Bowlby64 nasceu em Londres, em uma família de classe média alta. Estudou Psicologia, formou-se psicanalista e psiquiatra. Durante a Segunda Guerra foi Tenente-Coronel no corpo médico da Armada Real Inglesa. Foi chamado a atuar na consultoria de evacuação para o acolhimento das crianças que sobreviveram à guerra. Desde sempre interessou-se sobre a capacidade de vinculação humana, iniciando seus estudos com crianças institucionalizadas em hospitais e a seguir em outras instituições.
No que se refere ao atendimento a enlutados e por seus trabalhos sobre formação e rompimento de vínculos afetivos, sua obra é fundamental e abraça a compreensão e o suporte a todas as necessidades demandadas no enlutamento em direção à recuperação e ao resgate da humana habilidade de amar e reinvestir na vida depois de uma perda.
Bowlby define o que chamou de instinto de formar laços relacionais a fim de desenvolver, no indivíduo, estratégias de sobrevivência para lidar com circunstâncias de estresse, doença e no enfrentamento de adversidades, como, por exemplo, diante da perda de alguém amado.
Define a vinculação como fenômeno humano instintual, a partir das seguintes características:
1) a capacidade para formar laços tem sua primeira base de formação na infância. Vinculação essa que denominou de apego, visto como um sistema de regulação mútua entre pais e bebês. Sua função básica é a de prover segurança e proteção ao bebê vulnerável por meio da
64 Edward John Mostyn Bowlby nascido em 26 de Fevereiro de 1907 em Londres e falecido aos 83 anos na ilha de Skyie no Reino Unido em 02 de Setembro de 1990, é atualmente considerado o pai da teoria dos vínculos e teórico sistêmico.
proximidade com o cuidador, desenvolvendo confiança básica e reciprocidade, que servirão como base para futuros relacionamentos; 2) oferecer ao indivíduo uma base segura, ou seja, tem função de porto
seguro, um lugar de onde sair, a fim de explorar um mundo, para o qual poderá voltar com tranquilidade caso o indivíduo queira ou se torne necessário;
3) proximidade: quando em situações de estresse, doença ou medo, a tendência instintiva está em ir em direção desta rede de proteção e apoio. Circunstâncias em que o dispositivo instintivo de apego e proximidade torna-se ligado, ou seja, mantém-se acionado no indivíduo que se torna instintivamente vígil na busca das suas figuras vinculares, registradas pela vivência como figuras de sua proteção e suporte. Assim, o comportamento de apego, ou vincular, significa qualquer comportamento que resulte no fato de uma pessoa alcançar e manter proximidade com outro indivíduo com quem se sente clara e fortemente identificado;65
4) protesto pela separação: a ameaça à inacessibilidade da figura vincular dá margem a protesto e a tentativas de superar a separação. Aqui se compreende o processo de luto como processo de assimilação e elaboração psíquico despertado diante de intensas e exigentes mudanças. Processo de funções adaptativas que é incitado a partir da perda de uma figura vincular, demandante de quatro estágios previstos e normativos: choque e torpor; anseio e protesto; desespero e desesperança; e, por último, recuperação e restituição;
5) o apego é um sistema que envolve o comportamento de cuidado, que lhe é complementar; se alguém se “apega”, é porque recebeu cuidados de outra pessoa (da figura vincular ou vinculada), e o fato de alguém ter lhe oferecido cuidados registra no indivíduo a contínua possibilidade de oferecer também cuidados a outros;
6) constrói, na experiência de convívio vincular primário, a imagem que a criança tem de outras pessoas, de si mesma e do mundo que o cerca, de acordo com a maneira como os cuidadores, ou suas figuras de
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BOWLBY, J. Uma base segura: aplicações clínicas da Teoria do Apego. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. p. 18.
apego, se relacionam com ela, constituindo as bases dos modelos de vinculação do sujeito, que poderão ser aprimorados ou fragilizados ao longo da vida. Portanto, a primeira base de um sistema de crenças que envolverá as noções consideradas mais verdadeiras para o indivíduo que, de modo instintivo, pode estimar e confiar em si mesmo, em outros e no mundo que o cerca;
7) o apego permite adquirir habilidades para o autocontrole, controle de seus impulsos, a partir da maneira como o cuidador – modelo vincular – administra e promove o manejo de impulsos e emoções intensas, tais como: raiva, angústia, culpa, desejo, tristeza e amor;
8) a vinculação proporciona criar uma estrutura de fundação da identidade com um senso de competência, autovaloração e um equilíbrio entre dependência e autonomia;
9) o apego estabelece uma estrutura moral pró-social que envolve empatia, compaixão e consciência;
10) provê a mente com defesas (estratégias e habilidades introjetadas da relação vincular) contra estresse e trauma, incorporando recursos internos e resiliência;
11) o comportamento de vinculação é dotado de uma dinâmica própria, exclusiva, diferentemente dos comportamentos de alimentação e sexual; 12) cada comportamento de vinculação se caracteriza para o indivíduo
como um modelo da vida e de relacionamento que pode se modificar ao longo do ciclo vital;
13) um comportamento de vinculação será sempre ativado em situações de ameaça;
14) é de difícil controle no plano consciente;
15) é persistente, ou seja, não diminui na falta de reforço, não necessita de reforço para continuar existindo. Persiste na ausência ou privação da figura vincular: uma vez vinculado, sempre vinculado, fator que permitirá a elaboração do luto; e
16) o distanciamento da figura de vinculação gera sofrimento e perda.
Em suma, o comportamento de ligação é concebido como qualquer forma de comportamento que resulta em que uma pessoa alcance ou mantenha proximidade com outro indivíduo diferenciado ou preferido o qual é usualmente considerado forte ou mais sábio. Embora seja especialmente evidente durante os primeiros anos da infância, sustenta-se que o
comportamento de ligação caracteriza os seres humanos do berço à sepultura. Inclui o choro e o chamamento, que suscitam cuidados e
desvelos, o seguimento e o apego, e também os vigorosos protestos se uma criança ficar sozinha ou na companhia de estranhos. Com a idade, a frequência e intensidade com que esse comportamento se manifesta diminuem gradativamente. No entanto, todas essas formas de comportamento persistem como parte integrante do equipamento comportamental do homem. Nos adultos, elas são especialmente evidentes quando uma pessoa está consternada, doente ou assustada. Os padrões de comportamento de ligação manifestados por um indivíduo dependem, em parte, de sua idade atual, sexo e circunstâncias, e, em parte, das experiências que teve com figuras de ligação nos primeiros anos de sua vida. [...] Muitas das emoções mais intensas surgem durante a formação, manutenção, rompimento e renovação de relações de ligação. A formação de um vínculo é descrita como “apaixonar-se,” a manutenção de um vínculo como “amar alguém” e a perda de um parceiro como “sofrer por alguém”. Do mesmo modo, a ameaça de perda gera ansiedade e a perda real produz tristeza, enquanto que cada uma dessas situações é passível de suscitar raiva. A manutenção inalterada de um vínculo afetivo é sentida como fonte de segurança, e a renovação de um vínculo, como fonte de júbilo.66 (Grifo do autor.)
No acompanhamento clínico longitudinal dos enlutados aqui analisados, será possível evidenciar as palavras do autor, bem como notar que padrões de apego podem transpor a sepultura, ainda mais quando sustentados por uma fé de caracterização segura, auxiliando, inclusive, na recuperação dos estados de enlutamento. Porém associações entre vinculação segura, luto e fé apresentam implicações onde se faz necessário conhecer os diferentes modelos operativos de apego.
Assim, do corpo teórico sobre a teoria de formação e rompimento de vínculos afetivos, são elencados essencialmente dois padrões de apego67 relacionados ao intento desta pesquisa:
1) Apego seguro: o indivíduo está confiante de que seus pais ou cuidadores
estarão disponíveis oferecendo respostas e auxílio caso ele se depare com alguma situação ameaçadora. Essa segurança torna-se um registro interno e faz com que ele se sinta corajoso para explorar o mundo.
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BOWLBY, J. Formação e rompimento de vínculos afetivos. 3. ed. São Paulo: M. Fontes, 2001. p. 171‐172. 67 Ibidem, p. 121‐122.
Esse modelo é promovido por, pelo menos, um dos pais ou cuidadores imediatamente disponível, sensível e atento aos sinais da criança, com repetidas respostas amáveis sempre que ela procura proteção, conforto e amparo. Crianças de vinculação segura são sociáveis, possuem bons níveis de exploração do ambiente, confiantes, têm baixo nível de ansiedade e escutam com facilidade os estímulos do meio, tornando-se mais criativas e autoconfiantes. E isso também se pode pensar para os adultos.
Esse estilo reflete estratégias, posturas e condutas que permitem ao indivíduo identificar uma fonte de stress e rapidamente buscar respostas; procurar apoio e conforto. Portanto, a instauração de uma vinculação segura exige uma pessoa sentida como próxima que compartilhe experiências com a criança e, mais tarde, também com o adulto. Quando uma pessoa está, ou foi seguramente vinculada, tem um sentimento especial de segurança e conforto que poderá utilizar como base de exploração para o resto do mundo e outras relações ao longo de sua história, fator que a tornará herdeira da possibilidade de enfrentar as adversidades na vida, resgatando e fortalecendo recursos psíquicos saudáveis.
A estrutura da psicoterapia bowlbyana para o luto tem como ponto central o estímulo, o desenvolvimento ou o aprimoramento desse modelo no cuidado clínico, partindo da experiência vincular entre terapeuta e paciente ao longo do tratamento.
É importante lembrar que modelos operativos podem ser modificados ao longo da vida, portanto, não são estanques. Diversas situações e relacionamentos podem aprimorá-los ou regredi-los, sendo o luto um dos fenômenos de maior influência nas possíveis mudanças das modalidades de vinculação ao longo da vida, incorrendo, inclusive, em risco de retrocesso na direção da instauração de registros para vinculações inseguras e suas implicações.
2) Apego inseguro, ambivalente, resistente, temeroso ou ansioso: o
indivíduo aqui se mostra incerto quanto à disponibilidade e a possibilidade de receber resposta ou mesmo ajuda por parte de seus pais ou
cuidadores, caso necessite. Por conta dessa incerteza, ele tende constantemente à ansiedade de separação, torna-se ansioso em relação à exploração do mundo. Situações adversas e difíceis podem tornar o indivíduo ambivalente temporariamente assim como quando não recebe auxílio suficiente ou efetivo, os sintomas de ansiedade, medo e aflição tendem a permanecer bloqueando ou retardando suas habilidades de enfrentamento e adaptação.
Nesse modelo, os cuidadores são prestativos e disponíveis em alguns momentos e, em outros, não; logo os registros ficam em torno das ameaças de abandono ou indisponibilidade dos mesmos que, ao invés de desenvolverem defesas contra stress, trauma ou mudanças, impedem a liberdade e a segurança, uma vez que o indivíduo não tem certeza sobre se receberá suporte, ou não, quando necessário.
Viver na ameaça ou com medo gera desgastes e marcas. Essa é, portanto, uma dinâmica vincular marcada por uma hipersensibilidade de afetos negativos e por expressões de stress intensificadas.
Quando não recebe cuidados, o indivíduo ambivalente tende a pensar que foi porque não mereceu. Assim, está bastante presente, aqui, a ideia de castigo e de culpa ou de não merecimento do que seja bom, belo ou prazeroso, dinâmicas que a criança tenderá a carregar para seu mundo adulto.
Compõe, dessa forma, um quadro de vulnerabilidades para o viver, cujo adulto tem maior dificuldade para sentir paz e se relacionar com leveza e segurança com seus projetos, outras pessoas e a vida em geral.
A vinculação insegura esboça, no adulto, uma base tendencial para o isolamento afetivo, cuja abordagem ante a vida será tanto mais tarefeira quanto maior foi a indisponibilidade das figuras cuidadoras suficientemente seguras. Daí a importância de conhecer essa teoria diante do luto.
O luto é, por si, um vulnerabilizador dos afetos e habilidades vinculares; o que nele se mobiliza pode levar o indivíduo a uma maior ou menor recuperação e adaptação. Portanto, isso será definido por seus registros de infância, porém essencialmente pelo que o ambiente diante da adversidade vier a lhe oferecer.
Adultos de vinculação insegura desenvolvem mecanismos de proteção a partir da retração emocional, tornando-se também mais vulneráveis diante das adversidades, pois têm difícil acesso para administrar sensações e sentimentos, uma vez que o elemento central da vida psíquica e neurológica: o afeto ou a inteligência emocional, encontra-se comprometido.
Essa limitação afeta, em alguma medida, também todas as dimensões do seu ser, incluindo sua dimensão espiritual, sendo que suas construções acerca de, por exemplo, a imagem de Deus, poderão ficar comprometidas pela experiência com seus cuidadores, ou com quem aprendeu, gerando dificuldades no acesso a uma fé autêntica, madura e saudável como recurso de enfrentamento do luto, agregando aos períodos de elaboração e questionamentos, mobilizações ainda maiores.