capitalismo. A participação de cada um se limita exclusivamente a executar funções pré- determinas. No funcionamento capitalista, não é dado o aval para que os funcionários se coloquem, tragam idéias, subestimando-se toda capacidade dos trabalhadores, que são levados a fingir que não estão vendo coisas que não estão funcionando, a abdicar-se de propor soluções. A ética é desestimulada.
5.9 DISCUSSÃO
Tomando as entrevistas como um todo e buscando uma distinção qualitativa das falas quando tratam dos diferentes modos de produção (cooperativa e capitalismo), podemos afirmar que há uma diferença substancial no modo de produzir das cooperativas quando comparadas ao trabalho convencional, o que altera seu modo de produzir subjetividades. As diferenças encontradas nas entrevistadas são claras, indicando uma real diferença. No entanto, não podemos ser ingênuos e achar que as cooperativas garantem a produção de subjetividades mais livres e criativas: só podemos falar de tendências, de potencial.
A produção de subjetividade em cooperativas pode mudar a qualidade dos agenciamentos, oferecendo ao sujeito mais espaço para engendrar sua criação. Com ensaios de potência, aludimos à idéia de que num contexto como o da cooperativa, os trabalhadores têm a oportunidade de se experimentar, reunir suas capacidades, livres para decidir em grupo como empregá-las e desenvolvê-las. Livre de parte das restrições que o capitalismo impõe como formas produtivas, uma cooperativa pode fazer com que as pessoas ingressem numa produção para além do automatismo, que implique em uma dimensão criativa na qual sejam responsáveis.
Sob outra atmosfera, é possível fazer com que circulem outros fluxos, outras intensidades, sensações e sentimentos. Com as constantes trocas, pode-se dar espessura aos vínculos, ver através de trabalhadores, compartilhar outras dimensões. Os laços cultivados, por se tratar de um grupo autônomo que terá que decidir sobre suas escolhas econômicas, políticas e filosóficas, são laços menos frágeis que os produzidos pelo capitalismo e permitem dar luz a algo mais nobre que o puro interesse econômico.
Se quisermos contrapor as subjetividades produzidas nos diferentes modos de produção, o que temos? Em linhas gerais, podemos dizer que a subjetividade produzida nas cooperativas é convocada a se posicionar e a falar, o que é fruto de outra posição subjetiva, não desvalorizada. A cooperativa dispõe de canais de comunicação que podem configurar uma abertura para o outro; a subjetividade é implicada a pensar-se coletivamente, numa práxis democrática.
Paradoxalmente, não é necessário dizer de uma autonomia que se constrói à medida que se retoma a capacidade de decidir por si próprio. A atmosfera que o ambiente de trabalho proporciona é capaz de permitir mais trocas. Os trabalhadores se permitem mais, quando livres das tensões hierárquicas. À medida que se permitem, podem experimentar, ensaiar. Se quiséssemos fazer corresponder uma imagem à produção subjetiva do cooperativismo, sua imagem seria a do errante.
Do que se pôde reter neste trabalho, o capitalismo produz subjetividades com traços de isolamento, conformidade e submissão; uma subjetividade que é levada a ocupar papéis delimitados e cumprir com funções específicas, o que é fundamental para gerar a falta de iniciativa e de implicação. Nesse sentido, concordamos com Nardi (2006) quando diz que percebe nos trabalhadores da década de noventa uma “modelagem na subjetividade no sentido de torná-la dependente de sua no incremento da produtividade e do lucro das empresas” (p. 192, grifo meu). Suas ações são determinadas por uma verticalidade externa concreta: a hierarquia, o patrão no topo. O acúmulo de tarefas e a ausência de espaços reais de troca e de decisão que contribuem para uma subjetividade que realiza poucas trocas, em que predominam características passivas e reativas. Sua imagem correspondente é a do funcionário indiferente.
Mas se quisermos pensar a diferença da cooperativa, talvez seja interessante não apenas a comparação entre mecanismos de produção diferentes. Utilizando a concepção bergsoniana da diferença (Deleuze, 2006), podemos pensar a diferença que se diferencia dela própria, internamente, sem comparação a outros termos. É uma noção difícil, mas que é muito útil aqui para expressar a produção de subjetividade nas cooperativas. Se tudo está se diferenciando a todo instante, é possível pensarmos na capacidade de diferenciação dos corpos, dos elementos, das instituições etc. Nas cooperativas, o que temos é uma grande capacidade de diferenciação, um movimento constante, uma potência de trocas e transformações que impactam concretamente em pessoas que foram, no seu início, postas a não falar. Para um grupo que tem de produzir a si próprio, não resta alternativa senão a experimentação: os ensaios de potência se tornam uma necessidade.
Essas características não devem ser tratadas como algo que necessariamente se vai encontrar na subjetividade dos cooperados. As cooperativas não produzem esse tipo
de subjetividade. A priori, cada uma terá seu modo singular de realizar agenciamentos. As cooperativas não dispõem de autogestão completa, perfeita e acabada; eles, os cooperados, têm de criá-la, conquistá-la: esse é o maior exercício em uma cooperativa. As características de abertura, coletividade e autonomia não são, de forma alguma, garantidas. O que podemos ter nas cooperativas é um potencial para isso, como forças que podem atuar nessa direção.
Assim, além de ensaios de potência, o que encontramos nas cooperativas é a potência dos ensaios.
6. CONCLUSÃO
Podemos dizer que a subjetividade produzida em cooperativas pode ter outro perfil, não mais submisso e passivo. As formas de organização e funcionamento das cooperativas tendem a produzir subjetividades implicadas em um coletivo, que são convocadas a se colocar. Independentes de uma lei superior (patrão), os trabalhadores podem desenvolver autonomamente as condições para seu trabalho. Talvez a maior riqueza do trabalho em cooperativas, de modo geral e amplo, seja a luta pela conquista da autogestão, pois é nesse processo que tudo se dá. É aí que nasce a oportunidade do trabalho adquirir outros sentidos, além de simplesmente cumprir funções prescritas.
É necessário enfatizar que este trabalho não teve nenhuma intenção de fazer, a qualquer custo, um movimento pró-cooperativismo. Em vez de sairmos por aí criando cooperativas por toda parte, é necessário preparar terrenos para isso, pensar em atuações que possam dar condições para que as diferenças identificadas aqui sejam produzidas. Há uma construção necessária, uma transformação de paradigmas que se faz aos poucos e constantemente. A intenção deste trabalho, para além de seus objetivos, é pensar a questão do trabalho nos dias de hoje. Talvez não seja necessário uma cooperativa colocar em prática muito do que se discutiu aqui. Nada também garante
que os agenciamentos em cooperativas sejam de melhor qualidade. A questão é quais modos de trabalho somos capazes de realizar e o que isso faz conosco.
Os diferenciais presentes na cooperativa podem trazer à tona a idéia de trabalho como condição ontológica do Homem. No entanto, pensando a produção de subjetividade como ensaios de potência, acreditamos que se pode ir além, inserindo-a nas esferas ética, política, econômica e social. Uma cooperativa é uma intervenção que fatalmente atravessa todas essas dimensões. O mais difícil, entretanto, é produzir as condições para que elas permaneçam. A falta de investimentos (não apenas econômicos) nessa área, somada aos inúmeros boicotes de capitalistas, fazem com que o cooperativismo ainda dê passos pequenos, apesar de ter se desenvolvido bastante na última década.
Se pensarmos nas características que qualificam o investimento libidinal inconsciente que atravessa todo o campo social, podemos dizer que há, predominantemente, investimentos reacionários de dominação e lucro. Desse modo, reencontramos o objetivo da esquizoanálise: analisar a natureza dos investimentos libidinais no econômico e no político (Deleuze, 2004). Assim, os investimentos libidinais de dominação (político) e de lucro (econômico), são as maiores forças que atuam para concretizar as relações de trabalho que discutimos aqui. Se, reconhecemos que tais relações só puderam se produzir em nossa sociedade, temos igualmente de reconhecer como nós somos atravessados por essas forças, como que nossa subjetividade também está sendo produzida por diversos processos e tecnologias, desenvolvendo em nós as linhas mais duras da subjetividade, fruto de uma política fascista e de uma economia lucro-paranóica.
Se quisermos fazer frente à miséria da vida cotidiana, é necessário enfrentar aquilo que a reduz no campo de trabalho. Vemos que outras possibilidades de trabalho já são praticadas e que conformam modos de existência menos aprisionados do que de costume.
Se quisermos avançar nessa direção, a ênfase de nossos esforços deve se dirigir a inventar e viabilizar novos modos de trabalho, inseridos ou não no capitalismo, que possam se caracterizar como fugas à política de subjetivação capitalista.