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Case study II: Negotiation of service contracts

Durante o processo de evolução de meu avatar, vários acontecimentos dignos de nota ocorreram naquele ambiente virtual no que diz respeito a interações com outros jogadores. Interações que na maioria das vezes eram formadas com vistas a uma ajuda mútua para a evolução de personagens. O mecanismo presente no jogo que faz com que haja vantagens em formar grupos com outros jogadores (possibilidade de se derrotar mobs poderosos e uma maior quantidade de oponentes com maior velocidade, por exemplo) pôde ser percebido como uma ferramenta significativa para incentivar as interações sociais. Isso tudo somado ao uso de outras plataformas paralelas que permitiram um incremento da experiência de jogo, como o uso do programa de voz SKYPE.

Em determinada visita à lan house, loguei meu personagem no mundo virtual e também acessei minhas redes sociais e programa de chamada de voz – ações que a essa altura já se tornaram bastante comuns para mim, o que me fazia sentir confortável em estar conectado em tantas plataformas distintas ao mesmo tempo. Fui então rapidamente chamado para uma conferência de voz através do SKYPE por Jonathan, que estava me ajudando na evolução junto com seu personagem. Na conversa através do programa de voz, estava também presente Everaldo, pai de Jonathan, outro conhecido meu e jogador de WoW há bastante tempo, tendo participado comigo de várias guildas quando jogava com meu personagem da facção da aliança.

Everaldo afirmou ter ouvido conversas a respeito de eu estar evoluindo um personagem da horda e resolveu acessar o jogo através de seu personagem dessa mesma facção a fim de formar novamente um grupo com conhecidos para jogar. Embora seu personagem estivesse já no nível máximo de evolução e com bons equipamentos, Everaldo afirmou que não estava tão interessado, pelo menos naquele momento, a participar de raids como os outros jogadores, mas sim em despender um pouco de tempo para relaxar enquanto jogava.

Após algumas conversas sobre como andavam as coisas em relação ao estudo, trabalho e sobre outros amigos em comum, Everaldo sugeriu que meu

personagem e o de Jonathan seguissem com o seu para uma dungeon36 a fim de ganharmos mais experiência, explicando que basicamente deveríamos apenas segui-lo enquanto seu personagem derrotaria os inimigos, fazendo com que a experiência, ainda que diminuída pela presença de um personagem de maior nível no grupo fosse ganha rapidamente, tal a velocidade com a qual seu personagem derrotaria os inimigos por ser muito mais forte que eles. Seguimos então essa dica e conseguimos avançar alguns níveis rapidamente se comparássemos ao tempo que gastaríamos realizando as quests habituais. No entanto, em determinado ponto, já não conseguíamos ganhar tanta experiência quanto no início e resolvemos, Jonathan e eu, voltar a realizar missões enquanto Everaldo prosseguiu para a realização de raids com sua guilda.

Figura 10 – Dungeon formada em conjunto com os avatares de Jonathan e seu pai, Everaldo.

Ali, pôde-se perceber na fala de Everaldo outra função do WoW para os jogadores nele inseridos: mais do que apenas a busca por competição ou aprimoramento após alcançar o nível máximo permitido, há também a forte presença de um ideal lúdico, a busca pelo relaxamento proporcionado pela atividade que,

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Dungeons são locais especiais no universo do jogo estudado nos quais se encontram inimigos bem mais poderosos que os habitualmente encontrados naquele universo. Por serem mais poderosos, tornam necessária a presença de um pequeno grupo de jogadores para derrotá-los, o que garante também uma maior quantidade de experiência como recompensa para todos os integrantes do grupo. Nesses locais também é possível se encontrar chefes que dão como recompensa melhores itens ao serem derrotados, no entanto, diferentemente das raids, as dungeons permitem a participação de apenas 5 membros por vez e os chefes não são aqueles ligados à grande narrativa geral do universo histórico/mitológico do jogo.

como lembra Huizinga (2007) não constitui uma tarefa, sendo sempre praticado nas “horas de ócio”.

Interessante notar no ambiente do jogo online estudado a existência de algumas “regras de boa convivência” entre jogadores de uma mesma facção, regras essas nem sempre escritas, mas que se colocam como práticas adotadas na própria vivência do mundo online. Um exemplo pode ser dado ao se observar uma cena ocorrida durante uma quest realizada em conjunto com um colega de jogo. Fui chamado em determinada tarde por Perseu através da janela de chat privado do WoW para que também entrasse no programa SKYPE a fim de podermos conversar enquanto evoluíamos nossos personagens. Abri o programa de voz e logo estava conectado com o colega que informara já estar me esperando enquanto matava alguns mobs para recolher itens mais poderosos e nos equipar melhor. Logo em seguida, Perseu tratou de guiar seu avatar até o local onde se encontrava o meu e passou a ele alguns equipamentos que havia conseguido, os quais eram melhores que aqueles que eu possuía, antes de prosseguirmos realizando quests em conjunto.

Figura 11 – Auxílio de Perseu para evolução conjunta de personagens.

Ao continuarmos nossa tarefa de evolução, Perseu e eu nos deparamos com uma missão na qual deveríamos derrotar um mob bastante poderoso, sendo necessária a colaboração de pelo menos dois jogadores para derrotá-lo, uma vez que o monstro em questão havia sido derrotado por outros jogadores há pouco tempo antes de nós chegarmos ao local, tivemos de esperar que aquele

reaparecesse, o que demoraria cerca de uns cinco minutos. Nesse meio tempo, ficamos andando pelos arredores do local enquanto conversávamos pelo SKYPE sobre os itens que receberíamos como recompensa pelo cumprimento da missão.

Ao se passar o tempo necessário, a criatura reapareceu em seu local de permanência, mas antes que Perseu e eu pudéssemos atingi-la, percebemos que outros dois jogadores já haviam iniciado o combate com o monstro; não pudemos fazer nada a não ser esperar que aqueles terminassem de combatê-lo37. Ao notar que estávamos no local, um dos jogadores nos indagou pelo canal de chat se estaríamos esperando pela criatura que ele havia combatido, ao respondermos que sim, o jogador pediu desculpas por não ter esperado que completássemos antes a missão e se ofereceu para se juntar ao nosso grupo a fim de nos ajudar quando essa reaparecesse. Agradecemos a oferta, mas decidimos não aceitar seu convite e os dois seguiram seu caminho, novamente pedindo desculpas por terem “passado à nossa frente” na espera pelo oponente em questão. Esse episódio demonstrou que, embora regras de convivência e cordialidade não estejam explicitamente presentes no ambiente do jogo em questão, o uso dessas mesmas regras parece percorrer um caminho que vai do ambiente físico ao virtual, estando seu uso ligado diretamente ao jogador que controla um avatar no mundo de Warcraft.