Convivendo com os seringueiros nas matas de Xapuri no ano de 2012 e, ainda, analisando suas histórias concedidas para esta tese, foi possível constatar significativas modificações nas maneiras de se viver comparativamente às antigas práticas cotidianas que remontam do “primeiro ciclo da borracha” (principalmente a partir dos anos 2000). Entretanto, também permanências foram observadas. Muitas das atividades do dia a dia se mantiveram da mesma forma que aconteciam nos anos de 1990, como também no início do século. Algumas delas aprendidas, conforme Gomes de Souza (2013), com os pais, avós e bisavós, outras constituídas a partir de relações empíricas de “aprender fazer, fazendo”, resultante de trocas de informações por anos seguidos, que possibilitaram aos habitantes das florestas de Xapuri/AC, por exemplo, distinguirem em meio à maior biodiversidade do planeta a planta que cura determinada moléstia e outra, de aspecto físico bem semelhante, que envenena o desavisado que a utilize.
Alguns fragmentos de relatos ilustram a luta diária dos sujeitos seringueiros nos anos mais recentes. Falas que sinalizam para uma vida de muito trabalho. Como muitos deles afirmaram: “trabalho de sol a sol”.
Aqui eu trabalho muito. Acordo quatro horas da manhã para ir cortar. É o dia todo andando. Se a estrada de seringa for grande eu chego cinco da tarde. Eu saio cinco
da manhã e volto cinco da tarde. Cinco da tarde estou de volta em casa. Todo dia é a mesma batalha. Também trabalho coletando castanha. Aqui onde moro tem pouca, mais coleto algumas latas no inverno, no período que o ouriço cai. Eu vendo 100 latas, 110 latas... (Fragmento do depoimento de José Ribamar Silva Batista, seringueiro morador da Reserva Chico Mendes)
Levanto quatro horas da manhã todo dia, para fazer uma farofa e ajeitar minhas coisas. Cinco horas eu saio para cortar. Começo o corte muitas vezes cinco horas, e fecho o corte lá pelas nove, dez horas. Daí chego na boca da estrada e volto colhendo o leite (látex). Lá pelas três horas estou fechando a cuia. Só aí volto para casa trazendo o leite em um saco de napa. Do saco, passo para o balde. Depois disso, lá pelas três, quatro horas, eu vou para o roçado trabalhar na minha roça. Só volto lá pelas cinco e meia, seis horas. Mas quando o serviço do roçado está muito pesado, eu perco um dia de corte e fico só no roçado. Quando perco um dia, dois dias, a minha produção cai. Então tenho que recuperar no roçado vendendo o legume. Por mês, se eu cortar direto, todo dia, daria para fazer uns R$ 2.000,00 (Fragmento do depoimento de Raimundo Sousa Nascimento seringueiro morador da Reserva Chico Mendes)
Observam-se pelos fragmentos de falas apresentados que o processo de corte do látex permaneceu exatamente como sempre foi. Entretanto, como o processo de defumação para a produção das “pélas” passou a não acontecer mais (agora o “leite” coletado é depositado em um balde para entregar em postos de recebimento da NATEX), os seringueiros de Xapuri passaram a utilizar parte do tempo que era dedicado à produção/defumação do látex para outras atividades no “roçado”.
Quando é época da castanha eu me levanto cedo, faço meu café, bebo, como uma merendinha e vou coletar a castanha. Quanto estou cortando seringa acordo também cedo, seis horas da manhã, faço meu café, como uma merendinha e vou cortar seringa. Extrair o leite. Fico até quatro horas da tarde, direto trabalhando. Quatro horas eu venho embora (José Barbosa de Lima, seringueiro do PAE Cachoeira) Aqui na colocação todos os anos eu corto seringa. Mas quem trabalha com roçado só vai cortar seringa quando fez todo o serviço da lavoura branca. Colher o arroz, plantar o feijão. Depois disso é que nós começa a cortar seringa. Nessa época eu começo (referia-se a junho). Todo dia levanto cedo, dou comida aos bichos e vou para o roçado ou vou cortar seringa. Na castanha também é o mesmo processo. A gente é aqui extrativista. Aqui é borracha, castanha. Mas vendo animais também, um porco, uma galinha, é assim (João Batista Ferreira da Silva, morador da Resex Chico Mendes)
A coleta de castanha também continuou a ser praticada no inverno, sendo a maioria da produção vendida para a COOPERACRE (com a paralização das atividades da CAEX e da usina de beneficiamento de castanha que a mesma montou em Xapuri, os seringueiros passaram a vender a castanha para essa outra Cooperativa fundada pelo “Governo da Floresta”).
Eu levanto para trabalhar umas quatro horas da madrugada, saio para cortar seringa umas cinco horas e quando dá umas três da tarde estou de volta. No outro dia é a mesma coisa. Mas na seringa tem dia que a estrada (estrada de seringa - onde ficam as árvores) se torna menor em madeira (uma quantidade menor de seringueiras para extrair o látex), e noutro dia se torna maior. Então, não tem um horário certo. Mas tenho que sair cedo para dá conta. De manhã é obrigatório sair naquele horário certo. Quando chego em casa, uma ou duas da tarde, eu vou para o roçado. O almoço é lá na estrada de seringa mesmo, aquela farofinha fria mesmo. Então, corto as árvores (extrai a seringa) depois almoço, aí eu volto na estrada de seringa coletando o leite (látex). Depois trago tudo para cá e despejo no vaso. Aí é que vou para o roçado trabalhar nas roças. No roçado fico até cinco, cinco e meia. Quando a noite vem chegando eu volto para a casa para tomar um banho e tirar um cochilo, pois no outro dia tem de novo. Durmo cedo, mas tem dia que não durmo cedo não, pois vou para a mata esperar para matar um bicho para se alimentar no outro dia. Muitas vezes volto de madrugada. Vamos supor, às duas horas. Tem dias que nem durmo, pois chego da espera e já tenho que ir para a estrada cortar seringa. Não dá para a pessoa ter aquele sono. A dificuldade aqui é isso. É o alimento (Jorge Monteiro da Silva, morador da Resex Chico Mendes)
Durante o verão amazônico, nos anos recentes, os seringueiros continuaram acordando cedo na busca das árvores para sangrá-las. Entretanto, os relatos coletados sinalizaram que após a inauguração da NATEX, em Xapuri/AC, quem define mesmo o período de corte das seringueiras é o gerente da fábrica. Se a fábrica estiver com problemas de matéria-prima, mesmo no inverno, as seringueiras são sangradas (observa-se que a NATEX é a única compradora). Em conversa informal com o seringueiro de nome Branco, ainda por ocasião dos agendamentos das entrevistas, a seguinte frase foi relatada: “agora, a NATEX pensa que eu sou funcionário dela”.
As falas também deixaram claro que os seringueiros de Xapuri/AC, além de continuarem dedicando parte de seus tempos diários para atividades no “roçado”, continuaram realizando o manejo de criações (principalmente gado). E nas áreas onde a caça não “fugiu para o fundo da floresta” (ver mais sobre essa questão no capítulo 4), ainda costumam caçar (agora o hábito de “esperar” o animal durante a noite é menos intenso, pois afirmam que preferem caçar de dia).
A alimentação do dia a dia é feijão e arroz com uma carninha do terreiro ou do mato, quando arranjo. Ainda tem caça, aqui e acolá ainda mato, mas às vezes demora uma, duas semanas para matar alguma coisa. Peixe de açude não tem então a carne é de terreiro (galinhas, porcos) mesmo ou da mata. (Fragmento do depoimento de Raimundo Sousa do Nascimento seringueiro morador da Reserva Chico Mendes)
Na busca por evidências sobre a vida cotidiana, foi possível observar, nos relatos, que os seringueiros, ao fazerem referências ao passado, parecem procurar reconstituir lembranças do desenvolvimento de atividades que se mantém até hoje. De modo que passado
e presente quase sempre se apresentam articulados. As falas também deixaram claro que a dieta alimentar da atualidade não se diferencia, significativamente, do verificado nos anos da década de 1990. A modificação, segundo também as experiências na floresta, consiste na presença mais intensa de produtos industrializados comprados na cidade. Em outros termos: atualmente os seringueiros parecem depender mais do mercado (principalmente os que moram próximos da cidade).
O açougue do seringueiro é uma espingarda para ir caçar um bicho na mata. E o mercado é o dinheiro. Se tiver dinheiro para ir na cidade compra. Mas o prato certo do seringueiro, como diz o ditado, o prato certo do caboclo da mata é o arroz com feijão (José Ribamar, seringueiro morador da Reserva Chico Mendes).
A caça aqui é difícil, a gente para arrumar um rancho cria muito né, cria galinha, cria pato, cria porco, cria gado. A gente come mais é carne de boi. Aqui caça não tem mais mesmo, e caçar era um esporte muito bom. Pois de primeiro (antigamente), eu me alembro, quando o seu Leônidas morava aqui eu só vivia caçando com aquele menino dele, que gostava de caçar mais eu, o finado Guilherme. Nós só vivia no mato caçando, hoje ninguém caça. É até proibido ficar falando isso. Não precisa mais fazer isso (caçar), a gente come carne de criação de casa mesmo: galinha, porco. Aqui eu crio um gadozinho, vou economizando tudo e compro o que precisar, depois compro gado de novo, é assim. A gente comprava alimentação na cidade, mas agora a gente compra desse que chegou no carro aí, ele tem uma mercearia e vende de tudo de primeira. Aqui às vezes a gente compra em Brasiléia, compra em Rio Branco, compra em Xapuri (Francisco Teixeira Mendes, seringueiro do PAE Cachoeira).
Importante dizer que a partir da chegada da luz elétrica tornou-se possível, por exemplo, conservar os alimentos (onde a energia existe, a carne não é mais salgada). Com a eletricidade apareceu a televisão e, com ela, mais estímulos para o consumo de produtos que muitos sequer conheciam. O encurtamento das distâncias para Xapuri, provocado pela transformação de “varadouros” em ramais trafegáveis, também facilitou a aquisição de alimentos diferentes do que estavam acostumados a consumir (desde que possuam rendimentos para adquiri-los, é claro).
As moradias não são mais construídas pelos próprios seringueiros, agora, utilizando o “Crédito Habitação”, muitos contratam carpinteiros/pedreiros da cidade. Observa-se que a pesquisa sinalizou para significativas mudanças nos tipos de habitação nas áreas pesquisadas, comparativamente ao que predominava na década de 1990. Na maioria das colocações, tanto do PAE Cachoeira como da Resex Chico Mendes, observou-se que as casas, em 2012, em sua maioria, eram de madeira (algumas com partes de alvenaria) com cobertura de “brasilit”.
Nas cozinhas, o “jirau” ainda é facilmente encontrado. Já os fogões de barro (movidos à lenha), que eram bastante comuns em períodos passados, estão sendo substituídos, quando possível, pelo fogão a gás. As residências de paxiúba e palha só são frequentes em lugares onde a luz elétrica não chegou e/ou em regiões fora da área de influência da NATEX (mais distantes da cidade), conforme pode ser observado nas figuras apresentadas a seguir.
Figura 25 - Residência do Seringueiro Manoel Pantoja da Silva Foto de Carlos Estevão Ferreira Castelo/2012.
Residência do Seringueiro Manoel Pantoja da Silva na Resex Chico Mendes (casa de paxiúba, coberta de palha e sem energia elétrica)
Figura 26 - Residência do Seringueiro Manoel Pantoja da Silva
Foto de Carlos Estevão F. Castelo/2012. Residência do Seringueiro Manoel Pantoja da Silva na Resex Chico Mendes (não existe energia elétrica)
As mudanças no tipo de habitação devem-se, como assinalado antes, a um programa do Governo Federal chamado “Crédito Habitação”. Programa gerenciado pela Caixa Econômica Federal (CEF), que oferece financiamentos para os seringueiros construírem residências na floresta. Entretanto, nem todos conseguem esse crédito. Fato que, inclusive, provoca insatisfações e protestos. Algumas imagens capturadas nas andanças na mata evidenciam as afirmações sobre os novos tipos de habitações e utensílios mais “modernos”.
Figura 27 - Residência do Seringueiro Jorge Monteiro da Silva
Foto de Carlos Estevão F. Castelo. Cozinha da casa (de madeira) de Jorge Monteiro da Silva
Figura 28 - Residência do Seringueiro Aluísio Teles
Foto de Carlos Estevão F. Castelo/2012. Vista da sala da casa do seringueiro Aluísio, morador da Reserva Chico Mendes
Na dinâmica da vida cotidiana das famílias seringueiras, nos anos de “florestania”, destaca-se o enfrentamento que muitos necessitam fazer diante da leishmaniose. Doença grave, cuja incidência tem aumentado na região nos últimos anos. Para problematizar sobre essa questão, deixam-se de lado as estatísticas. Números que, muitas vezes, escondem a realidade experienciada. Sendo assim, informa-se sobre as experiências vivenciadas na colocação do seringueiro Manoel Pantoja da Silva, localizada na Resex Chico Mendes, onde, pela primeira vez, durante o trabalho de campo, a tão a temida “ferida braba” apareceu.
Neste local, deparou-se não com um número frio, coletado em alguma publicação especializada, mas com a vida sofrida. A mulher do seringueiro Pantoja, segundo o próprio relatou, “padecia dessa moléstia”. Inclusive, naquela semana, havia piorado muito, “pois tinha chupado um pedaço de cana”.
Observa-se que antes da gravação das narrativas uma conversava com os colaboradores sempre era realizada, momento em que eles ofereciam um “café fresquinho”, o que tornava, quase sempre, a prosa mais afetiva. Também não era raro um convite para caminhar até o “roçado”, ou mesmo até uma fonte próxima para mostrar onde retiravam a água para o consumo. Inclusive, muitas vezes, nessas caminhadas, era possível perceber o orgulho dos seringueiros pelo lugar onde moravam (principalmente os mais idosos). Não por acaso, muitos olhos brilhavam ao comentarem sobre o local onde viviam e sobre como era suas vidas na floresta.
Mas seu Pantoja estava triste em sua colocação naquele dia quente de 2012. Mesmo assim, ofereceu um suco “vermelho, que sua esposa havia preparado para o almoço”. Percebendo-se a situação da esposa desse seringueiro (que se encontrava deitada numa rede gemendo) compreendeu-se, de imediato, o motivo de sua tristeza: era a temida “ferida braba”.
Como informado, o chefe da FUNASA em Xapuri havia relatado, em sua entrevista, (ver fala completa nos anexos) uma enorme preocupação com a incidência da leishmaniose na zona rural de Xapuri/AC. Inclusive, explicou tecnicamente como a doença poderia ser transmitida. Em seu relato falou o seguinte:
Com relação a aspectos de saúde houve uma mudança na questão das doenças que a FUNASA é responsável. Antes o problema era a malária. Hoje, na área da reserva Chico Mendes e nas localidades vizinhas da reserva, temos a leishmaniose como um problema muito grande. É uma doença transmitida por um mosquito silvestre. O mosquito vivia lá no meio da floresta. Devido o homem está explorando o ambiente onde esses vetores vivem, eles passaram a migrar da mata para as proximidades das residências. As pessoas criam, dentro da reserva, gado, porcos e possuem animais domésticos. Esses animais são fonte de alimento para esses vetores. Os mosquitos são atraídos pelos animais e terminam por entrar em contato com os seres humanos. Estamos observando uma grande elevação dos casos da doença anualmente. Esse vai ser nosso desafio: combater essa doença. A gente tem lutado bastante, mas é muito difícil. Fazemos o trabalho de borrificação, intradomiciliar e o tratamento das pessoas doentes. O medicamento tem sua distribuição gratuita pelo centro de saúde. A pessoa vai ao médico, faz a coleta do material que vai para análise. Dando positivo, essa pessoa recebe o tratamento. Hoje o tratamento no seringal não é o ideal. O ideal seria que o paciente ficasse na cidade e lá fosse tratado. Mas nem todo mundo tem condições de ficar na cidade para tomar 40 ou 50 ampolas do medicamento. Eles alegam que o governo não dá condição para ficarem na cidade, e aí eles têm que levar o medicamento para o seringal. Então, não temos condições de acompanhar esse tratamento. Não tem como a gente acompanhar. Fica difícil saber se aquela pessoa doente realmente tomou a quantidade correta para curar e se foi orientada, após o termino do tratamento, para retornar e verificar se está realmente
curada, para somente aí ser liberada. Mais de 99% não retorna e não temos como acompanhar essas pessoas (Joaquim Vidal, Chefe da FUNASA em Xapuri/AC)
Tristeza e apreensão foram os sentimentos diante da situação da família do seringueiro Pantoja. Também, iniciou-se a partir desse caso, preocupação com uma possível picada do “katuki”, o mosquito silvestre transmissor da doença do qual havia relatado o Coordenador Chefe da Funasa, em Xapuri. Sem dúvidas, o vetor encontrava-se presente naquela colocação. A realidade seringueira desnudava-se.
Não somente na casa de Pantoja vivenciou-se experiências e histórias sobre os sofrimentos provocados pela “ferida brava”. A leishmaniose, pelo percebido no “mato”, está aumentando a cada dia na região de Xapuri/AC e prejudicando bastante a vida dos que ali vivem (principalmente a das crianças). E o aumento de sua incidência, como bem afirmou Joaquim Vidal, parece possuir relação com as mudanças de uso da terra que, como já citado, se intensificaram nos anos de 199042.
Um fragmento da fala do seringueiro João Batista Ferreira da Silva, morador da Resex Chico Mendes, deixa bastante claro a situação atual da doença na região, como também o sofrimento que a mesma provoca nas pessoas.
A questão da saúde aqui, se não for muito grave como uma febrezinha, a pessoa sai de moto para a cidade. Todo mundo tem seu transporte. Quando é grave a ambulância vem buscar, ou mesmo a polícia. A doença que está mais frequente aqui é a leishmaniose. Está muito frequente essa doença aqui. Se você for ali na escola, na comunidade, verá que quase todo mundo tem essa doença [griso meu] . Meus meninos já pegaram. Mais de uma vez. Várias vezes.
Atento as histórias e memórias dos seringueiros de Xapuri, sujeitos cuja multiplicidade de vivências e saberes a historiografia oficial muitas vezes tratou de colocar no mais profundo limbo (seus conhecimentos e iniciativas), percebeu-se como travaram, e ainda travam, uma batalha diária incessante pela sobrevivência e por uma vida melhor. No caso das doenças, além da leishmaniose, nos tempos atuais, muitos brigam contra moléstias mais modernas.
42O mosquito sempre existiu no meio da floresta. Mas devido à exploração do ambiente pelo homem, ambiente onde os vetores vivem, eles passaram a migrar do interior da mata para as proximidades das residências. As derrubadas para implantação de pastos para gado parecem possuir relação com a afirmativa.
No período em que os “coronéis de barranco”43 davam as cartas, e mesmo nos anos
da década de 1990 do século passado, era a malária quem mais castigava. Entretanto, atualmente (2012), as evidências coletadas nos relatos deixaram claro que os seringueiros de Xapuri também sofrem com o colesterol; com o diabetes; com a pressão alta e, consequentemente, com todos os problemas cardíacos daí decorrentes.
Cortei seringa uns quinze anos, antes cortei num lugar chamado Meia Noite, também em um lugar na Bolívia chamado Cajueiro. Cortei em outra colocação chamada Bicho, e cortei ali perto dos 3 Corações, na extrema do Peru, num lugar chamado Espírita, mais o meu pai. Aí depois eu voltei para o Vinte (Km) da estrada velha. Moramos na extrema do Brasil com a Bolívia e lá cortei 10 anos na colocação do Hélio, a colocação chamava-se Rio Branco. Depois fui ali para a Tucunduba, e da Tuncunduba eu estou aqui agora. Mais todo tempo sempre mexi com seringa. Só agora eu não estou mexendo, pois peguei uma doença nas pernas, uma doença que faz doer minhas pernas. Eu peguei colesterol, diabetes, pressão. Num tempo desses peguei começo de derrame também, fiquei com as mãos meio dormentes, mais sempre lutando (José de Lima Eduino, morador do PAE Cachoeira).
Aqui não tem posto de saúde não. Aqui tem umas pessoas que trabalham na saúde, mais só voluntários mesmo, andando por aí. Tinha um posto ali, mais já acabou e agora é uma casinha que vai entrar 12 computadores para os meninos estudarem, mas não tem posto de saúde não. As pessoas adoecem aqui desse negócio de pressão, desse negócio de colesterol alto, essas coisas, o pessoal aqui não pega doença muito não. Naquele tempo do seu Leônidas, eu não me lembro se existia esse tipo de doença não, eu nem ouvia falar nisso. Hoje em dia foi que o pessoal inventou isso, esse negócio de colesterol alto, pressão alta, pressão baixa, e parada cardíaca, antigamente se dava isso as pessoas morriam rapidinho. Mas dizem que só quem morria desse negócio era o pessoal rico, aqui morriam com malária (risos). Malária eu já peguei muito aqui, já peguei 10 malárias, mais o pessoal da SUCAM veio. Naquela época tinha SUCAM em Xapuri, e eliminaram as carapanãs que