Conforme apontado anteriormente, esta tese tem sua raiz na problemática que envolve as apreensões da Educação e da Psicologia sobre como os futuros educadores do campo vivenciam a violência no campo, como tal fenômeno é representado e quais os movimentos das representações sociais feitos pelos sujeitos estudados diante do fenômeno da violência, partindo do pressuposto que além de processos de sentir e pensar, as representações sociais também são conteúdos para a ação, atitudes. Esta pesquisa atentou para os parâmetros da Ética em Pesquisa estando registrada sob o número 44573515.3.0000.5149.
Optou-se por tomar como âncora dois eixos estruturantes. O primeiro diz respeito à corrente epistemológica adotada, a do materialismo histórico-dialético, por entender que a violência no campo é algo resultante de um processo histórico no qual existe a tensão entre forças hegemônicas e anti-hegemônicas. Já o segundo eixo diz sobre a utilização do referencial teórico-metodológico da Teoria das Representações Sociais, orientadas pelos pressupostos de Moscovici (2003, 2012) e Jodelet (2001, 2005, 2009, 2014), Antunes-Rocha (2012), Carvalho (2015), Montmollin (2014), Moliner (2001) e Moliner e Guimelli (2015) e entendendo que a produção de sentidos no cotidiano, de saberes, sentimentos e modos de agir também se expressam por meio das representações sociais, além do investimento destes autores na investigação da processualidade das RS. Complementarmente, vemos que este estudo está no limiar dos eventos que têm caráter dinâmico – e por isso dialético – os quais continuamente se desdobram, renovam e transformam: se movimentam.
Para alcançar os objetivos propostos, o estudo foi realizado com educandos do curso de Licenciatura em Educação do Campo (LECampo) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Tal escolha está estruturada nos princípios de inclusão de proximidade, disponibilidade e por representarem uma população de indivíduos estreitamente relacionados com o objeto de pesquisa, ou seja, sujeitos com sua vinculação campesina e futuros educadores do campo.
Além disso, estes graduandos integram movimentos sociais do Campo e/ou possuem histórico familiar de participação nas lutas pela propriedade da terra e de concessão de direitos aos povos campesinos, além de estar em processo de formação para lecionar em suas comunidades na condição de agentes de transformação social, pautados numa educação emancipatória e que garanta o protagonismo dos sujeitos e grupos sociais. Ou seja, estão
presenciando um processo de tensões e encontros entre os saberes acadêmicos e saberes históricos e cotidianos seus e de seus pares, momentos cruciais para a avaliação das representações sociais em movimento.
A coleta de dados foi decomposta em dois momentos: (I) aplicação de questionários e (II) entrevistas semiestruturadas. As duas fases de coleta de dados aconteceram entre os meses de janeiro e fevereiro de 2016, nas atividades do Tempo Escola do curso de Licenciatura em Educação do Campo, momento em que os alunos estavam em atividades na Faculdade de Educação da UFMG e disponíveis para a pesquisa. Essas entrevistas foram gravadas e transcritas na sua totalidade para apreensão da temática.
Os questionários aplicados tiveram a função de auxiliar no mapeamento dos alunos e da proximidade destes participantes da pesquisa às violências vividas no campo. Compostos por questões de identificação individual foram aplicados a todos os alunos do referido curso com um total de 108 (cento e oito) questionários aplicados. Tal ferramenta constitui um elemento de coleta de dados que possibilitou a seleção20 dos sujeitos para as entrevistas semiestruturadas.
As entrevistas semiestruturadas são instrumentos de coletas de dados que, conforme aponta Arruda (2005), é um dos métodos mais difundidos para coleta de dados em pesquisas de representações sociais juntamente com os questionários. Trata-se da utilização de um guia flexível de questões em que na medida que o entrevistado vai respondendo outras questões podem surgir para facilitar narrativas, linearidade do pensamento, ou ainda, resgatar pontos não entendidos. Moliner e Guimelli (2015) chamam a atenção para a composição da entrevista que deve possibilitar a verificação de níveis descritivos, prescritivos e de avaliação/julgamento de uma representação social.
As entrevistas semiestruturadas se adaptam ao estudo das representações sociais por serem, então, uma alternativa viável de acesso aos conteúdos constitutivos e enfrentamento e naturalização da realidade vivida pelo sujeito. E, também, apresentam uma forma de simbolizar as situações vividas, aliviando ou tencionando a subjetividade, além de ser uma possibilidade ou alternativa metodológica para acesso aos movimentos de uma RS, principalmente, nesta pesquisa, entendidos como as mudanças atitudinais dos sujeitos a partir de seus lugares sociais, na sua experiência individual e grupal para com o objeto em questão: a violência no campo.
20 Os participantes da pesquisa selecionados para a etapa de entrevistas semi-estruturadas foram selecionados
intencionalmente observando a modulação de vinculação com o campo, a visualização, vivência ou capacidade de análise da violência na comunidade de origem (campo) e disponibilidade para participar da pesquisa.
Sobre os participantes da pesquisa que foram selecionados para as entrevistas, fizemos opção por até 15 (quinze) indivíduos, alunos do referido curso, escolhendo pelo menos três alunos de cada uma das habilitações, porém, pela disponibilidade e procura dos mesmos perfizemos uma coleta final com 17 (dezessete) sujeitos, garantindo a representação de cada uma das habilitações, porém, com quantidades não iguais. Por critério de saturação, a coleta de dados por meio das entrevistas foi encerrada por considerarmos que os dados coletados já representavam a totalidade de material que poderia ser encontrado nos sujeitos pesquisados e devido o fim do Tempo Escola. Como previsto, houve alteração no número de indivíduos/sujeitos dessa pesquisa, já que alguns sujeitos ao tomarem conhecimento da pesquisa se ofereceram para participar apesar de não terem sido convidados. Os sujeitos disponíveis e selecionados foram submetidos ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) conforme disposição do Comitê de Ética em Pesquisa (COEP-UFMG).
Com os dados coletados, tabulados e transcritos, foi empreendida a fase de análise. Devido a multiplicidade de dados necessitou de três vertentes de análise: estatística básica (BUSSAB e MORETTIN, 2004) para a descrição da amostra, análise de trajetórias e episódios (TELAU, 2015 e AMORIM-SILVA, 2016) para descrição da proximidade e atitudes dos sujeitos frente à violência e análise de conteúdo (BARDIN, 2010) conjugada com análise léxica (NASCIMENTO e MENANDRO, 2006) a partir do software Iramuteq, uma ferramenta computacional para o estudo das representações sociais (CAMARGO e JUSTO, 2013).
Assim organizou-se o texto de apresentação e análise de dados em três momentos a partir do que foi coletado nos questionários e entrevistas. A primeira parte da análise empreendeu uma construção de um perfil amostral, ou seja, os dados constroem os aspectos dos participantes da pesquisa aos quais investigou-se as representações sociais. A segunda parte empreendeu a reconstrução de episódios dos participantes de pesquisa, a partir de uma análise dos movimentos atitudinais dos sujeitos frente suas representações sociais da violência.
Nesta análise seguiu-se explicitamente o modelo de Amorim-Silva (2016), no qual há a reconstrução das narrativas 21do sujeito de pesquisa a partir de categorias pré-organizadas, neste
caso, em todos os sujeitos observou-se os seguintes elementos: a. caracterização do sujeito
21 Na tese, a reconstrução das narrativas também é nomeada como análise de trajetórias como expressões
sinônimas. Apesar de considerar que alguns autores – como Pierre Bourdieu – já tem produzido material suficiente sobre análise de trajetórias, o uso de tal análise em pesquisas sobre representações sociais é recente e tem demandado mais aplicações, discussões e recomposições para a consolidação de uma metodologia diferente das já utilizadas pelos outros autores de fora da área das RS.
(idade, sexo, habilitação, município); b. histórico de vinculação com o campo (Reside? Participa de movimentos sociais? Família? Trabalho?); c. fatos evidenciados como violência; d. casos, fatos narrados (experiências, memórias e vivências da comunidade); e. sentimentos expressados (ao longo dos fatos narrados, tensionamento, sentimentos mobilizadores da mudança); f. evoluções e transformações notadas nas formas de pensar, sentir e agir em relação à violência; g. posicionamento inicial e posicionamento final e informações que se fizeram pertinentes no momento da análise.
A partir desta etapa descritiva, nos propomos a uma análise do que foi considerado importante em cada uma das trajetórias com o foco em evidenciar as atitudes em cada um dos participantes da pesquisa, verificando os movimentos das representações sociais sobre a violência para os educandos da Licenciatura em Educação do Campo da FaE-UFMG.
Na terceira e última parte da análise de dados propomos, utilizando o software Iramuteq, a demonstrar como a representação social sobre a violência pode ser categorizada a partir de uma análise que conjugou a análise léxica e análise de conteúdo tradicional (BARDIN, 2010). A partir de uma divisão do texto em unidades de texto, propomos avaliar o corpus textual a partir da Classificação Hierárquica Descendente (CHD), ou análise ALCESTE (Analyse Lexicale par Contexte d'un Ensemble de Segment de Texte). Camargo e Justo (2013) explicam que esta forma de analisar o texto a partir do Iramuteq é operacionalizada da seguinte forma:
Os segmentos de texto são classificados em função dos seus respectivos vocabulários, e o conjunto deles é repartido em função da frequência das formas reduzidas. A partir de matrizes cruzando segmentos de textos e palavras (em repetidos testes do tipo X2),
aplica-se o método de CHD e obtém-se uma classificação estável e definitiva [...]. Esta análise visa obter classes de segmentos de texto que, ao mesmo tempo, apresentam vocabulário semelhante entre si, e vocabulário diferente dos segmentos de texto das outras classes [...] o software organiza a análise dos dados em um dendograma da CHD, que ilustra as relações entre as classes. [...] Além disto, o programa fornece uma outra forma de apresentação dos resultados, através de uma análise fatorial de correspondência feita a partir da CHD. Com base nas classes escolhidas, o programa calcula e fornece-nos os segmentos de texto mais característicos de cada classe (corpus em cor) permitindo a contextualização do vocabulário típico de cada classe. [...] Em pesquisas sobre representações sociais, tendo em vista o estatuto que elas conferem às manifestações linguísticas, estas classes podem indicar teorias ou conhecimentos do senso comum ou campos de imagens sobre um dado objeto, ou ainda apenas aspectos de uma mesma representação. (CAMARGO e JUSTO, 2013, p.5-6)
Com a CHD foi possível construir o dendograma que subdividiu o corpus de análise em classes das representações sociais, esta divisão levou em consideração as variáveis idade, sexo,
posição atitudinal inicial e final nas trajetórias, posição social – dividimos os entrevistados em três tipos de vinculação com o campo: agricultores familiares (aqueles que residem e mantém sua produção existencial a partir do campo), origem campesina (aqueles que se reconhecem campesinos, tem origem no campo, mas residem em ambientes urbanos) e professores de escolas do campo.
CAPÍTULO V: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE EDUCANDOS EM