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Inúmeros foram os estudos sobre as CEBs, não temos a pretensão de avançar nesses estudos, no entanto, queremos nos apropriar de alguns deles para identificarmos esta forma de expressão da religiosidade que penetra fortemente na sociedade brasileira, merecendo todos os estudos que até hoje já foram feitos e que reforçam a idéia de uma temática inesgotável.

Considerando as dificuldades de estudo, tendo em vista a pluralidade de grupos e movimentos existentes e as perspectivas diferenciadas de estudos no que tange as CEBs, Petrini afirma que:

Apesar dessas dificuldades, ou melhor, dizendo, por causa delas e do desafio que constituem, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) estão merecendo sempre maiores atenções por parte dos estudiosos, teólogos e pastoralistas. Assiste-se especialmente na década de 70, ao multiplicar-se de folhetos, apostilas, livros, procurando descrever ou entender ou oferecer contribuições para as CEBs. (...) normalmente a descrição das comunidades é acompanhada de uma leitura do contexto sócio-político no qual elas se desenvolvem e de uma projeção para o futuro, com indicações a respeito do que as CEBs deveriam vir a ser, de acordo com a experiência e a visão de cada autor. (1984, p. 12).

18 Evidentemente há outras tipologias, que considerando a velocidade em que são processadas as mudanças no campo religioso, não podem ser fixas ou rígidas, entretanto, a nossa opção pela tipologia do Professor Cândido Procópio Ferreira de Camargo se dá pela elaboração conceitual inovadora no seu período e por ser um marco no estudo das religiões no Brasil. Outras tipologias podem ser verificadas, sobretudo no texto de PARKER, Cristián. “Fragmentação do campo católico”. In: Religião Popular e

Modernidade Capitalista. Petrópolis, Vozes, 1995. Neste texto o autor apresenta quatro tipos: católico tradicional, Católico popular racionalista, Católico popular renovado tradicional e Católico popular renovado. Com o avanço do MRCC, acreditamos que já teríamos que pensar uma tipologia específica que caracterize melhor esse movimento.

Evidentemente o foco de nossa pesquisa é outro, por isso nos propomos apenas a um breve panorama histórico para possibilitar uma compreensão melhor de algumas falas.

Podemos situar o surgimento das CEBs num contexto de busca de congregar os mais pobres, conscientizando-os da necessidade de se organizarem para reivindicarem seus interesses. Desta forma, há uma clara relação entre a mensagem cristã do Evangelho e a realidade do povo hoje, sendo a “palavra” um instrumento de "conscientização" que tenta "unir fé com a vida" atribuindo um sentido religioso ao engajamento em uma luta política.

Benedetti (1988) apresenta o contexto histórico do surgimento das CEBs, enfatizando que a criação das Comunidades Eclesiais de Base é proposta no Plano de Pastoral de Conjunto que articula a ação da Igreja de 1966 a 1970. Lembra uma conversa pessoal com o Padre José Marins, um dos elaboradores do plano em que as Comunidades Eclesiais de Base são salientadas como resultante primeiramente da renovação paroquial, lembrando que após o Concílio há uma busca contínua de mudar a forma de ação no interior da Igreja Católica, seja por meio da reforma litúrgica, seja na relação com os leigos, que ganham maior autonomia, seja na sua missão.

Os temas das Campanhas da Fraternidade desse período lembram bem esses aspectos da reforma. Basta lembrarmos o tema da campanha em 1964: “Igreja e Renovação” com o lema: “Lembre-se: você também é Igreja”; e em 1965 o tema “Igreja e Renovação” é repetido, com o lema: “Faça de sua paróquia uma comunidade de fé, culto e amor”. Neste período, lembra Benedetti (1988), a renovação paroquial, ao lado da modernização e racionalização das atividades religiosas, criou os chamados grupos de quarteirão, grupos que visavam atender os esforços da Igreja para criar um catolicismo de opção, por meio de pequenos grupos de reflexão bíblica. Esses grupos aos poucos foram assumindo o que hoje denominamos CEBs.

As CEBs surgem também como estratégia da própria Igreja para dinamizar a vida religiosa, numa tentativa de recuperar o espaço que o catolicismo estava perdendo, verificado, sobretudo pelos dados dos censos a partir da década de 40.

As questões sociais são exploradas e os grupos vão assumindo uma postura de denúncia das situações consideradas injustas. Apenas para exemplificar, os temas da Campanha da Fraternidade na década de 70, que são estudados nas CEBs por meio de subsídios, abordam a preocupação da Igreja com a realidade social do povo, como proposta de denunciar o pecado social e promover a justiça. Por meio desta nova inclinação, as CEBs promovem a formação de militância político-partidária. (Pierucci e Prandi, 1996, p. 69).

As CEBs surgem como “um novo modo de ser Igreja”, descentralizando a paróquia e possibilitando a presença da Igreja nos lugares mais afastados, alterando a própria base da organização eclesial. Ocorre, assim, uma transferência do poder religioso da Paróquia para as comunidades dirigidas por leigos os quais assumem o protagonismo de uma nova prática, por meio de uma identificação com o outro, em meio às situações em que vivem, gerando um Desejo de mudança que impulsionará o surgimento de um novo ator social. Em suas novas práticas evidencia-se um sujeito-em-constituição.

O leigo assume a condição de agente evangelizador, configurando-se num tipo de catolicismo distante do modelo tradicional e romanizado. Como salienta Oliveira:

Os setores populares, organizados nas CEBs e nas Pastorais definem-se, desde sua origem, como grupos nitidamente religiosos e logo se definem como grupos de contestação do catolicismo massivo que separa a mensagem evangélica da vida comunitária. Uma “Igreja do Evangelho” que contesta a “Igreja da tradição”, uma Igreja de comunidade em oposição a uma Igreja de massa, um catolicismo de vida comunitária que critica a religião sacramentalista, a “Igreja popular” só mais tarde vai adquirir um perfil político de “esquerda”. Aí reside uma grande diferença com a “esquerda católica” dos anos 60, cuja contestação política podia compatibilizar-se com um catolicismo restrito à esfera familiar e privada, enquanto na “Igreja da Libertação” religião e prática política relacionam-se tão intimamente que geram “um novo modo de ser Igreja”. (1992, p. 48).

Esta expressão “um novo modo de ser Igreja”será bastante evidenciada nas falas, caracterizando um dos indicadores do discurso, por constituírem-se num discurso homogêneo, considerando alguns princípios orientadores da ação que caracteriza o que Covre (1996) chama de cidadania-em-construção, presentes na maioria das falas, destacando a articulação entre a fé e a vida,

como meio necessário para a transformação social, resultante da participação efetiva dos leigos, como também explicita Pierucci e Prandi.

O fator marcante na renovação da Igreja que emergiu com as CEBs está na participação efetiva dos leigos na vida eclesial com necessária perspectiva de transformação social. O surgimento destas comunidades nas periferias urbanas tem como contexto a carência da população, a distância dos centros de poder público e eclesiástico, a ausência quase constante de padres e a aliança motivação religiosa e manifestações por melhoria nas condições de vida local. (1996, p. 70).

Isso se nota ao considerarmos a historicidade das CEBs, que são impulsionadas pela profunda mudança proporcionada pelo Concílio Vaticano II, com a redefinição da Igreja como Povo de Deus, trazendo novas implicações para a organização da Igreja em resposta ao processo de secularização promovido no seio da modernidade. Com a concepção nova de Igreja a paróquia deve descentralizar-se, dando lugar às pequenas comunidades, para atender mais às necessidades urbanas, sobretudo às necessidades de pertença e acolhimento do homem que vive na cidade, que cai no anonimato. Isso fica evidente nas falas.

Essa consciência, sob o impulso do Concílio Vaticano II, ganha espaço e pode ser traduzida pela necessidade de renovar as estruturas por meio da comunhão com as bases.

Os bispos, no Encontro Latino-americano em Medelín (1968), definem as Comunidades de Base da seguinte forma:

Uma comunidade local ou ‘ambiental’ que corresponde à realidade de um grupo homogêneo, e de dimensão que permita a troca pessoal e fraterna entre os membros... É o núcleo eclesial, o primeiro e fundamental. Deve, em seu próprio nível, assumir a responsabilidade da riqueza e da expansão da fé, como do culto que é sua expressão. È assim a célula inicial de estruturação eclesial, foco de evangelização, e, atualmente, fator primordial de promoção humana e de desenvolvimento. (CELAM, 1968, p. 152).

Há uma nova concepção de Igreja, próxima das diretrizes do Concílio Vaticano II. A idéia de Igreja como Povo de Deus é amplamente difundida e adotada entre os leigos que assumem o protagonismo da evangelização a

partir da base, esse novo enfoque pode também ser entendido se considerarmos o conceito mais geral de CEBs.

As CEBs se definem em razão de três termos: 1) comunidade: aglomerado de pessoas unidas por laços de solidariedade, compondo uma identidade geograficamente definida (os membros das CEBs são, antes, integrantes de uma vizinhança); 2) eclesial: de ecclesia (assembléia, igreja), portanto, congregação de fiéis que é parte componente da Igreja Católica; 3) de base: apesar de identificadas com as camadas populares e definidas no discurso teológico como ‘comunhão do povo pobre e oprimido em comunidade’, as CEBs se dizem de base de um ponto de vista sociológico, por apresentarem características de assembléia estável de fiéis, que formariam assim a Igreja local. (Pierucci e Prandi, 1996, p. 69).

No entanto, se queremos compreender as CEBs, precisamos compreender os sujeitos que dela emergem, e para compreendê-los é necessário compreender os seus discursos e perceber aqueles que constituem os sujeitos.

Para uma análise do social e do subjetivo que emergem das CEBs, passamos a apresentar os resultados das escutas que realizamos, primeiramente das CEBs e depois nos MRCC, no entanto, faz-se necessário compreender a metodologia utilizada para a coleta e tratamento dos dados, assim como retomar as pretensões iniciais da pesquisa.