O estudo do empreendedorismo tem sido abordado a partir de várias perspectivas e disciplinas. A inovação e mudança como perspectivas de melhorias na produtividade e competitividade econômica são concepções que legitimam a “era do empreendedorismo”. Masiero (2009) menciona-os como inusitada revolução social neste novo século. Schumpeter (1982) evidenciou de forma efusiva para o fato de o empreendedor quebrar o equilíbrio do sistema econômico de oferta e procura com a introdução de novos produtos e serviços, novos métodos de produção ou conquistando novos mercados. Esse fenômeno foi chamado de
“destruição criativa”.
Dornelas (2005) destaca que os empreendedores estão eliminando barreiras comerciais e culturais, encurtando distâncias, renovando conceitos, quebrando paradigmas e gerando empregos e riqueza para a sociedade. Drucker (1995) define empreendedor como o indivíduo que tem atitude de unir ou administrar recursos na forma de uma empresa,
assumindo riscos constantes com o negócio e com alto poder de alcance de resultados diante das oportunidades.
O comportamento do empreendedor brasileiro é analisado pelo Global
Entrepreneurship Monitor (GEM) faz dez anos, de forma ininterrupta. A classificação de
empreendedores é disseminada como iniciais e estabelecidos. Os empreendedores iniciais têm 42 meses (três anos e meio), período que a literatura considera latente para a sobrevivência de um empreendimento. E dessa amostra subdividem-se em dois tipos: nascentes, aqueles à frente de negócios em implantação – busca de espaço, escolha de setor, estudo de mercado e que geraram remuneração a pelo menos três meses; e novos, cujos negócios já estão em funcionamento. Os empreendedores estabelecidos são aqueles à frente de empreendimentos com mais de 42 meses.
Na última década, as MPEs têm melhorado sua longevidade, mesmo que de forma acanhada. Os motivos dessa melhora estão associados à estabilidade econômica e ao empreendedorismo. Zouain; Oliveira; Barone (2007) afirmam que a criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento de negócios no Brasil passa pelo estímulo ao empreendedorismo. Ainda os autores, evidenciam que o tema é crucial na agenda presente do desenvolvimento socioeconômico brasileiro, pois afeta diretamente o processo de inclusão dos jovens no mercado de trabalho. O Brasil apresenta a sexta maior taxa de empreendedorismo em estágio inicial (TEA), no ranking dos vinte e dois países com nível comparável de desenvolvimento. De 2001 a 2008 a TEA manteve-se em torno de 13%. Para análise desta tese foi pesquisado os empreendedores estabelecido considerando que as empresas estão ativas a mais de cinco anos de existência.
Degen (2009) descreve que a disposição de assumir riscos por parte dos empreendedores varia com seu preparo e conhecimento para desenvolver seu negócio e outros interesses que inibem sua decisão de fazê-lo. A tentativa é explicar o comportamento do dirigente da pequena empresa e os desdobramentos no processo de gestão da organização.
A ênfase atual visa estimular a formação de empresas de sucesso, que possam ter vida longa e diminuir os riscos inerentes aos processos de abertura, gestão e inovação nas organizações. Assim sendo, Schumpeter (1982) classifica como empreendimento a realização de combinações novas e empresários inovadores cuja função é realizá-las, como: criação de um novo negócio; inovação nos métodos de produção; inovação em produtos e serviços; descoberta de novas fontes de insumos e abertura e diversificação de novos mercados. Neste ínterim, é preciso ressaltar que, se tais combinações não forem levadas à prática, não são economicamente relevantes para a sociedade.
O interesse por estudos na busca de desmistificar o empresariado e as novas empresas, com suas características e vantagens competitivas deu origem a uma vasta literatura refletindo várias disciplinas nesse conteúdo. Souza (2005) em revisão conceitual apresentou a diversidade de características relacionadas ao empreendedor.
Características Autores J . Schh um pet er D. M cCle lla n d M . Weber L . J . F ilio n R. E . M cDo na ld E . Deg en P . Drucker R. L a lka la I. Dut ra B a rr o s e P ra tes H . M intz berg E . Ang elo L o g enec ker et a l. E . L eit e Ca rla nd et a l. F re se et a l. T O T A L Buscar Oportunidades x x x x x x x x x x x 11 Conhecimento do Mercado x x x x x 5 Conhecimento do Produto x x x x x 5 Correr Riscos x x x x x x x x x x 10 Criatividade x x x x x x x x x 9 Iniciativa x x x x x x 6 Inovação x x x x x x x x x x x x x x x x 16 Liderança x x x x x x x 7 Necessidade de Realização x x x x x 5 Proatividade x x x x x 5 Visionaridade x x x x x 5 Quadro 8 - Matriz de características do empreendedor e autores
Fonte: Souza (2005)
A matriz das características de empreendedores revela de forma pontual a predominância da inovação como fator de diferencial do empreendedor. A busca por oportunidades, correr riscos e criatividade predominou nas análises dos estudiosos.
Nesse contexto, o tratamento do empreendedorismo requer uma atenção quanto à abordagem conceitual, considerando que há uma interdependência com facetas da visão funcional focado no papel de empreendedor; os estudos de gestão e organização tem se concentrado no processo; enquanto que as ciências sociais tendem a enfatizar os aspectos pessoais (BARNEY; HESTERLY, 2011; DEGEN, 2009; FILION, 1999).
Uma vertente de estudos empíricos de medidas de empreendedorismo retrata a relação da atividade econômica explicada por pequenas empresas. Também se somam estudos que utilizam dados sobre autoemprego, número de participantes do mercado (concorrência) ou uma empresa start-ups como um indicador de atividades empresariais (OCDE, 2009, p. 22).
Essa vertente tem o constructo de base do empreendedorismo. Na formação do profissional da área da administração, o ensino do empreendedorismo tem se caracterizado como fator preponderante e inclusive está presente nas escolas de administração. Mello, Melo Jr e Mattar (2011) em pesquisa nacional sobre o perfil do profissional da administração constataram o empreendedorismo em suas habilidades e competências, sendo indicado por professores e empresários como diferencial desse profissional.
É imprescindível a discussão do empreendedorismo nas universidades, e priorizar sua discussão em qualquer curso, visto que empreendedorismos deveria:
[...] potencializar e focar: na identificação e no entendimento das habilidades do empreendedor; na identificação e análise de oportunidades; em como ocorre a inovação e o processo empreendedor; na importância do empreendedorismo para o desenvolvimento econômico; em como preparar e utilizar um plano de negócios; em como identificar fontes e obter financiamento para o novo negócio; e em como gerenciar e fazer a empresa crescer (DORNELAS, 2005, p.52).
Gifford et al. (2009) explicam que o conhecimento está intimamente associado à função de empreender. A característica de personalidade do empreendedor não tem uma lógica perfeita, mas se legitima na atitude de ousar diante do profundo conhecimento da dinâmica organizacional e de mercado. Na investigação destas questões, a abordagem adotada deve considerar um conjunto de fatores, a partir de uma perspectiva sistêmica, a influência do processo empreendedor e consequentemente o desenvolvimento empresarial. Filion (1999 p. 11) afirma que “Quanto mais completo for o conhecimento do empreendedor e, ainda, sua imagem e entendimento de um setor de negócios, tanto mais realista será sua visão”.
Esses fatores podem, de forma simplificada, ser agrupados nas seguintes categorias, considerando a literatura, nas condições:
- sociais e econômicas – representa um impacto sobre o perfil das famílias a partir
do qual potenciais empreendedores podem surgir. Em sociedades onde existe um alto grau de fragmentação social, por exemplo, é de se esperar que uma parcela considerável da população tenha dificuldades de acesso à educação ou rendimentos básicos que permitem poupar para empreender.
Em contraste, nas sociedades mais interligadas (com acesso à tecnologia da informação) existem canais mais frequentes de comunicação entre pessoas de diferentes setores sociais. Estes melhoraram a interação, aprendizagem e o fluxo de informações relevantes para a atividade empresarial (MASIERO, 2009); Drucker (1995) pontua que o empreendedorismo pode ser motivado por mudanças sociais como: incongruências entre o
real e o ideal; mudanças macroeconômicas e microeconômicas., acontecimentos externos inesperados. Essa realidade é constatada no cenário brasileiro.
Níveis de renda também afetam o empreendedorismo. A alta renda per capita tem um impacto positivo sobre o volume e diversidade da demanda por bens e serviços, ampliando o escopo de oportunidades para a emergência de novas empresas baseadas no conhecimento e diferenciação da oferta (GEM, 2010a).
Além disso, as condições macroeconômicas, tais como o comportamento da demanda ou o grau de estabilidade econômica têm um impacto sobre o contexto no qual o empresário possa identificar oportunidades e decidir para empreender. Gastaldi (2005); Rossetti (2003) afirmam que a estabilidade e o crescimento econômico têm um efeito positivo sobre as expectativas dos indivíduos que se veem na posição de criar sua empresa. Schumpeter (1982) sentencia que a condição para o desenvolvimento econômico decorre da existência do empreendedorismo e novas combinações produtivas. O ambiente econômico, na visão do autor, seria modificado a partir de indicadores associados ao empreendedorismo.
- Gestão do conhecimento – essa categoria associa-se diretamente a mudança na estrutura industrial mundial, para uma menor concentração, descentralização e incremento tecnológico (AMARAL FILHO, 2011). O processo de mudança tecnológica e a intensificação da concorrência global provocado pela globalização e liberalização econômica, a hipótese de que o incentivo ao empreendedorismo significa promover competitividade de um país, hoje, parece mais válida do que nunca. Mas, de forma imperativa, o conhecimento é um dos componentes principais para viabilizar essa “era do empreendedorismo”, auxiliando a difícil tarefa de manter-se competitivo e com longevidade. A função da gestão do conhecimento é permitir para uma organização a possibilidade de alavancar seus recursos, em termos holísticos, sendo uma estratégia para gerenciar ativos da organização, apoiando a gestão na tomada de decisão, maximizando sua competitividade e capacidade de criatividade e inovação (NELSON; WINTER, 2005; NICOLSKY, 2001; PORTER, 1999; WOOD JUNIOR, 2007; ZANJANI et al. 2009).
- Cultura e sistema educacional – a cultura é o conjunto de normas e valores de uma sociedade. Vários aspectos culturais, como o valor social atribuído ao empresário, atitudes em relação ao risco de fracasso, e a presença exemplar de modelos empresariais são fatores culturais que têm um impacto sobre a formação da vocação empresarial (HAMEL; PRAHALAD, 1995).
Em sociedades que têm uma cultura favorável ao empreendedorismo, é mais viável para pessoas que desejam ser empreendedores a ganhar reconhecimento social, de ser
independente. Hoffman (2004) declara a família, o sistema educacional, as empresas em que trabalhou anteriormente, e os meios de comunicação como fatores que definem contextos que são particularmente influentes sobre a cultura e tem um impacto na formação da motivação do empreendedor. Carvalho e Ronchi (2005) ponderam que a cultura é sempre evolutiva e auto- organizadora, mas não pode ser considerada como atributo altamente definido. Tomando a ideia de Morgan (2002), a dimensão cultura está na invisibilidade da organização e metaforicamente o que conseguimos perceber é uma minúscula partilha de sua presença. Essa assertiva transporta a discussão para o entendimento do imaginário do empreendedor como requisito indispensável na gestão das MPEs.
- Políticas Públicas e Regulamentação – Esta categoria inclui o conjunto de regras e políticas que têm impacto na criação de empresas (impostos, requisitos processuais necessários para estabelecer formalmente uma nova empresa, iniciativas e programas para desenvolver o empreendedorismo etc.). A Lei da Micro e Pequena Empresa foi um marco histórico de apoio e regulamentação para esse segmento empresas no Brasil, pois afeta, por exemplo, oportunidades de negócios e o acesso, questões fiscais, a aquisição de vocações e habilidades, e entrada no mercado (LEMES, 2010). É surpreendente que o atual debate discute a importância do empreendedorismo principalmente em relação aos países desenvolvidos e que a questão de como promover o empreendedorismo parece ser principalmente uma preocupação de decisão política (OCDE, 2009).
A existência de suporte adequado para empresários, para pessoas que desejam expandir suas empresas, deve ser permeada pelos governos. O interesse no estudo das políticas e instituições que promovem o empreendedorismo tem crescido significativamente nos últimos anos, bem como o número de países implementando iniciativas para estimular a criação de empresas.
- Estrutura Produtiva e dinamismo – O perfil setorial e regional, bem como o tamanho, das empresas existentes e instituições, isto é, a estrutura produtiva, afeta o tipo de trabalho e profissional, a experiência que os indivíduos podem obter antes de se tornarem empreendedores pode contribuir, em diferentes graus para o desenvolvimento de competências empresariais no mercado de trabalho e na formação de suas redes de relacionamentos. As MPEs, por exemplo, são geralmente considerados bons "canteiros" para os empresários porque, nas empresas, os indivíduos obtém uma compreensão mais ampla da função empresarial que eles fazem em grandes corporações (LOGENECKER et al., 2007)). Além disso, expõe Sanders (2011) o dinamismo dos vários setores ou mercados e a magnitude das barreiras à entrada, influencia o perfil das oportunidades de iniciar novos
empreendimentos e, consequentemente, a natureza das empresas criadas. Encontrar novas combinações de fatores de produção é um processo de descoberta empresarial que se tornará o motor que impulsiona o desenvolvimento econômico (SCHUMPETER, 1982).
A importância da inovação tecnológica, agregando valor como processo no contexto corporativo, funciona como eixo central do desenvolvimento desse sistema. A inovação tecnológica na perspectiva de processos é formada por um conjunto de atividades inscritas em determinado período, que acaba por introduzir no mercado uma ideia em forma de produtos e serviços novos – com êxito, criatividade e pela primeira vez (MASIERO, 2009, p. 416).
- Condições pessoais – Esta categoria refere-se ao perfil sociodemográfico do empresário e de competências empresariais (propensão para assumir riscos, a tolerância para o trabalho duro, gestão de capacidades, criatividade etc.). Por definição, competências empresariais têm um impacto sobre os vários aspectos do processo empresarial e, como indicados nos parágrafos acima, são influenciados pela família, setores educacionais e ambientes de trabalho (HAMEL; PRAHALAD, 1995; ROBBINS, 2005). Quanto mais reducionista as abordagens para o fenômeno empresarial, mais tenderão a se concentrar exclusivamente sobre esse fator.
As categorias apresentadas são complementares e representam de forma latente evidências na literatura sobre empreendedorismo. Um dos grandes desafios associado às MPEs é a gestão profissional. A grande variação da forma como essas empresas são administradas, na maioria das vezes de forma até mesmo hereditária caracterizando-se uma gestão familiar, sem demérito, revela-se limitada quanto à gestão profissional.
[...] há um espectro entre extremos que apresentam, de um lado, profissionais com poucas qualificações e, de outro, aqueles altamente qualificados. Na extremidade menos profissional do espectro, encontram-se empreendedores e outros gestores que confiam muito na experiência passada, nos caprichos pessoais para determinar a direção da empresa. Na maioria das vezes, as idéias de motivação desses empreendedores estão baseadas na maneira como foram tratados em relacionamentos profissionais e familiares anteriores. (LONGENECKER et al., 2007, p. 330).
A área do empreendedorismo, por seu aspecto eclético, tem diferentes níveis de análise de estudo: individual, grupal, organizacional, regional e da sociedade em geral. A diferenciação entre empreendedor e gestor é feita por Filion (1999, p. 12): “os gerentes buscam atingir metas e objetivos a partir dos recursos disponíveis, dentro de uma estrutura predefinida ou copiada. De alguma forma, os empreendedores são detectores de espaços de
mercado e criadores de contextos”. A diferenciação sentencia o formato do gestor para a
funcionalidade corporativa, para o aparelho da gestão, conduzindo processos de trabalho e delineando ações de execução operacionais e liderando pessoas.
O empreendedor busca uma maior amplitude de atuação, de forma mais estratégica com ênfase para o ambiente e os aspectos que consolidem a competitividade empresarial. Essa lógica associada às MPEs representa a atuação do proprietário desse segmento de empresas atuarem nas duas facetas. A condução do estudo das MPEs se agiganta quando admite a necessidade da integração do papel do empreendedor na complexa seara que envolve o desafio de ser uma organização longeva. A visão sistêmica e a complexidade são consideradas parte integrante da cadeia de valor do empreendedor.