Análise de Conteúdo (AC) qualitativa é um dos muitos métodos qualitativos utilizados para analisar dados textuais. Ele se utiliza de um conjunto de técnicas para tornar replicáveis e validar inferências a partir dos dados para o seu contexto, com o objetivo de proporcionar conhecimentos, novas ideias, uma representação de fatos e um guia prático para a ação (KRIPPENDORFF, 1989).
O objetivo primário da AC é descrever o fenômeno na forma conceitual, analisando características sensíveis e multifacetadas de um fenômeno (ELO; KYNGÄS,
2008). Em pesquisas na área de enfermagem, esse tipo de análise tem sido aplicada para vários níveis de interpretação (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
Neste estudo, foi utilizada a Análise de Conteúdo indutiva para o processo de análise das entrevistas, conforme descrito por Elo e Kyngäs (2008), composto por três fases: 1) Preparar;
2) Organizar e
3) Reportar o processo de análise e os resultados.
Na fase de Preparação da AC, o pesquisador deve realizar a transcrição da entrevista e obter o sentido do todo através da leitura da transcrição várias vezes. Essa fase se inicia com a seleção das unidades de análise, fazendo sentido dos dados com o todo, escolhendo entre o conteúdo manifesto e o latente. Depois de fazer sentido, a análise é conduzida pela abordagem indutiva ou dedutiva (ELO, KYNGÄS, 2008; VAISMORADI, TURUNEN, BONDAS, 2013).
Escolheu-se o caminho indutivo, em que as categorias foram derivadas dos dados, incluindo abertura de códigos, criação de categorias e abstração, as quais compreenderam a segunda fase da AC, a Organização. Nessa fase, houve a codificação e criação de categorias, em que os dados foram agrupados dentro de títulos por ordem maior, para reduzir o número de categorias criadas. Assim, uma descrição geral do fenômeno da pesquisa foi formulada através da geração de categorias e subcategorias, abstraindo-se (ELO; KYNGÄS, 2008).
A fase final é Reportar os resultados da fase anterior, o processo de análise e os resultados, através de modelos, sistemas conceituais, mapa conceitual ou categorias (ELO; KYNGÄS, 2008). Para a apresentação dos resultados do estudo a criatividade é incentivada para o pesquisador apresentá-los na forma de uma história, um mapa, ou modelo (VAISMORADI; TURUNEN; BONDAS, 2013).
Os processos de análise de dados não são lineares, simplesmente movendo-se de uma fase para outra fase, mas sim recorrentes com críticas frequentes. Nos resultados, o pesquisador fala sobre os dados em relação à questão de pesquisa (VAISMORADI; TURUNEN; BONDAS, 2013). Uma característica da AC qualitativa é que o método, na maioria das vezes, centra-se sobre o assunto e o contexto, e enfatiza as diferenças e semelhanças dentre os códigos e categorias (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
- Conceitos Centrais da AC Qualitativa
Os conceitos da AC qualitativa, segundo Graneheim e Lundman (2004), são conteúdos manifestos e latentes, unidade de análise, unidade de significação, condensação, abstração, área de conteúdo, código, categoria e tema.
A questão básica na realização da análise é decidir se a análise deve se concentrar em conteúdo manifesto ou latente no texto. Ambos estão relacionados com a interpretação, em que esta varia em profundidade e nível de abstração. O conteúdo
manifesto, isto é, o que o texto diz, muitas vezes é apresentado em categorias, enquanto que
os temas são vistos como expressões do conteúdo latente, ou seja, o que o texto está falando, aspectos relacionados, significados subjacentes (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
Uma das decisões mais básicas quando se utiliza a AC é selecionar a unidade
de análise. A unidade mais adequada para a análise são entrevistas inteiras ou protocolos de observação que são suficientemente grandes para serem considerados como um todo e suficientemente pequenos para ser possível, durante o processo de análise, manter em mente um contexto para a unidade de significado (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
As unidades de significado são palavras, frases ou parágrafos que contêm aspectos relacionados ao conteúdo e contexto e pode conter mais de uma sentença e vários significados. Questão fundamental para alcançar credibilidade é selecionar a unidade de significado mais adequada. Em unidades de significado muito amplas, por exemplo, vários parágrafos ficam difíceis de gerir, uma vez que são suscetíveis de conter vários significados. Já na unidade de significado muito estreita, por exemplo, uma única palavra, pode resultar em fragmentação. A legenda de uma unidade de significado tem sido referida como um código (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
A condensação refere-se a um processo de redução do texto que preserva o núcleo. A abstração ocorre quando o texto condensado é apreendido, uma vez que enfatiza descrições e interpretações em um nível lógico superior. Exemplos de abstração incluem as criações de códigos, categorias e temas em diferentes níveis (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
Áreas de conteúdo podem ser partes do texto com base em pressupostos
teóricos da literatura, ou partes do texto que abordam um tema específico em um roteiro de entrevista ou observação. São partes de um texto lidando com uma questão específica, uma
vez que lança luz sobre uma área específica do conteúdo explícito identificado com pouca interpretação (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
Criação de categorias é a característica principal de AC qualitativa. A
categoria refere-se principalmente a um nível descritivo do conteúdo e pode, assim, ser vista
como uma expressão do conteúdo manifesto do texto. A categoria muitas vezes inclui um número de subcategorias em níveis de abstração diferentes. As subcategorias podem ser classificadas e abstraídas em uma categoria ou de uma categoria pode ser dividida em subcategorias (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
O conceito de tema tem múltiplos significados e a criação dele é uma forma de vincular os significados subjacentes juntos em categorias. Trata-se de uma linha de significado subjacente através do significado em nível interpretativo de unidades condensadas, códigos ou categorias. Um tema pode ser visto como uma expressão do conteúdo latente do texto (GRANEHEIM; LUNDMAN, 2004).
Para que ocorresse o processo de AC, primeiro, as entrevistas forma transcritas integralmente, incluindo manifestações de choro e estímulos da entrevistadora. A elas foi atribuído um número (1, 2, 3...) de identificação dos participantes, que vem acompanhado de quem manifestou a unidade de significado. Para garantir o sigilo e anonimato, optou-se por não citar nomes de hospitais e marcas de alimentos e/ou medicamentos e substituir todos os nomes (da criança, de membros familiares ou profissionais de saúde) citados nas falas, por criança, médico ou letras que não correspondem às iniciais de seus nomes.
As falas sofreram correções gramaticais e trechos repetitivos foram retirados para melhor compreensão do leitor, porém sem mudança no sentido das mesmas (GIBSON, BROWN, 2009). Os colchetes com alguma observação indicam as interferências do pesquisador, no sentido de deixar mais claro o entendimento da fala para o leitor e seu uso com as reticências indicam recortes dentro da mesma fala.
A partir da leitura e releitura de cada entrevista, a princípio sem compromisso objetivo de sistematização, procurou-se sentir o todo, apreender as ideias globais, estruturação específica e a dinâmica pessoal que conduziu o processo de desenvolvimento dos discursos dos participantes. Assim, posteriormente, selecionaram-se as unidades de significado, segundo os núcleos de sentido. A escolha de determinadas unidades deu-se à luz dos objetivos do estudo e do Interacionismo Simbólico utilizado como referencial teórico.
A partir dos elementos particulares, desmembrados e classificados da experiência dos participantes entrevistados, as unidades foram agrupadas em categorias e reagrupadas por aproximação de elementos com significados semelhantes, mesmo que com conotações distintas ou contraditórias. As categorias foram organizadas na mesma temporalidade em que ocorreu a ação, para no final atribuir título ao tema. Assim, os resultados foram apresentados numa linha histórica, baseada nos acontecimentos marcantes relacionados ao desenvolvimento da criança.