Pelos evangelhos, sabe-se que Jesus de Nazaré apresentava-se como “mestre” ou “rabi”, mas depois da Páscoa, deixou de ser só o mestre na Igreja para ser alçado a Senhor, com autoridade única e excepcional. A função magisterial de Jesus é confirmada pelo modelo sociológico, dentro do qual a tradição evangélica coloca a ação pública de Jesus. Ele ensina nas sinagogas ou ao ar livre, no recinto do templo, fala e discute com os mestres, escribas e judeus. Isso se torna um dado histórico sobre a função e atividade palestinense de Jesus, não sendo somente produto da fé pós-pascal256.
254 Atualmente, há várias críticas à classificação de Queiroz, sobre os mucker. Nem Janaína Amado, que teve assinada, por Queiroz, sua tese de doutorado sobre este assunto, aceita a possibilidade de haver troca de cônjuges entre os casais, pertencentes ao movimento Mucker. Essas críticas são baseadas na bibliografia que Pereira de Queiroz utilizou para o seu texto: Os Mucker de Ambrósio Schupp e O episódio Ferrabraz de Leopoldo Petry, duas obras consideradas parciais, pois, enquanto o primeiro autor condena os mucker, o segundo os defende das acusações de Schupp e da comunidade em geral. (grifos nossos).
255 QUEIROZ, M. I. P.
O Messianismo no Brasil e no mundo, p. 311. 256 FABRIS, R. Jesus de Nazaré história e interpretação, p. 133-134.
Jesus vive e perambula na Galileia e é seguido por um grupo que se distingue tanto da multidão anônima como dos parentes, os chamados discípulos conforme os evangelhos. O uso preponderante do termo “discípulos”, nos evangelhos, mostra um indício do relacionamento especial, que se firmou entre Ele e um círculo de pessoas, distintas dos simpatizantes e curiosos. Do uso linguístico da tradição de Lucas e até pelos textos evangélicos atuais, o termo discípulo assume uma conotação mais abrangente: os discípulos de Jesus como um grupo ideal, representantes de todos os que o seguem como “crentes”. O vocábulo Apóstolos, na obra de Lucas é reservado aos doze discípulos de Jesus, ao passo que nas cartas de Paulo, o significado é aplicado a um círculo maior que o grupo dos doze e também, por isso, diferente. O grupo dos “doze” não foi uma invenção pós-Pascal e é possível afirmar a existência de um grupo que se relacionava com Jesus diferentemente dos demais257. Eles são provenientes da classe média, trabalhadores autônomos e empregados; diferentes, no entanto, quanto à orientação religiosa e ideológica. Seus nomes são bem conhecidos: André, Filipe, Pedro, Tiago, João, Mateus, Judas...258.
A respeito dos “doze”, há bastante apoio nos evangelhos. Os de Marcos e Lucas mencionam a constituição do grupo dos doze no contexto da atividade de Jesus na Galileia, situando-a no “monte” (Mc 3,13;Lc 6,12-13). Mateus antepõe a escolha e chamada dos discípulos ao discurso em que são dadas as instruções para os “enviados” (Mt 10,1-4). Nos três casos, há o elenco dos nomes “dos doze” discípulos, no qual Pedro aparece como primeiro e Judas o traidor (Mc 3,19). O comportamento desses escolhidos por Jesus no contexto de sua condenação e morte não é censurado, mas interpretado à luz dos textos bíblicos e as palavras proféticas de Jesus (Mc 14,17-21; Jo 13,11.18-19. 21-30; 17,12)259.
Jesus tem a palavra autorizada e tem a iniciativa de formar o grupo dos dozes apóstolos para compartilhar a sua missão num relacionamento singular com ele. A vocação dos primeiros discípulos e a sua resposta ao chamamento tornaram-se protótipo da experiência dos fiéis, chamados por sua vez a seguir Jesus com dedicação total (Mc 1,16-20). Jesus declara a motivação-promessa do chamamento; “Farei de Vós pescadores de homens” e
257 FABRIS, R. Jesus de Nazaré história e interpretação, p. 134. 258 Ibid., p. 137.
“ser pescadores de homens” significa participar da missão de Jesus que consiste em reunir os membros do povo de Deus para o juízo final (cf. Jr 16,16)260.
Aos apóstolos que compartilharem o destino de Jesus com retidão e perseverança, Jesus promete associá-los ao seu múnus de juiz escatológico. Eles sentar-se-ão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. A reconstituição do Israel ideal, em que estarão unidas as tribos dispersas, faz parte da esperança messiânica projetada para o fim dos tempos. Com a escolha de doze apóstolos, Jesus assume essa esperança e antecipa a sua realização. A adesão incondicional que Jesus cobra de seus discípulos só encontra correspondência no estatuto religioso dos membros do povo de Deus chamados a seguir a Deus de coração puro261.
As exigências radicais com que Jesus condiciona a adesão dos apóstolos à sua missão mostra, por um lado, a exceção da autoridade de Jesus e, por outro, a urgência de seu plano. Doravante, os apóstolos terão um destino de perseguidos, como consequência lógica da relação pessoal e irreversível que fundamenta sua vocação262. Nesse mesmo sentido, Pagola diz que o reino de Deus está irrompendo, nada os deve distrair, doravante dedicarão a sua vida a serviço do reino de Deus, incorporados à vida e à tarefa profética do próprio Jesus263.
Para Comblin, a comunidade que os apóstolos formaram mantinha a unidade no pensar e no agir, formando um só ser, um corpo que age em conjunto. Essa unidade pode se comparar com a unidade do povo de Israel, pois eles são os novos doze patriarcas, retomando a direção do povo de Israel264. Como os patriarcas os apóstolos são os novos fundadores de Israel, do Israel que caminha com o Messias rumo a sua nova vinda triunfal265.
260 FABRIS, R. Jesus de Nazaré história e interpretação, p. 137. 261 Ibid., p. 139.
262 Ibid., p. 139.
263 PAGOLA, J. A. Jesus: aproximação histórica, p. 336. 264 COMBLIN, J. Atos dos Apóstolos vol. I: 1-12, p. 83.
Sobre os apóstolos de Jacobina, há controvérsias. Pe. Schupp relata que no dia 19 de maio de 1872,dia de Pentecostes, considerado o marco inicial da fundação da seita, Jacobina escolheu os apóstolos, discriminou os nomes, declarando quem eram os apóstolos prediletos e seus discípulos. O primeiro escolhido foi João Jorge, o marido, dando o nome de João. Einsfeld, o Judas, o segundo, Francisco266, o que chamaria de Pedro, Henrique, seu outro irmão, Robinson, Rodolpho Sehn, Cristiano Kassel e Jacob das mulas. Além desses sete, escolheu outros que tiveram papel de destaque na seita267. Janaína Amado acredita que não se pode provar a existência de apóstolos; para ela, existiu uma liderança intermediária entre o casal Maurer e os demais adeptos, responsável pelas execuções das ordens e orientações do casal268.
A importante testemunha ocular do movimento Mucker, Miguel Noé, refere-se a apóstolos, no movimento, como uma das palavras trapaceiras, criadas pelos clérigos, de seus sermões, missas e palavras para manchar a imagem da inocente Jacobina269. Ele acusa certas pessoas que frequentavam a casa dos Maurer, mas que não tinham intenções sérias, que Maurer deveria ter expulsado. Pode-se ver isso no texto abaixo.
Essas pessoas eram grandes tolas e quando iam ter com os outros, levavam conversas ridículas sobre Cristo Feminino, os apóstolos, a “Nova Comunidade” e outras charlatanices semelhantes, porque elas mesmas não tinham opinião própria e nem queriam tê-la270.
Para Moacyr Domingues, o título de apóstolos na seita mucker, era simbólico, a missão de todos os propagadores da seita seria de explicar, por toda a colônia, a razão do movimento e desfazer a pejorativa imagem do grupo e, em especial, de Jacobina. Seria uma viagem apostólica para conquistar mais adeptos, o que seria um meio de subsistência, pois havia o boicote econômico por parte de muitos comerciantes e colonos locais271.
266 Francisco, como se viu pela carta que Jacobina escreveu pelas mãos de Klein, não aceitou a fazer parte da seita, ao contrário, envergonhava-se dos feitos da irmã.
267 SCHUPP, A. Os Muckers, p. 67.
268 AMADO, J. A revolta dos Mucker, p. 194.
269 NOÉ, M. História do ano de 1874. In: DOMINGUES, M. A nova face dos Muckers. 1. ed. São Leopoldo: Rotermund, 1977, p. 385.
270 Ibid., p. 389.