta pesquisa, que a origem dos valores introjetados por elas e reafirmados no cotidiano vem da família, núcleo de extrema importância na vida dessas mulheres e praticamente a base, o alicerce para tudo que são e consomem. O discernimento para fazerem suas escolhas vem desta base familiar e das experiências adquiridas ao longo de suas vidas, que foram levadas de volta para esse núcleo como referência do que acontece no mundo lá fora. Daí a importância também dada à informação, ao “estar sempre informada e atualizada”, como já foi visto nesta análise. Além das mídias citadas para isso, sendo a internet um dos principais canais, o ambiente de trabalho ou estudo, como também já foi dito anteriormente, tem papel fundamental como fornecedor de informações, principalmente informações carregadas de um referencial confiável, por terem pessoas de classes mais altas ou de maior capital intelectual convivendo no mesmo ambiente.
“O professor Marcos que me indicou o livro, então eu to gostando” - entrevistada 10.
“Eu li Maquiavel, que o professor indicou e eu achei excelente, muito bom né, “O Príncipe”, adorei” - entrevistada 11.
Trazendo novamente as teorias de Allérès (2000) sobre comportamento de consumo, podemos dizer que estas mulheres, de acordo com seu nível de renda e poder de compra, partem deste núcleo familiar para estabelecer sua escala de prioridades quanto aos objetos e serviços que irão consumir. A maximização de satisfação das necessidades e desejos de
compra é feita, na maior parte das vezes, de forma coletiva e não individual. A individualidade aparece claramente em alguns momentos, como rompantes do eu de cada uma, fato já citado nesta análise por ter sua importância no cotidiano das entrevistadas, porém muitas vezes é caracterizada por elas mesmas como mania, virando algo de significado dúbio e já visto anteriormente como uma possível denegação de um comportamento de compra.
“Eu tenho mania de roupa. Eu comprei algumas coisas mês retrasado e ainda não usei nada. Tá lá guardado” - entrevistada 4.
Por essa fala, após vermos todos os discursos sobre as restrições de consumo que essas mulheres possuem, talvez possamos ligar o excesso ao luxo, ao contrário da literatura tradicional que define a escassez como representante do luxo e essa satisfação de um desejo pessoal acaba sendo nomeada como mania pela entrevistada. Compro e não uso é uma demonstração clara de poder que está dentro da lógica de escassez. É o uso do recurso, no caso o dinheiro, para dizer que ela pode comprar e não usar. Neste caso, não é o produto que é escasso tal como são os produtos de luxo, seletivos, produzidos em séries limitadas, mas o dinheiro é que é escasso para a entrevistada, mas ainda sim, ela se dá ao luxo de comprar objetos e não usar. É o luxo ligado a lógica do descarte de Veblen (1965), neste caso o luxo em jogar o recurso (dinheiro) fora.
Essa dualidade de significados e a denegação de alguns tipos de consumo também serão observadas mais adiante nos depoimentos especificamente sobre luxo.
Para Allérès, o consumo exerce duas funções principais que são: a satisfação das necessidades pessoais e o desejo de pertencimento a um grupo, porém, na análise das entrevistas, é claro o fato de que o núcleo familiar ou de amigos próximos exerça a função quase que de uma cápsula social, onde os indivíduos pertencentes a ela a tem como mundo e
centro de referências. Nesse ambiente acontecem relações de imitação, sensação de pertencimento e diferenciação fundamentais para a construção identitária das respondentes. Em alguns momentos, essas relações fortes parecem mais importantes que as relações de imitação e diferenciação entre classes sociais, mais abundantemente abordadas na literatura sobre luxo.
“Porque a minha mãe sempre se cuidou, sempre! E eu não, não tenho habito... Se dependessem da minha mãe, eles estavam milionários. Porque a minha mãe passa troço na cara todo importado, gasta todo dinheiro dela. Tem aquela cara assim né. Parece que fez plástica, mas não, tá com a carinha sempre assim. Se você vê a diferença dela pra minha tia, é de 9 anos, não é muito, mas se você ver a face da minha tia como ta bem envelhecida e você ver a da minha mãe, é algo estrondoso” - entrevistada 12.
“A minha mãe não saía, nunca deixava de ter, era o que tinha na ocasião. Não tinha outra coisa, não tinha essas parafernálias que tem hoje, era o Leite de Colônia e esse creme da Pond’s, minha mãe na saía sem aquilo. Ela era portuguesa, então era muito branquinha e tal, e a gente roubava do dela e tal. Então até aprendi a passar essas coisas mas eu esqueço” - entrevistada 4.
“Eu gosto de fazer assim, eu acho que puxei muito a minha tia, né” - entrevistada 12.
“Ele me ensinou muito isso, né? Ai agente faz muito isso, a gente faz junto praticamente. Quando tem promoção numa loja, por exemplo: a Zara, no Rio Sul,
meu irmão ama essa loja. E então a gente vai lá, lá tem masculino e tem feminino. Faz aquele pacote, parcela, termina de pagar e assim vai” - entrevistada 1.
“Me pedem, a Bia já está naquela fase de viu um sapato na televisão ela quer, uma roupinha e eu procuro sempre vestir ela como uma mocinha, ela gosta de se vestir no mesmo estilo que e” - entrevistada 2.
Ainda seguindo a lógica da interação familiar, seguem outros trechos relevantes das entrevistas, que mostram a mistura entre identidades das mulheres que pertencem àqueles núcleos:
“Não, não. Maquiagem ela pega, brinco ela pega. Sapato não, que ela tem o pé menor que o meu... Porque os meus perfumes ela pega. Eu escondo pra ela não usar, ela usa. Eu escolho pra ela, ela diz que é pra ela. Mas eu gosto” - Entrevistada 8, falando de sua relação com a filha em relação ao consumo de artigos de beleza.
“E quando eu chego lá as minhas primas pegam, as minhas irmãs e eu volto sem nada, é sério. Aí eu compro bolsa, compro sapato, roupa, e quando eu volto eu volto sem nada. Logo que eu chego elas vão na minha mala, vão fazer a feira (risos), essa é minha, essa é minha, esse aqui é meu, e o outro é meu, aí dá. As minhas bijuterias, meu Deus do céu, eu volto sem nada, eu levo e elas ficam com tudo, perfume, maquiagem, volto sem nada” - entrevistada 9.
“Não gosto de emprestar minhas coisas, mas pra Priscila (filha), ela vem aqui eu pego, aliás, eu pego mais dela do que ela minha. “Ah mãe eu tenho aqui”, eu digo
“Ah, vou pegar, vou sair”, ela me empresta também, até os cordões de ouro dela, eu quebrei até dois, aí ela levou para consertar e disse que não vai mais me emprestar não (risos). Mas se eu pedir ela até me empresta, mas é assim, a gente troca muita coisinha” - entrevistada 7.
Nesse contexto, a casa, por ser o ambiente familiar, é de extrema importância para as respondentes e existem sempre necessidades e desejos a serem satisfeitos em torno dele. É claro nos depoimentos o esforço de se conseguir a casa própria:
“Minha casa é própria. Eu morei muito tempo de aluguel, mas aí minha mãe me deu a cobertura da casa dela e eu fiz a minha casa” - entrevistada 8.
Quem já tem casa própria, se preocupa em estar sempre cuidando da sua:
“Meu foco agora está direcionado para eu poder fazer uma obra em casa, pintar e comprar os móveis, as coisas que eu não pude comprar antes” - entrevistada 5.
E para isso, valem as prestações das “Casas Bahia”:
“Eu me descapitalizei um pouco porque deu cupim ai no quarto, ai o armário caiu, é minha filha, caiu a porta, as gavetas caíram também. A sorte é que não pegou no taco. Ai eu tive que ir nas Casas Bahia” - entrevistada 12.
A casa também é o ambiente coletivo, mas individual, onde quando é possível, cada um tem seu quarto ou seu espaço e isto é marcado também pela presença dos eletroeletrônicos, como computadores e tv.
“Tem, cada um tem, lá tem 4 televisões. Cada um tem seu quarto, cada 1 tem DVD no seu quarto. Eu tenho meu notebook, meu irmão tem o computador dele, essas coisas assim” – Entrevistada 10, que mora com os pais e o irmão.
“Tenho, de televisão tenho três, DVD tenho dois, tenho um vídeo cassete ainda. Computador tem três, tenho um desktop, um notebook e um netbook. Um para cada” – Entrevistada 13, que mora com o marido e o filho.
Ainda dentro desse contexto da casa enquanto ambiente definidor do feminino, a identidade da mulher também e expressa pelo fato de nenhuma das entrevistadas aceitam ser donas de casa, no sentido tradicional da expressão. Assumem certas tarefas em seus lares, mas sempre enfatizam o fato de dividirem ou repassarem algumas a filhos, maridos e até diaristas.
“Me ajudam. Tem que me ajudar, né! Tem que me ajudar. Aí deles se não me ajudar. Eles moram comigo! Eles moram comigo, tem que me ajudar. Eles não querem que eu trabalhe. Eu trabalho porque não gosto de ficar em casa” - Entrevistada 8, ao falar dos filhos
“Na mão, eu? Só se eu fosse louca. Eu não lavo nem meu tênis, olha aí, eu não lavo nem meu tênis, não sou doida de estragar a minha mão. Sou nem escrava, eu jogo tudo na máquina” - entrevistada 9.
Porém, ao falar sobre o lavar de roupas para a família, a mesma entrevistada diz:
“Eu gastar energia para lavar tênis? Não, eles vão lavar na mão. Eu não passo roupa por que gasta energia, eles que passam na hora de sair. Por que se eu passar e guardar quando eles forem sair eles vão passar de novo, entendeu? Aí ontem o Asilio estava passando a camisa dele lá fora, tem que passar, tem que passar que ele vai sair, se não sai amassado. Eu não passo nem as roupas do meu marido, eu só compro camisa para ele prática. Eu lavo e ponho a blusa assim, no cabide”.
Neste trecho observamos novamente a lógica do luxo em ser servido. Ela é servida pela máquina de lavar, pois a máquina é usada só para ela, enquanto o resto da família lava na mão, passam a própria roupa. A maquina de lavar aqui surge como um símbolo de status e exclusividade e serve apenas a dona de casa e a ninguém mais. Se este objeto servir ao restante da família, significará que é a dona de casa servindo ao restante da família e isso para a entrevistada é inconcebível.
“Tem uma pessoa que, eu tenho uma pessoa que vai na minha casa, que lava a minha roupa e que limpa a minha casa toda a semana. Mas no dia-a-dia a minha mãe me ajuda ou eu faço” - entrevistada 13.
Interessante notar que todas elas, sem exceção, vão ao salão de beleza freqüentemente para fazer as unhas e cuidar do cabelo, mas neste caso, existe uma divisão entre cuidar no salão e cuidar em casa,e esta característica pode significar o fato de quererem expressar que não fazem tanto trabalho doméstico quanto suas mães e avós fazem ou faziam. Aparece aqui novamente a lógica do luxo em ser servida.
Pode ser observado portanto, que o eu feminino dessas mulheres se constrói em cima de todo esse contexto e relações familiares, da mesma forma que sua individualidade. Como já foi dito neste capítulo, as entrevistadas vivem em suas cápsulas sociais onde a família é o núcleo principal, porém são indivíduos, e enquanto indivíduos e mulheres tomam certas atitudes que as caracterizem de forma única, mas sempre harmonizada com seu contexto social. Assim, foi utilizada para esta análise uma categoria chamada de “individualidade”, pois ao mesmo tempo que estas mulheres tem um discurso de partilha dos bens com a família, todas também expressaram claramente fatos ligado a seus hábitos de consumo que sejam especificamente individuais, mesmo que sejam descritos como “mania”. Tal fato foi percebido durante as entrevistas através de expressões que funcionavam como gritos do “eu” de cada uma no meio de todo seu discurso de partilha de um consumo coletivo e controle do consumo pessoal. (Grifos nossos):
“Gosto! Compro!” - entrevistada 6.
“Eu gosto da Dove. Eu tenho alergia. Se eu uso qualquer um me da coceira, mesmo quando o sabonete é branco me da, não sei por que, quando eu acabo de tomar banho meu corpo fica coçando. Então gosto do Dove” - entrevistada 10
“Não empresto e não gosto de pegar emprestado nada com ninguém. Não
gosto de emprestar também. Eu sou muito apegada as minhas coisas. Eu sou
ciumenta. Não mexa nas minhas coisas. Cara, não, sério mesmo! (risos) Eu tenho ciúme das minhas coisas. É uma coisa estranha. Não gosto de compartilhar não, não
gosto. Meu é meu!... Não empresto e não gosto de pegar emprestado nada com
Eu sou ciumenta. Não mexa nas minhas coisas. Cara, não, sério mesmo! (risos) Eu tenho ciúme das minhas coisas. É uma coisa estranha. Não gosto de compartilhar não, não gosto. Meu é meu!” - mesma entrevistada.
“Muito animada, nossa, não vejo a hora de estar na minha casa. Minhas coisas, enfim, fazer o que eu quero a hora que eu quero, sem ter que mãe brigar, reclama.” - entrevistada 2.
“Eu espero um ano todo para fazer essa viagem de férias” - entrevistada 9.
É onde expressa seu verdadeiro eu, em sua cidade natal e com sua família. Em relato apresentado acima, a mesma entrevistada fala sobre partilha ao dizer que suas primas e irmãs tomam posse de tudo que leva em sua mala quando vai para sua cidade natal. Em seu discurso, ela compra coisas ao longo do ano, como roupas, sapatos, maquiagens, bijuterias, e deixa guardado para levar para a viagem, onde também não usa. É a lógica puramente da referência de mulher moderna para a família, que foi morar em uma cidade grande como o Rio de Janeiro.
“Eu sou assim, eu tenho que parar com esse consumismo meu, entendeu? Gosto de pintar meu cabelo, toda semana faço a unha, entendeu?” - entrevistada 7.
“Todo mundo fala do funk, mas eu gosto. Quando eu tô mexendo no meu rádio e tem uma música funk eu pá, ponho ali e já fica aquela música, tem um programa na rádio que é de tarde, que é só de funk” - mesma entrevistada.
Todas as entrevistadas falaram especificamente de si em algum momento e como fazem para se sentir mulher, cuidando do seu lado feminino, em meio a uma rotina atribulada de tarefas domésticas e profissionais. O seu papel como mulher, como mãe, como esposa, como dona de casa e também como provedora, papel social hoje já inserido na esfera do feminino, ajudarão portanto no entendimento dos significados cultural e social atribuídos por estas mulheres ao luxo, seja ele negativo, como algo supérfluo e que não cabe no contexto familiar e coletivo que prezam tanto, seja como uma espécie de prazer, felicidade, realização da família e auto-realização, desde que esta auto-realização não prejudique a cápsula social em que vivem, tendo a família como principal componente. Assim, talvez o luxo para as entrevistadas possa ser um acesso a mais que conseguem a bens ou situações considerados supérfluos fora do ambiente coletivo, sem prejudicá-lo. A questão do luxo, seus significados e simbolismos, será vista então na próxima sessão deste capítulo.