3 Methodology
3.8 Case description
A pesquisa assumiu como objetivo principal compreender como os conceitos e analíticas propostas pelos estudos da Teoria Queer são capazes de fornecer uma base teórica disruptiva para ressignificar o papel da Moda no cenário do contemporâneo. Isso porque, ao se interconectar as proposições Queer com o fenômeno da Moda é perceptível que este aporte teórico serve de alavanca para a Moda se emancipar das formas heteronormativas de produção, tendo como uma das consequências mais diretas a aceitação da Moda como uma prática cultural de criação livre de adornos corporais e como área do conhecimento.
A Moda é uma ferramenta potente porque ela é prática cultural de liberdade criativa que tem como resultado ornamentos corporais que serão colocados sobre o corpo do usuário-portador e são esses corpos que irão transitar por locais públicos, carregando estes discursos como parte de si. É desta forma que a Moda consegue transmitir a mensagem de que a composição exterior de uma pessoa (ou seja, suas vestes, cabelos, acessórios, etc.) é apenas um “caracterização”, uma composição criativa sobre si mesmo e, que o valor, o caráter e a moral do indivíduo não devem serem julgados com base no exterior e no visual que esta pessoa apresenta.
Ao se analisar a história da Moda percebe-se que os primeiros agentes criadores de Moda, inseridos no contexto do período Renascentista, estavam buscando na liberdade de auto adornar-se como uma forma de romper com a ordem monárquica instituída, portanto esta prática pode ser considerada como uma insubordinação por parte dos novos ricos que não possuíam linhagem nobre e que ao praticarem a manipulação corporal através do uso de novos matérias, cores e formas, rompiam e questionavam o sistema absolutista.
Conforme verificado pelas pesquisas históricas as reações dos monarcas do período que se estende do século XIV ao XVIII foram sempre no sentido de tentar coibir as práticas de liberdade de manipulação corporal, pois este tipo de liberdade tem a potência de diluir os processos identitários instituídos e torna o sujeito “senhor de si” ao poder manipular-se em seu exterior. Assim, verifica-se que a prática de Moda é uma prática cultural que surge da própria dinâmica social e das lutas pelos direitos às liberdades individuais que estavam sendo requeridas contra a ordem absolutista.
Entre o final do século XVIII e Início do Século XIX verifica-se a “virada” epistemológica e cosmológica que são elucidadas através das analíticas foucaultianas, este momento, conhecido como Era Vitoriana ou período Moderno é marcado por grandes transformações sociais e tecnológicas, é o momento onde a ordem burguesa capitalista se institui como um projeto político e civilizatório, visando novos valores, novas morais e novos comportamentos.
Entre o século XIX e início do século XX, a Moda não era compreendida como liberdade criativa, mas sim como uma prática relacionada com as tarefas que eram consideradas exclusivamente femininas como costurar, bordar e demais artes têxteis. Após os diversos discursos psiquiátricos e cientificistas da modernidade, a mulher além de ser considerada um ser inferior passa a ser considerada patológica, e do mesmo modo todos os tipos de práticas culturais que se relacionavam com o feminino acabaram por ter o mesmo lugar inferiorizado dentro da tradição ocidental.
Precisamente pelo fato histórico de considerar a mulher um ser inferior e patológico e ao relacioná-la às artes têxteis é que, após a evolução dos teares mecânicos as fábricas modernas foram especialmente estruturadas para serem o local de trabalho e exploração de mulheres e crianças. Inclusive, as atitudes de construírem fábricas têxteis em países considerados subdesenvolvidos é decorrência do processo de patologização do feminino. Fato este que serviu de justificativa para todos os tipos de exploração, tanto humana quanto ambiental.
Este tipo de exploração ambiental, social e simbólica é uma prática mantida até aos dias atuais pelos processos industriais chamados de neoimperialistas, pois grandes e milionárias empresas ainda sustentam seus lucros às custas de todos os tipos de exploração e, as vítimas mais diretas são as mulheres e em especial as de países subdesenvolvidos como Índia, Bangladesh, Vietnã, Colômbia, entre tantos outros.
Porém a Moda ao ser ressignificada enquanto uma prática cultural disruptiva é capaz de tornar- se autônoma, independente e emancipada destes processos exploratórios, e assim ser possível de repensá-la enquanto uma prática que é potente para emancipação do indivíduo, pois a liberdade inerente da Moda é uma característica que pode ser considerada Queer em sua própria essência, como Joseph (2016) defende ao questionar se a Moda não seria desde seu surgimento uma “coisa” queer?
Após a terceira onda feminista, os estudos gays e lésbicos e as correntes filosóficas pós- estruturalistas, há a quebra das grandes categorias fixas sobre sexualidade, gênero e identidade. A Teoria Queer considerada como a analítica mais radical que busca a “desconstrução da ontologia geral” e que explica como a fixação das identidades em torno da conformação binária de sexo e gênero é apenas um constructo cultural, portanto possível de ser desconstruído e ressignificado para a maior libertação dos corpos e das identidades, principalmente no que trata das identidades fronteiriças e marginalizadas, que por não terem conformação binária foram colocados à margem da sociedade e obrigando com que estes indivíduos pudessem viver suas diversidades apenas em ambientes guetizados.
Ao olhar para o fenômeno da prática de Moda por outro enfoque, não apenas como uma prática industrial e de mercado, mas sob o aspecto de como ela denuncia que as construções identitárias são culturalmente estabelecidas, a Moda pode e deve ser analisada como uma
125 ferramenta em prol da libertação das identidades cambiantes, pois a Moda, em muitos aspectos, apresenta corpos desconstruídos, seja nas formas físicas ou nas conformação entre sexo e gênero.
Portanto, se a Moda consegue apresentar corpos e identidades desconstruídas em oposição ao modelo moderno de identidades fixas, ela é uma prática cultural que desestabiliza a heteronormatividade instituída, principalmente no espaço público, e desestabiliza os papéis masculinos em oposição ao feminino. E, desta forma, a aproximação destes dois campos de estudo é fundamental para uma releitura da Moda e para a compreender como um campo onde os modelos de subjetividade apresentados geralmente são aqueles silenciados, oprimidos, guetizados e marginalizados frente aos modelos normatizados.
Assim, o feminino deve ser considerado a própria conduta de contracultura e a Moda por ser esse espaço cultural que foi marginalizado por sua ligação direta com o simbolismo do feminino é, portanto, um espaço criativo radical, disruptivo e confrontador, onde os modelos binários heteronormativos são irrelevantes, pois a Moda apresenta modelos de feminilidades e masculinidades diferentes dos normativos e possibilita aos usuários uma experiência corporal alternativa, desviante e emancipatória.
Principalmente após a década de 60, com as culturas juvenis e as subculturas cada vez mais questionadoras sobre a ordem instituída, a Moda foi, cada vez mais, posicionando-se no sentido de ser uma prática de criação livre. Os criadores, a partir deste período sob influência dos vários movimentos sociais, de correntes artísticas e de movimentos contra culturais acabaram por refletir sobre estas ideias e transmiti-las em suas criações. É na confirmação do aqui proposto que Hoffmann defende:
A moda pode ser percebida sob dois aspectos: a moda instituída pela indústria (que movimenta a engrenagem capitalista) e faz com que o indivíduo usuário (pense que) tenha autonomia sobre suas escolhas; ou ainda, uma moda que experimenta os modos de vida, criando alegorias e artifícios cujos “fluxos” se definem não pela identidade, ou pelo que se usa, mas por aquilo em que pode se tornar. (Hoffmann, 2006, p. 47)
Assim a pesquisa mostra como resultado algumas questões que respondem às hipóteses de investigação. É possível responder à pergunta sobre se as proposições da Teoria Queer são capazes de fornecer um aporte teórico para repensar a Moda de forma a emancipá-la das formas heteronormativas de produção e, portanto, após as análises feitas sobre a coleção “Yasuke” é perceptível que ao se elaborar e materializar peças de Moda que tragam cargas disruptivas que desconstruam a ordem hegemônica, confirma-se que, ao aproximar estes dois campos de estudo obtém-se como resultado uma Moda emancipada e emancipatória no sentido de ser transgressora das “normatizações” impostas aos indivíduos.
Portanto, a pesquisa buscou demonstrar como a Moda é uma prática cultural antes de ser considerada uma prática industrial e comercial e, como ela também deve ser vista como uma
área do conhecimento autônoma e legítima, acima de tudo buscou-se elucidar que a Moda é uma prática criativa radical onde se transgridam os binarismos, as imposições corpóreas de conformação sexo-gênero-identidade revelando uma insubordinação inerentemente queer em sua própria configuração.
Além destas questões, a pesquisa defende que para a Moda ser uma ferramenta disruptiva, ela também deve internalizar tanto na prática quanto nos estudos acadêmicos, valores como representatividade, ativismo, sustentabilidade ambiental e humana, estética, ética, gerar lucro sem menosprezar vidas e continuar mantendo sua essência de subversão e contestação das normas sociais “normatizadoras” dos corpos e das expressões individuais.
Junto a isso, a Moda também pode ser uma poderosa força para promover novas tendências, influenciar e inspirar novos comportamentos de consumo e deveria ser adotada como uma ferramenta para a sociedade ocidental mover-se contra o sistema dominante em direção a um futuro mais libertário, igualitário e justo, sempre focando a sustentabilidade ambiental, social e simbólica.
Falar da possibilidade entre a Moda e a Teoria Queer, ou queerizar a moda, ou ainda defender que a Moda sempre foi uma “coisa” queer, é também refletir sobre a própria identidade individual como sendo contingente. Simplesmente porque não há como aceitar a Teoria Queer sem aceitar o fato da sua própria mutabilidade como ser humano, sua instabilidade, sua fluidez e sua eterna possibilidade de mudança.
Para buscar respostas para as hipóteses iniciais um levantamento bibliográfico exaustivo foi necessário, porém verificou-se que a bibliografia própria das pesquisas em Moda é ainda bastante esparsa e pouco sistematizada ao se comparar com a bibliografia existente na área dos estudos da Teoria Queer, já que esta área é bem mais atual e já possui uma vasta bibliografia sistematizada.
A questão da falta de sistematização do estudo de Moda é apenas uma parte das evidências que demonstram como a Moda é uma prática marginalizada que se mantém nesta condição até aos dias atuais. Uma vez que a Moda possui um vasto aparato de divulgação como, por exemplo, as diversas fashion weeks, as inúmeras revistas especializadas e uma infinidade de sites e blogs, há uma falsa percepção pelo público em geral de que a Moda é uma prática valorizada, porém este tipo de divulgação acaba por repercutir os discursos que menosprezam a sua importância cultural, social e simbólica já que continuam mantendo-a em espaços restritos.
Para confirmar como a Moda pode ser articulada com os conceitos da Teoria Queer, a pesquisa se utilizou da análise crítica da narrativa do desfile da marca Laboratório Fantasma que apresentou no dia 24 de outubro de 2016 a coleção “Yasuke” na 42ª edição do São Paulo Fashion
127 que são os irmãos Emicida e Fióti, porém eles tiveram a direção criativa de um importante estilista brasileiro, João Pimenta.
Na análise feita constatou-se que é possível pensar e materializar uma coleção de Moda que rompa com as barreiras da heteronormatividade, pois a coleção “Yasuke” traz um grande apanhado de quebras de paradigmas como por exemplo, ser uma coleção de caráter unissex, com uma temática onde se mesclam culturas através do arquétipo do “Yasuke” que foi o único samurai negro que existiu, então a coleção gira em torno de elementos gráficos que fundem a cultura japonesa com culturas africanas. O casting do desfile apresentou uma maioria negra sem estereotipação nem sexualização dos modelos, também trouxeram para a passarela modelos com sobrepeso e toda esta inovação ainda foi levada ao extremo quando desfilada sob os versos da música “Bendito, Louvado seja” em que há muita dor na composição, falando sobre pobreza, discriminação, desvalorização do indivíduo considerado subalterno.
Embora a pesquisa tenha sido bastante exaustiva, está longe de ser completa. Por esta razão, sugere-se para pesquisas futuras que se elabore um maior levantamento bibliográfico sobre os diversos ramos que teorizaram sobre a o fenômeno da Moda e que se trabalhe em uma sistematização dessa bibliografia com o objetivo de verificar com maior profundidade as argumentações que foram utilizadas para explicar a existência da Moda e também para compreender como ocorreu sua marginalização frente às demais práticas culturais, inclusive sugere-se buscar a compreenção dos motivos reais e discursivos que contribuíram para a não aceitação da Moda como área do conhecimento autônoma.
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