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3.2 Methods

3.2.4 Measurement of discharge duration of spark discharges

O enfoque nas cadeias de valor fornece dois subsídios específicos para análise do processo de atualização tecnológica. Em primeiro lugar, mostra que o processo de criação de valor não é limitado à produção. A segunda contribuição da perspectiva da cadeia de valor é que um volume crescente do comércio internacional ocorre sob a forma de comércio explicitamente coordenado entre empresas formalmente independentes dentro de redes, e não por meio de transação de mercado ou do comércio intra-empresas (Humphrey; Schmitz, 2000).

Compreender a organização dessas cadeias é fundamental para poder fazer um julgamento sobre:

• Oportunidades para adicionar valor: que tipo de trabalho é alocado para as empresas da cadeia sediadas em países em desenvolvimento?

• Atualização tecnológica: a cadeia permite o aprendizado e a melhoria dos produtores sediados em países em desenvolvimento?Ao fazer tal julgamento, é necessário distinguir entre dois tipos de produtores (em estágios incipiente ou avançado); entre diferentes tipos de aprimoramento (ele é limitado à produção ou é estendido ao design e ao marketing?); e entre diferentes tipos de cadeias (as relações entre produtores e compradores são simétricas ou um controla o outro?).

Novos produtores nessas cadeias podem obter ganhos rapidamente, em termos de melhorias em processos e produtos, porém os produtores mais avançados com ambições de ingresso em novas funções das cadeias podem descobrir que as suas tentativas são frustradas pelas relações desiguais de poder. Podem ser obrigados a escolher entre conflitos nas cadeias existentes ou o deslocamento para novas cadeias onde as relações com os clientes sejam mais simétricas (Humphrey; Schmitz, 2000).

As pesquisas sobre aglomerados produtivos têm gerado duas principais conclusões para as políticas públicas:

• Aglomerados locais bem-sucedidos não podem ser criados do nada; é preciso haver uma massa crítica de empreendimentos e capacitações (não importando quão rudimentares) que as ações de promoção possam mobilizar.

• O apoio dos governos aos aglomerados locais funciona melhor quando a política industrial é descentralizada e construída em torno de parcerias público-privadas (Humphrey; Schmitz, 2000).

A principal conclusão analítica que emerge da análise das cadeias globais de valor pode ser assim sintetizada: a capacidade e o escopo para a política industrial local variam de acordo com a forma como os aglomerados industriais se inserem nas cadeias globais de valor. Clusters que operam em cadeias globais muito atadas (cativa, modular ou hierarquia)

embarcam em um rápido processo de atualização de produto e de processo, no entanto, enfrentam dificuldades para realizar progressos em direção a etapas como design e

marketing. Esse tipo de atadura é menos provável em clusters inseridos em cadeias não

hierárquicas como é o caso dos tipos relacional ou de mercado. Nesses tipos de cadeias a atualização tecnológica não pode ocorrer sem que haja investimento substancial dos produtores locais e ainda suporte das instituições locais. Para que essa estratégia local funcione, a posição das firmas locais líderes é crítica: estas se aliam prioritariamente com a rede política local ou com os seus compradores globais? (Humphrey; Schmitz, 2000)

A construção das redes políticas depende das relações ao longo do eixo público- privado e, em alguns casos, essas redes precisam ser construídas ao longo de um eixo local- global. No caso de um aglomerado orientado para a exportação, a rede política necessitaria incluir agências públicas e organizações privadas (associações empresariais), os

empreendedores locais chave e talvez até os seus clientes no exterior. Essa rede política deve ser mobilizada quando o objetivo é fortalecer a posição existente do aglomerado local na cadeia global, por exemplo, via melhoria da infra-estrutura local e melhoria das facilidades para treinamento, teste e certificação (Humphrey; Schmitz, 2000).

Em contraste, se o objetivo é reposicionar o aglomerado progredindo para o design e o marketing, será mais difícil mobilizar essa rede política, especialmente se o aglomerado vende para um número pequeno de compradores globais (Schmitz, 2005). Para as políticas públicas, a conclusão que emerge dessa experiência é que as respostas estratégicas às pressões competitivas globais não podem depender exclusivamente de ações privadas: requerem iniciativas de agências públicas como elemento catalisador ou mediador.

Considerando as forças centrífugas da globalização, o potencial para o surgimento de conflitos entre os agentes locais aumenta. Particularmente em projetos de aprimoramento produtivo, o conflito é freqüentemente inevitável. “A mediação de política bem informada é necessária para construir ou reconstruir alianças. Esse papel é particularmente importante para o Estado “enxuto” que depende do apoio do setor privado” (Schimtz, 2005: 339). A pergunta é se as agências públicas efetivamente procuram esse papel de mediadores na condução da política industrial. Assumir esse papel requer conhecimento de dois tipos: conhecimento do setor industrial em questão e capacidade política de resolução de conflitos (Humphrey; Schmitz, 2000).

Cassiolato e Szapiro (2003) afirmam que a proposta elaborada pela escola do Institute of Development Studies (IDS), de fato, apresenta uma ponte interessante ao sugerir a busca de uma tipologia para aglomerados a partir do entendimento sobre os processos de governança das relações ao longo da cadeia. No entanto, Cassiolato e Szapiro (2003) criticam a visão dessa escola por ter como foco a inserção dos aglomerados locais no processo de globalização.

Para Cassiolato e Szapiro (2003), as análises disponíveis da escola do IDS com relação aos países em desenvolvimento, apesar de incorporarem importantes elementos sobre a coordenação das atividades ao longo das cadeias, ainda são extremamente reducionistas, no sentido de que geralmente: a) limitam as possibilidades de transformação dos arranjos produtivos locais a uma quase inevitável integração à globalização via

exportação de commodities e; b) reduzem as possibilidades desses clusters à participações em cadeias que são inevitavelmente coordenadas por entidades externas a tais países (Cassiolato; Szapiro, 2003).

Com relação à primeira crítica realizada por Cassiolato e Szapiro (2003), pode ser visto no começo desse capítulo, que fundamentos iniciais da teoria sobre cadeias globais de valor e ainda desdobramentos posteriores não suportam a idéia de que o mercado internacional é a única alternativa. Cada vez mais pesquisadores pertencentes ao IDS defendem que produtores locais operando em cadeias globais podem encontrar barreiras para obter avanços e que melhores oportunidades podem existir em cadeias de valor que têm alcance nacional ou que se estendem a países vizinhos. Essas cadeias tendem a ser menos dominadas pelos compradores, as relações produtores-compradores tendem a ser mais igualitárias e o tamanho das encomendas menores, tornando o processo de experimentação mais fácil.

Schmitz (2005), por exemplo, inicia seu texto afirmando que devido ao processo de liberalização comercial que ocorreu nos países em desenvolvimento durante as décadas de 1980 e 1990, a maioria desses países deveria se questionar não se deve se integrar à economia global, mas como deve se integrar ao mercado global. Nota-se que aparentemente esses países não têm escolha de participar ou não do mercado internacional, mas que existem alternativas em termos de forma de inserção.

No entanto, ao longo do texto ao analisar as possibilidades de atualização tecnológica oferecidas pela inserção em cadeias globais, critica “o debate sobre política industrial [de muitos países, que] toma como ponto de partida consensual a premissa de que o foco nas exportações oferece melhores oportunidades de aprendizado. E assim, as empresas voltadas para a exportação ganham status superior”. O autor defende que as pesquisas indicam que as empresas que têm os mercados nacionais ou de países vizinhos como alvo investem mais em design e marketing e têm adquirido capacidades que não foram desenvolvidas pelos fabricantes que exportam para a América do Norte ou para a Europa. Talvez essas empresas devessem ser as novas heroínas no debate de política industrial (Schmitz, 2005: 340).

Sendo assim, Schmitz (2005) defende que a política industrial deve dar maior atenção às oportunidades de avanço que surgem em cadeias nacionais de valor. Os desafios colocados pelos mercados nacionais ou regionais são, entretanto, consideráveis em razão da abertura dos mercados às importações – grandes segmentos são caracterizados pela demanda por alta qualidade, rápida entrega e novos modelos.

No que diz respeito à segunda crítica realizada por Cassiolato e Szapiro (2003), verifica-se que a escola do IDS atualmente defende que os clusters de países em desenvolvimento podem participar de cadeias de governança relacional, porém, reafirma que, de fato, a construção de relações no mercado internacional baseadas nesse tipo de governança exige muito investimento.

Segundo Humphrey e Schmitz (2000) uma das dificuldades enfrentadas pelos

clusters de países em desenvolvimento é o acesso restrito a recursos que possibilitem o

investimento necessário para o desenvolvimento da governança local, que possibilita um

upgrading mais do que incremental. Para entender tal argumentação é necessário explicitar

duas diferenciações: a primeira é entre os conceitos sistema de produção e sistema de conhecimento; e a segunda entre os conceitos de uso de conhecimento e mudança de conhecimento.

Os sistemas de produção podem ser entendidos como aqueles que englobam design do produto,

insumos, materiais, máquinas e trabalho, e ainda transações típicas de bens produzidos a partir de uma especificação originária de fora do sistema. Os sistemas de conhecimento, por outro lado, engloba os fluxos de conhecimento, o estoque de conhecimento e os sistemas organizacionais envolvidos na geração e no gerenciamento de mudanças de produtos, processos ou organização de produção (Bell; Albu, 1999: 1723).

Os elementos de utilização de conhecimento envolvem manter ou expandir a capacidade usando os modos de produção existentes, treinar trabalhadores em procedimentos em operação ou dentro de um cluster, a imitação de técnicas de produção usadas por firmas vizinhas. Os

elementos de mudança de conhecimento envolvem, por exemplo, gerenciar processos de inovação; em desenvolvimento e design de produtos; ou na busca por seleção, adaptação e assimilação de novos produtos ou processos tecnológicos de fora do cluster (Bell; Albu, 1999: 1724).

Dentro desse contexto, clusters de países em desenvolvimento adquirem competências através da inclusão em cadeias globais de valor. No entanto, upgrading

envolve mais do que aquisição passiva e circulação de conhecimento adquirido através da participação em mercados globais (learning by exporting). A entrada em cadeias de valor caracterizadas pela governança relacional requer investimentos em upgrading e serviços relacionados dentro do cluster. Em outras palavras, longe de substituir o investimento em nível local, o desenvolvimento de governança relacional dentro da cadeia de valor depende dos investimentos em upgrading em nível de firma e/ou de cluster. Mudança de conhecimento requer recursos específicos como: investimento em pessoas, arranjos e equipamentos organizacionais (Humphrey; Schmitz, 2000).

Entretanto, raramente o upgrading realizado em clusters muda o conhecimento em formas mais do que incrementais.

O desafio para clusters de países em desenvolvimento é que, ao se depararem com novos competidores em mercados globais existentes, eles precisam atualizar seus produtos, precisam estender a gama de funções que eles realizam e precisam procurar novos clientes. Isso requer um investimento considerável. No entanto, grandes investimentos em clusters são inibidos pelo

tamanho da estrutura da indústria local, onde clusters são constituídos de uma multidão de

pequenas empresas. Ainda pior, o risco individual e os grandes investimentos são inibidos porque o conhecimento existente dificilmente é apropriado. Erguer barreiras aos fluxos de novos conhecimentos em um cluster é próximo do impossível. Mesmo que os empresários não

visitem as fábricas ou os laboratórios uns dos outros, seus empregados giram e se encontram socialmente, as empresas compartilham fornecedores e clientes e existem outras numerosas formas pelas quais novas idéias vazam e infiltram. Como então pode ocorrer uma reposição do

cluster em mercados globais? Bell e Albu (1999) argumentam que esse tipo de upgrading pode

apenas ocorrer quando a busca por conhecimento é estruturada, proposital e aberta. Isso combina conhecimento gerado internamente pelas firmas e instituições com conhecimento adquirido fora do cluster (Humphrey; Schmitz, 2000: 20).

Não se deve deixar de reconhecer que fatores como a tentativa estratégica e o ambiente político são determinantes importantes para o upgrading local. A experiência do Leste Asiático sublinha essa importância. A literatura sobre Coréia, Taiwan, Hong Kong e Singapura provêm exemplos para inúmeros setores em que firmas locais foram capazes de passar de produtores de equipamento original (PEO) para produtores de design original (PDO) e em alguns casos até mesmo produtores com marca original (PMO)32. Esse

32

Estudos elaborados por Gereffi (1999b); Hobday (1995); Kishimoto (2000); Lee e Chen (forthcoming) citados em Humphrey e Schmitz (2000).

desenvolvimento gradual corresponde à noção de atualização funcional. As explicações para esse progresso diferem, porém parecem ter um elemento em comum: a tentativa estratégica de algumas empresas locais, com esforços conscientes para aprender e vontade de efetuar os investimentos intra-firma e inter-firma requeridos.

Por que essa tentativa estratégica é mais comum em países do Leste Asiático em comparação aos países da América Latina? Alguns autores a relacionam com o ambiente político de suporte, porém, diferenças entre países e entre setores dificultam a generalização33. No entanto, os países do Leste Asiático claramente não sofreram com um ambiente macroeconômico, como aquele que aleijou o desenvolvimento no Brasil e em outros países, durante as décadas de 1980 e 1990. Mudanças drásticas e freqüentes na estrutura de incentivo torna difícil o desenvolvimento e a manutenção de tentativas estratégicas de atualização. Decisões e percepções de investimento para a atualização são influenciadas por uma combinação de fatores, como por exemplo, criação de recursos humanos e estrutura para pesquisa que facilite a inovação e o upgrading. Conclui-se, portanto, como afirmado no início do primeiro capítulo que as políticas nacionais afetam a competitividade sistêmica das aglomerações, influenciando a sua competitividade no mercado internacional. Sendo a competitividade sistêmica calcada em elementos cumulativos, históricos e idiossincráticos, pode se afirmar que enquanto as atividades produtivas são crescentemente globais, as atividades estratégicas de inovação continuam concentradas nos países de origem das firmas líderes globais (Lastres; Cassiolato, 1999).

Com base no que precede, levando em conta as considerações sobre governança nas aglomerações produtivas e nas cadeias globais de valor, este trabalho concentra-se na seqüência na problemática relativa às possibilidades das aglomerações produtivas com vistas a um melhor posicionamento das estruturas local-regionais na dinâmica da globalização. Isso é efetuado com relação à indústria de móveis instalada em São Bento do Sul, no norte catarinense. Os focos principais são vislumbrar de que modo a governança local é afetada pela inserção da localidade no mercado global e como influencia na forma como a localidade se insere no mercado global.

33

3. Caracterização da indústria de móveis e estrutura e dinâmica das cadeias globais de