Discrete Optimization Model for Fleet Selection
5.2 Mathematical Formulation
5.2.5 Case Example Results
As rodas de samba descritas por MOURA (2004) feitas em casa, em fundos de quintal, ou outros espaços, do modo como eram feitas na casa da Tia Ciata, têm um caráter de festa, a música une as pessoas pela cordialidade. Como escreveu MOURA (2004, p.54), a roda de samba é “uma reunião de pessoas ligadas por afinidades existenciais muito claras. Pessoas que ali vão em busca de recreação e companhia. Que fazem da roda a sua cabeça e fortalecem suas convicções de sambista.” A roda é um local de compartilhar sentimentos, de cantar, tocar, dançar, extravasar as dores do cotidiano. Qual é a sua função? Segundo a tese de
MOURA (2004, p.53), “a função primária da comunicação é informar. A da roda de samba é estabelecer o ambiente onde o samba se dá”. O quintal é o lugar onde, desde os primeiros batuques, o samba se sustenta, pelas razões que já vimos nas páginas anteriores. Reafirmamos aqui, novamente apoiando-nos em MOURA (2004, p.30), que:
“... a casa propicia a formação da roda como manifestação espontânea e festiva, na qual vai se desenvolver um tipo de música que ganha foros de gênero. É dentro de casa que nasce o samba – do amaxixado ao de formato estaciano –, e incluídos na “casa” os quintais e terreiros propícios à sua prática”.
Podemos dizer levando-se em conta a roda de samba do “Quintal do Divina Luz” e de outras desse imenso país que é o Brasil, que é na roda que não somente nasce, mas também renasce a cada realização o samba. Dizemos com segurança, depois de feitas as análises do formato do samba feito pelo “Na Cadência”, que esse renascer não passa apenas pelos formatos dos sambas amaxixados ou estacianos, mas por um formato pós-estacianos também.
Mas, teria toda roda de samba esse espírito de cordialidade familiar, intimista, de festa, que reafirmamos acima?. MOURA, (2004, p.34) pontua que...
“...amadora por essência, em sua raiz, o que a roda cria tem originalmente apenas valor de uso. Os sambistas seriam, assim, ao mesmo tempo, como na visão de Jean-Jacques Attali, trabalhadores, não assalariados, cuja produção musical se desvincula da produção de valor.”
Os componentes do núcleo do conjunto “Na Cadência do Samba” declararam estar comprometidos com o samba vinculados nessa produção do valor de uso que Jean-Jacques Attali falou, porém, todos são remunerados pelas suas atuações. Dé Lucas ao ser arguido sobre o que seria o samba pra ele, afirmou com convicção, “o samba é o ar que respiro”. Entendi que ele tenha pretendido dizer que o samba é uma necessidade vital, da qual não pode prescindir. Mas isso não faz com que eles não queiram ganhar pelo produto do seu trabalho. O Pedro Lopes, falou sobre o entusiasmo do Dé Lucas ao receber o seu primeiro pagamento referente ao fruto do seu trabalho como cavaquinista: “Nessa ocasião o Dé trabalhava com o
padrasto em uma obra, então na hora que o Pico foi pagar o Dé ele ficou olhando para o dinheiro sem acreditar, por que era muito mais que ele ganhava na obra, acho que ele pensou, - Não volto naquela obra nunca mais.”
Como já foi observado anteriormente, houve um determinado momento que a roda de samba tipicamente realizada nas casas e quintais passa a se realizar nos espaços designados aos ensaios das escolas de samba, isso se dá nos meados da década de 1930, segundo MOURA (2004, p.131), “do momento em que obtiveram reconhecimento institucional em 1935, até meado dos anos 60 do século passado, os sambistas viveram a roda de samba em sua plenitude nas suas próprias escolas”. As mídias passam a tratar os desfiles das escolas como espetáculos, cada dia mais luxuosos, e a quadra passa a ser frequentada por uma camada mais alta da sociedade. MOURA (2004, p.46) afirma que...
“...com o apogeu comercial do samba enredo é que se dá o esvaziamento do samba de quadra - o momento em que a quadra deixa de ser “casa” para ser “rua” para o sambista. Surgem, então, as rodas semiprofissionais, enquanto as quadras recriam o espaço mítico que a escola não preenche mais”.
A quadra que era “casa” passa a ser rua com a eclosão do enredo comercial, como se segue na leitura de MOURA (2004, p.148), “Não fora assim, não teríamos chegado ao samba urbano nem às escolas de hoje, cujos “ensaios” chegam a reunir 12 mil pessoas num sábado, como ocorreu no Salgueiro nas semanas mais próximas ao carnaval de 2003”. A palavra “ensaios” aparece entre aspas porque nessas reuniões tocava-se mais o samba de terreiro, também conhecido por samba-de-quadra, do que o desenvolvimento do enredo da escola a ser preparado para apresentação no concurso carnavalesco. Continuando, MOURA (2004, p.150) coloca que “o sucesso do samba-enredo nos bailes de salão e através da massificação radiofônica, tenha começado a se desenhar com o afluxo da classe média aos ensaios, antes restritos aos componentes da escola e aos membros da comunidade.” Ao exemplo do que já havia ocorrido nas primeiras décadas do séc. XX, quando as festas das casas das baianas passaram a ser frequentadas pelas classes mais favorecidas da época, também as quadras das escolas de sambas foram ocupadas pela classe média nos idos de 70 e 80 do século passado. Segundo Moura (2004) após o samba-enredo ter sido consagrado como gênero dentro do
mercado fonográfico, com gravadoras disputando exclusividade na gravação dos elepês38. Isso é que gerou o grande afluxo às quadras que por durante anos sustentaram as rodas de samba cariocas. Visando angariar lucros indiscriminadamente é que o espaço da roda deixa de ser “casa” e vem a ser “rua”. Quando o samba-enredo explodiu nas mídias como produto comercial é que a “rua” invadiu a “casa”. Frustrados com as consequências surgidas dessa comercialização, que incluía, entre outras coisas, a cobrança de ingressos aos “ensaios”, que eram as rodas, os jovens caciqueanos reinventaram as rodas quando viraram as costas às escolas e agremiações. Com esse ato de rebeldia, o “pagode” ressurgido pelos novos partideiros, só iria propiciar novos sambistas profissionais que surgiram das diversas rodas que se proliferaram em decorrência do movimento caciqueano.
Foi assim na trajetória do sambista Serginho Divina Luz, que ganhou a alcunha justamente devido ao sucesso do elepê “Divina Luz” do Fundo de Quintal, como foi assim também a trajetória dos rapazes que compõem o núcleo do “Na Cadência”, que encontraram nos sambas caciqueanos o mote para se incluírem no mundo do samba. É fato que as rodas desde há muito têm o hábito de conciliar a cordialidade da casa com o comércio dos bares e botecos, haja vista os diversos exemplos citados em MOURA (2004). Foi assim com o “Bar do Ferro Velho”, foi assim com o “Curral do Samba”, onde por durante anos o Serginho atuou, e é assim na sua casa conhecida como “Quintal do Divina Luz” na qual atua o conjunto musical “Na Cadência do Samba”.
38
“Em 1971 a gravadora Top Tape passou a deter exclusividade na gravação dos sambas-‐enredo. No contrato respectivo, firmado pela gravadora diretamente com cada escola, as agremiações, contratando ilegalmente em nome dos compositores, foram obrigados a ceder, na prática, direitos das obras antes da escolha do vencedor.” Nei Lopes in MOURA (2004, p.158).