As experiências de desrespeito são fundamentais na discussão sobre reconhecimento proposta por Honneth (2009). Constituem-se como formas de reconhecimento recusado e, quando compartilhadas por um grupo, tornam-se motivação para a luta por reconhecimento no âmbito público.
Conceitos negativos dessa espécie designam um comportamento que não representa uma injustiça só porque ele estorva os sujeitos em sua liberdade de ação ou lhes inflige danos; pelo contrário, visa-se àquele aspecto
de um comportamento lesivo pelo qual as pessoas são feridas numa compreensão positiva de si mesmas, que elas adquiriram de maneira intersubjetiva. (p. 213)
Tais experiências são intrínsecas às formas como se estabelecem as interações sociais em cada sociedade, porém, são vividas subjetivamente por cada pessoa a partir de sua configuração subjetiva. Como poderemos ver no depoimento de Flávia, o impedimento de exercício de sua cidadania como pessoa capaz de fazer escolhas e realizar planos pessoais se constitui como experiência de desrespeito que é devastadora para a pessoa. A experiência de desrespeito se apresenta em uma ruptura de normas que se pressupõe que sejam válidas. A conversa com Flávia sobre sua experiência em relação ao seu acesso ao curso universitário nos mostra como a experiência de desrespeito pode ser vivenciada no âmbito pessoal.
C: O que você estudou?
F: Assistente social, só que eu não terminei devido ao problema de saúde. Eu não pude estudar porque nessa
época tinha muita burocracia, então teve uma unanimidade que eu não poderia estudar devido à agressividade, devido aos surtos que [eu] tinha.
C: O que você achou disso tudo? Como foi isso pra você?
F: Pra mim isso foi um choque, né. Foi um choque onde eu fiquei, no ano de 2004, internada por quatro
vezes. Onde eu tentei autoextermínio por várias vezes. Isso é o que está no prontuário, mas eu mesma não lembro de nada não. Fala que eu tentei autoextermínio, mas eu não lembro que tentei nada não. Mas foi muito difícil, isso é uma coisa que marca até hoje, que dói ainda, porque eu fui impedida de exercer meu direito de plena cidadania.
O impedimento de realizar seu plano de cursar a faculdade de Assistência Social é uma forma de violência, tão violenta quanto a própria internação psiquiátrica, uma vez impede a pessoa de exercer a sua autonomia, suas escolhas não só como cidadã, mas também como sujeito em seu processo de desenvolvimento pessoal, levando a uma sensação de aniquilamento de si tão intensa que, no caso de Flávia, culminou com processo de sofrimento mental intenso, crises, tentativas de autoextermínio e, em um círculo vicioso, mais aniquilamento através da internação psiquiátrica. Honneth (2009) aponta que a experiência de
desrespeito, o sofrimento da tortura ou da violação estão sempre acompanhados de “... um
colapso dramático da confiança na fidedignidade do mundo social e, com isso, na própria
autossegurança.” (p. 216). Salientamos que essa é a reação vivenciada por Flávia, sujeitos
diversos teriam reações diversas. Mas o que pretendemos mostrar é como o desrespeito pode ser vivido no âmbito subjetivo, podendo, a princípio, minar possibilidades de autorrealização. Como veremos no depoimento adiante, a dimensão das relações jurídicas, constituindo autorrespeito, são de extrema importância para se construir uma saída dessa condição de
aniquilamento como sujeito, como pode ser visto na fala de Flávia, ao ser questionada se houve diferença na forma como as pessoas a viam antes e depois de se tornar militante da luta antimanicomial:
F: Tem uma grande diferença, porque antes eu era vista como uma coitada. As pessoas pisavam em mim
igual se pisa em cachorro, ninguém me respeitava porque eu não sabia nem os meus direitos. Então, falava assim: “Essa aí é louca mesmo, tudo que fizer tá bom pra ela.” Hoje não, hoje eu não vivo dopada de medicação, igual eu vivia atrás, caindo na rua parecendo bêbada. Hoje não, eu sei lutar pelos meus direitos, sei me defender, as pessoas me veem com mais respeito.... eu hoje me vejo assim. Mas aquele detalhe, né, Carolina, o que a gente passa, fica um vazio lá dentro. Você pode fazer análise com psicólogo o resto da sua vida, o que passou fica.... A gente trata, trata, trata, mas o que acontece lá atrás, uma tortura é uma agressão psicológica pro resto da vida, é uma marca que a gente carrega nas costas pro resto da vida....
C: Qual o sentimento que te vem?
F: Muita tristeza e angústia, vontade de lutar para que outras pessoas não venham a passar pelo que eu
passei, que venham a ser tratadas com dignidade, com respeito, como todo cidadão merece ser tratado, é isso aí.
A dimensão das relações de respeito, relacionada ao âmbito jurídico na Teoria do Reconhecimento, aparece aqui como importante elemento de ruptura com o círculo vicioso de aniquilamento do sujeito nas situações de desrespeito vivenciadas. Nesse depoimento, portanto, as vivências de desrespeito afetam não só o autorrespeito, como possibilidade de participar em pé de igualdade com os demais membros da sociedade, mas também a autoconfiança, como apresentado na expressão de “vazio lá dentro”, indicando o aspecto afetivo implicado na experiência.
Observamos, aqui, que ao se envolver politicamente, através da participação nas associações e do conhecimento adquirido sobre seus direitos, o sentimento de indignação moral vai ampliando, sendo transformado em ação política. Ao articular “tristeza e angústia”, que marcam a experiência subjetiva de desrespeito, com “vontade de lutar”, que marca a experiência compartilhada de luta por reconhecimento, podemos perceber a relação entre o desrespeito vivido individualmente e a potencial constituição do conflito social. Honneth (2009) defende que o compartilhamento das experiências de desrespeito podem ser motores para os conflitos sociais. Dessa forma:
... se um semelhante estado de inibição da ação é superado agora pelo engajamento na resistência comum, abre-se assim para o indivíduo uma forma de manifestação com base na qual ele pode convencer-se indiretamente do valor moral ou social de si próprio. (p. 259).
Observa-se ainda que a entrevistada se sentia desrespeitada quando não conhecia seus direitos. Mesmo quando tais direitos já estavam instituídos no plano jurídico, para ela, era
como se ainda não fizessem parte de seu mundo subjetivo. Foi preciso que ela se apropriasse daqueles direitos como seus para, então, lutar. Ou seja, a existência jurídica real de uma dada legislação, a qual visa à garantia universal de igualdade e dignidade, não basta para a constituição do autorrespeito ou das relações mútuas de respeito, é preciso o conhecimento cognitivo de tais direitos, e aí a participação política tem papel fundamental. A participação