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A solução do mistério é sempre inferior ao próprio mistério. O mistério é o que tem a ver diretamente com o divino; a solução, com um truque de prestidigitador.

Jorge Luis Borges

A enciclopédia é uma representação do saber. O que me inte- ressa é essa maneira de interrogar o saber. Neste trabalho, considera- se a enciclopédia como “o livro de todos os livros” (Haberl, 2010), o livro que, ao menos potencialmente, contém todos os livros.

A enciclopédia pode ser tomada como um livro de referência, que pretende reunir o conjunto dos saberes; ou como um dispositivo de classificação e de apresentação dos saberes. Pode ser tomada em sentido metafórico, como a figura da árvore ou do círculo, da rede e do labirinto, imagens que remetem a uma totalidade ou a um sistema, mas também ao encadeamento, à conexão e à continuidade.

O discurso enciclopédico é “constituído por um conjunto li- mitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência” (Foucault, 2000, p. 135). As obras são produto de seu contexto, de modo que a palavra “enciclopédia” não remete à mesma coisa de acordo com a época a que nos referimos. As enciclopédias medievais são mais uma compilação do que uma sínte- se ordenada do saber, de modo que o enciclopedismo se caracteriza pelo desejo de acumular e ordenar as palavras e as coisas em uma ordem sistemática.

“A literatura assume muitos saberes. Num romance como

Robinson Crusoé, há um saber

histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico, antropológico (Robinson passa da natureza à cultura). Se, por não sei que excesso de socia- lismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário. É nesse sentido que se pode dizer que a literatura, quaisquer que sejam as escolas em nome das quais ela se declara, é absolutamente, categoricamente realista: ela é a realidade, isto é, o próprio fulgor do real. Entretanto, e nisso verdadeiramente enciclo- pédica, a literatura faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhes dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso. Por um lado, ele per- mite designar saberes possíveis — insuspeitos, irrealizados: a literatura trabalha nos inters- tícios da ciência: está sempre atrasada ou adiantada com relação a esta(...). A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a li- teratura nos importa. Por outro lado, o saber que ela mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro; a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor; que ela sabe algo das coisas — que sabe muito sobre os homens” (Barthes, 2000, p. 18).

19 Considero o enciclopedismo em livros de artista o trabalho

realizado sobre o discurso enciclopédico, a prática de coletar as infor- mações (ou as imagens), ordenar e classificar o saber. A enciclopédia pode ser tomada como modelo ou como metáfora. Existe uma dife- rença de objetivos entre o enciclopedista e o artista que se apropria da enciclopédia: enquanto um busca a verdade e a unidade do saber, o outro se interessa em produzir incerteza, provocar a reflexão, suscitar a dúvida ou levar ao erro, e desse modo, contribuir para ampliar nosso conhecimento a respeito do mundo. O saber enciclopédico, “embora pretenda a certeza, é sempre obrigado a admitir a dúvida” (Salsano, 2000, p. 370).

A análise das obras pode incidir sobre os objetos do conheci- mento (livros, enciclopédias, dicionários); pode se esforçar para desta- car os tipos de classificação usados no livro; pode se basear na imagem enciclopédica, ou seja, as metáforas do mapa, o labirinto, a árvore, a cadeia ou a rede; as obras podem assumir a forma de uma enciclopé- dia ou de um dicionário, ou seja, imitar a estrutura alfabética e também sua apresentação gráfica (HABERL, 2010).

Alguns verbetes retomam uma palavra que já foi utilizada para designar as obras de referência e as enciclopédias, como um nó em uma rede, ligando o capítulo como um todo e a ideia de uma enciclo- pédia visual: itinerário, compêndio, dicionário, etc — museu, bibliote- ca, corpo (corpus), itinerário, repertório, diretório, espelho, labirinto. Outros verbetes tratam das obras de referência como gêneros lite- rários — o dicionário, guias e manuais, o catálogo e o inventário, mas também os herbários e os bestiários, os atlas e as compilações.

Uma obra pode ser mais ou menos enciclopédica, a presença de uma quantidade maior ou menor de elementos formais e temáticos fazem com que a obra seja mais ou menos parecida com uma enciclo- pédia. Cada capítulo possui um verbete que é dedicado a um único livro de artista, cada um deles é enciclopédico em graus diferentes, sendo que um dos livros remete diretamente a uma enciclopédia, ou- tro retoma a metáfora do livro do mundo e dois livros de artista são en- ciclopédias fictícias. Os livros que não são de fato enciclopédicos são incluídos na tese por apontarem questões pertinentes à elaboração de uma enciclopédia visual. No último capítulo, destaco as obras que são enciclopédias visuais assumidas. Porque uma obra de arte “encarada

“A mesma tensão entre ‘inven- tário’ (sistemática, classificação) e ‘invenção’ (a renovação contínua dos conhecimentos) que caracteriza o modo de proceder das ciências moder- nas, encontra-se na sucessão e sobreposição das produções enciclopédicas” (Salsano, 2000, p. 371).

“O pós-modernismo se diferen- cia, sobretudo, por sua perda da fé nos ideais progressistas que sustentavam os modernistas, que haviam herdado dos Ilumi- nistas do século XVIII a crença na possibilidade do contínuo progresso humano por meio da razão e da ciência” (Poynor, 2010, p. 11).

como obra de arte é uma experiência, não uma afirmação ou resposta a uma pergunta” (Sontag, 1987, p. 31), os livros de artista não ilustram a teoria, mas a teoria se desenvolve a partir das reflexões provocadas pelos livros.