TT) Não!!! Nem com ela (a mãe) entendeu? Mesmo que eu conte para ela não vai fazer diferença para mim. Para mim faria diferença minha família, minha avó, minha tia, minhas primas; meu avô ainda não sabe, minha tia disse assim: “Não conta! Italianão antigo”. Minha tia falou: “Ele vem do sítio, quase não vê você, então quando vocês vierem para cá...”, até por causa do meu tio, nós nos tratamos com carinho, mas aquela coisa na casa dos outros nós não temos, a gente não se expõe e não é porque eu vou passar o final de semana sem beijar a C na frente de alguém que eu vou me sentir mal por causa disso e ela também, é uma questão de você respeitar, é aquela história do respeito. Minha tia pode até aceitar, mas eu não tenho porque ficar me agarrando com a C na frente dela, porque as pessoas julgam muito o que elas vêem, então eu prefiro que elas vejam a gente convivendo bem, se cuidando e não tendo o carinho exposto, do que ela acabar julgando ou até sentir alguma coisa, tipo sei lá... vai que ela me vê beijar a C e de repente ela sente nojo, eu não sei o que vai acontecer, então eu prefiro não expor, como ela já me disse que basta eu estar feliz, isso não quer dizer que ela aceitou, isso não quer dizer que ela não tem preconceito: é a sobrinha dela que ela gosta e que está feliz, agora ela nunca me disse que aceita relação homossexual, então por que eu vou me expor e expor a C a isso? Não precisa, a gente não precisa disso, então a minha família é tranqüila, todo mundo sabe desde o começo.
Inicialmente TT desvelou sobre seu relacionamento com C primeiramente para sua avó, pois a considera como mãe e esta por sua vez não apresentou, a princípio, nenhum tipo de resistência, embora mais tarde tenha recuado, mas não ao ponto de rejeitá-las. Esta atitude foi atribuída ao fato da avó ter sido gerente de prostíbulo e, portanto, pouco preconceituosa. A mesma reação se deu com a prima e tia maternas, que não se escandalizaram e, na manifestação, priorizaram a felicidade da mesma, ao contrário da reação de sua mãe, que conforme relato da avó, foi bastante dramática.
TT diz não se incomodar com a mãe, se importando somente com sua avó e tia. Seu avô também é uma figura importante, está no lugar de pai, mas a pedido da avó, que argumentou sobre sua idade avançada (75anos) e seus valores rígidos, optou em não revelar sobre sua orientação sexual.
É evidente que TT procura deixar seus pais fora do que considera ser sua família, negando qualquer importância quanto a opinião dos mesmos sobre sua vida e relacionamento com C. Tem claro que não existe a aceitação da união propriamente dita, mas entende que seus familiares priorizaram sua felicidade, respeitando a sua escolha atual.
Para garantir uma convivência o mais tranqüila possível com seus familiares, TT opta por não demonstrar nenhum tipo de carinho físico entre ela e C quando está na casa da avó e tia, ambas acreditam ser uma atitude respeitosa e que facilita a convivência, aliás, fato que se dá também na residência da família de C, pois partem do princípio que é importante as pessoas vê-las convivendo bem, harmoniosamente, e que a exposição de carinhos poderia enojá-los de alguma forma. Portanto, preferem evitar.
Ficou também explícito, durante a entrevista, a preocupação que TT demonstrou em não esconder da família seu vínculo com C.
A não demonstração de afeto entre os casais perante a família e/ou a não exposição para a sociedade em geral é uma forma de comportamento comum entre todos os casais entrevistados, pois alegam se tratar de respeito para com os familiares e preservação da intimidade.
O universo que envolve o desvelar da homossexualidade de C é bastante diverso na sua família. Ao contrário da companheira, C sempre residiu com a mãe e irmão e possui um forte vínculo afetivo.
C) Como eu te disse, a minha mãe criou, somos eu e meu irmão só, dois, só o casal, ela criou embaixo das asas, ao contrário da TT, que criou o filho para o mundo, mas como eu te falei, a minha família criou os filhos para si. “Deus o livre” o filho sair de casa. Então, quando eu saí, ela armou o maior escândalo! Ela não podia escutar o nome da TT em casa!!! Só que foi assim, aquela coisa de mãe, ela até me questionou se eu estava indo para morar com ela como um casal, eu disse que não, no começo eu neguei, porque eu queria que convivesse para ver que não é nada de ruim, e de anormal. E foi indo, até que ela me encostou na parede literalmente. A TT estava viajando a trabalho e eu saí do serviço e fui almoçar na casa da minha mãe e ela chegou e perguntou! Aí eu contei: “Estamos vivendo como um casal!” – ela: “Ah, não sei o quê, porque blá, blá, blá, porque isso não deve...”; aquela coisa de mãe, mãe preocupada. “Não esquenta a cabeça mãe, eu estou bem, eu estou estudando, nós temos nossas coisas, não se preocupe!” Daí ela sempre fala aquela história: “Ah, mas a porta da minha casa vai estar sempre aberta para o dia que você quiser voltar!” Eu: “Mas eu não vou voltar, não se preocupa, eu estou bem!!!”. Ela sabe, meu irmão, digamos assim, não tem como não saber, só se for muito burro para não saber.
A família de C expressa um relacionamento diferente da de TT, pois a mãe ficou viúva há mais de 25 anos, e o vínculo estabelecido entre a mãe e o casal de filhos é forte e intenso, além do acréscimo da presença dos tios. Assim como nas outras duas entrevistas, a figura do pai também aqui é inexpressiva, ao contrário da figura materna. Outra semelhança é a não verbalização pela família de origem da união do casal.