• No results found

Case C: Prognostics

8.1 Case A: Anomaly Detection

O conceito de gênero, tal qual formulado pelas feministas ainda na década de 1970, é de grande relevância para o entendimento das questões aqui levantadas. Afinal, se homens e mulheres se comportam de maneiras diferentes e se são (auto) reconhecidos por essas diferenças, o que exatamente as causou e as reproduz? São diferenças de origem biológica ou são construções sociais? É nesse contexto que a idéia de gênero surge, como “desnaturalizador” daquilo que, na verdade, é socialmente construído.

A inserção diferenciada de homens e mulheres na sociedade e, em particular, na política tem como base diferentes papéis atribuídos a cada um desses grupos. Na realidade, a conseqüência dessa separação de papéis e funções é que, por estar no espaço público, a política, tradicionalmente, passa a ser de responsabilidade dos homens. O espaço da casa – privado – constitui-se, então, em espaço feminino, de responsabilidade da mulher e considerado menos importante que o espaço masculino do trabalho e dos negócios. Além de funções bem estabelecidas para cada um dos sexos, há também a construção social que aponta para o que é ser mulher e o que é ser homem. Desse modo, características tais como sensibilidade, solidariedade, conciliação são vistas como típicas de mulheres, enquanto agressividade e objetividade se referem ao mundo masculino.

As desigualdades visíveis entre homens e mulheres no que concerne às funções que desempenham (ou deveriam desempenhar), aos lugares que ocupam (ou deveriam ocupar) e às características que apresentam (ou deveriam apresentar) resultam, no entanto, de diferenças muito mais amplas do que apenas diferenças sexuais (biológicas). De fato,

150 Nesse caso, como aponta Saffioti, é importante reconhecer que o conceito de patriarcado tal como usado pelas feministas raramente tinha alguma relação com o conceito weberiano. “Rigorosamente, muitas delas nem conheciam Weber, exceto de segunda mão, sendo sua intenção bastante política, ou seja, a de denunciar a dominação masculina e analisar as relações homem-mulher delas resultantes”. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004, p. 95. No entanto, algumas características do conceito de patriarcalismo de Weber podem ser bem entendidas no âmbito da dominação masculina, como o de tradição, que aponta para relações que se fundamentam na crença naquilo que foi assim desde sempre.

67

pode-se afirmar serem elas o resultado de diferenciações de gênero, a refletir construções culturais que atribuem, a determinados grupos, características (des) favoráveis que não encontram respaldo no campo biológico, mas que acabam por legitimar as relações de poder. Desse modo, as relações sociais estabelecidas em todas as esferas da sociedade tendem a ser “gendradas”, 151 ou seja, marcadas por especificidades de gênero. Como aponta Scott, “[...] o termo gênero torna-se uma forma de indicar construções culturais – a criação inteiramente social de idéias sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres”. 152 A utilização de gênero enfatiza a existência de um sistema de relações sociais que pode incluí-lo, mas que não é diretamente determinado por sexo nem determina diretamente a sua sexualidade. Assim, gênero pode ser visto como categoria social aplicada sobre um corpo sexuado.

O termo gênero teve seu uso inicialmente difundido por feministas americanas para enfatizar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo, ou seja, havia a rejeição ao determinismo biológico embutido em termos como sexo e diferença sexual. 153 É, portanto, um conceito eminentemente político, nascido no movimento de mulheres em sua luta contra as desigualdades, para demonstrar à sociedade e à comunidade científica que as diferenças físicas entre elas e os homens não geram a desigualdade verificada, mas, ao contrário, são usadas para naturalizá-las. Para Izquierdo, “la separación analítica entre sexo y gênero se realiza después de que las mujeres han demonstrado prácticamente que ser hembra de la espécie nos es una dificuldad para ser ingeniera, o conductora de autobús, o para ser autónoma economicamente”,154 bem como não deveria ser dificuldade para que conseguissem ser alçadas à esfera política e dela participar em condições de igualdade com seus colegas do sexo masculino.

Se este sistema de relações é socialmente construído, há a possibilidade, portanto, de que seja desconstruído. Como bem aponta Suaréz apud Bandeira,155

[...] a palavra gênero vem sendo utilizada com o propósito de desconstruir a ligação entre

151 MOREIRA NETO, Mariana. A categoria “gênero”: considerações acerca de suas variações e validade. Política & Trabalho, n. 16, setembro 2000, p. 137.

152 SCOTT, J. , 1995, p. 76. 153 Ibid., p. 76.

154 IZQUIERDO, María Jesús. El malestar en la desigualdad: feminismos. Madrid: Ed. Cátedra, 1998, p. 18. 155 BANDEIRA, Lourdes. Gênero, racismo e violência. Disponível em:

<http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2004/vnac/tetxt3.htm>, 2004, p. 9. Acesso em: 20 de setembro de 2006.

68

mulher e natureza e que pode viabilizar simbolicamente a eqüidade entre homens e mulheres. O uso reiterado da categoria pode possibilitar a explicação da forma como a cultura constrói o masculino e o feminino, abrindo margem para uma desconstrução que é geradora de rupturas e transformações.

A palavra gênero aparece, então, para introduzir uma noção relacional, isto é, a idéia de que homens e mulheres são definidos em termos recíprocos, não se podendo entender um dos sexos sem levar em consideração o outro. Nesse sentido, qualquer informação sobre as mulheres é necessariamente uma informação sobre os homens.

De maneira resumida, portanto, podem-se identificar dois aspectos centrais à definição de gênero. Um aspecto remete à idéia de que o biológico não é capaz de explicar os diferentes comportamentos de homens e mulheres, que são, produtos sociais, aprendidos, internalizados e reproduzidos. O outro aspecto refere-se à noção de um poder que é desigualmente distribuído entre os sexos. Se esse poder coloca as mulheres em posição de subalternidade, o conceito de gênero aproxima-se ao de patriarcado, pois acaba- se por constituir um sistema de dominação das mulheres pelos homens. Não se deve, porém, proceder à redutora substituição de um conceito pelo outro, pois, se gênero remete à relação entre os sexos que não determina previamente o pólo dominante, no patriarcado o pólo dominante é, por definição, o homem. "O patriarcado é um caso específico das relações de gênero".156

A idéia de gênero tal como concebida pelo movimento feminista tem sido alvo de inúmeras críticas. Algumas se referem ao seu uso indiscriminado, pois muitas vezes é utilizada como sinônimo de sexo, ou mesmo de mulher. Nesses casos o problema não é apenas terminológico, mas basicamente conceitual, pois há uma despolitização do conceito, que obscurece os conflitos e as relações que se estabelecem entre homens e mulheres sob a lógica da construção social e do poder desigualmente distribuído. “Al usar

género como sinónimo de sexo, se le niega al género un lugar específico en los marcos teóricos que estudian la desigualdad social de las mujeres, disociando lo que son, del lugar que ocupan o la identidad que constituyen sobre lo que son”.157 Segundo

156 SAFFIOTI, 2004, p. 119. 157 IZQUIERDO, 1998, p. 19.

69

Heilborn,158 a adoção do conceito de gênero, em substituição aos termos mulher e feminino, foi utilizada por favorecer a aceitação acadêmica dessa área de pesquisa, uma vez que despolitizou uma problemática que, tendo se originado no feminismo, mobilizava preconceitos. Utilizada nesse sentido, a idéia de gênero não implica tomada de decisão em relação às questões de desigualdade e poder.

A suposta neutralidade da categoria gênero é motivo de outra leva de críticas. Com o intuito de vencê-la, teóricas francesas, como Anne Marie-Devreux,159 desenvolvem uma teoria que recebe o nome de "relações sociais do sexo". Para essa corrente, a idéia de gênero permitiu às pesquisadoras serem vistas como menos agressivas por suas instituições e por seus colegas homens. Isso porque é uma categoria que evoca a idéia do problema social sofrido pelas mulheres, da desigualdade social construída, mas da qual os homens não seriam atores, o que geraria menos conflito. Já a utilização de "relações sociais de sexo" nomeia explicitamente o confronto, pois não pode haver relação com apenas uma categoria.

Por fim, as adeptas da corrente pós-moderna, exemplificada por Judith Butler, 160 propõem a desconstrução do conceito de gênero, não com o intuito de destruí-lo, mas de libertá-lo dos significados que carrega, há muito sedimentados pelo hábito de sua transmissão. Nesse sentido, a primeira crítica é feita em relação ao sujeito universal que o feminismo e a categoria gênero querem representar. Argumenta-se não haver uma experiência comum “das mulheres”, generalizável a partir da vivência de gênero e coletivamente compartilhada através das culturas e da história. Há, ainda, a crítica aos dualismos adotados na teoria de gênero, como: sexo X gênero, natureza X cultura. 161 Para Butler, nesse caso, também se cai no determinismo, pois, se se parte da idéia de que o sexo é natural e o gênero é construído, então a cultura se torna o destino. “Talvez o sexo tenha

158 HEILBORN, M. L.; SORJ, B. Estudos de gênero no Brasil. In: MICELI, Sergio (Org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). São Paulo: Editora Sumaré: ANPOCS; Brasília: CAPES, v. 2, pp. 183- 221, 1999.

159 DEVREUX, Anne-Marie. A teoria das relações sociais de sexo: um quadro de análise sobre a dominação masculina. Paris, 2005 (mimeo).

160 BUTLER, Judith. Variações sobre sexo e gênero: Beauvoir, Witting e Foucault. In: BENHABIB, Seyla e CORNELL, Drucilla. Feminismo como crítica da modernidade. Rio de janeiro: Rosa dos Tempos, 1987. BUTTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

161 Guacira Louro argumenta que é necessário desconstruir o caráter de oposição masculino-feminino ainda vigente em nossa sociedade. Isso porque, para ela, essa oposição faz surgir outras dicotomias dela derivadas, como as de produção-reprodução, público-privado, razão-sentimento, que tornam possível naturalizar e tornar fixo um lugar para cada gênero. A idéia de desconstrução trabalha com essa lógica na medida em que mostra que a oposição é construída e não fixa. LOURO, Guacira. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis, Vozes, 1997.

70

sempre sido o gênero, de tal forma que a distinção entre sexo e gênero torna-se absolutamente nenhuma” 162. O sexo deixa de ser considerado natural, para ser, também, cultural, o que remete a outras críticas que dizem respeito à falta da problematização no conceito de gênero da sua relação com o desejo.

Sem ignorar as importantes críticas feitas ao conceito, este trabalho adota a definição original de gênero. Se não há uma identidade única que agregue todas as mulheres sob um mesmo denominador, como se propõe a categoria gênero, é importante relembrar ser este um conceito político que, como tal, constrói um sujeito político coletivo – "as mulheres" – que irá buscar estratégias para superar a subordinação e entender suas origens. Como defendia o movimento feminista, “O reconhecimento político das mulheres como coletividade ancora-se na idéia de que o que une as mulheres ultrapassa, em muito, as diferenças entre elas. Dessa maneira, a identidade entre as mulheres torna-se primária”.163 Na mesma linha, Sorj diz que:

Sem pretender prescrever o futuro da teoria e prática feminista, poderíamos concluir que aquelas que permanecem, basicamente, no campo da modernidade poderão encontrar no discurso pós-moderno um poderoso antídoto para as tendências totalizadoras, e até mesmo intolerantes, presentes em seu discurso. Por outro lado, as feministas pós-modernas não podem desconhecer que a modernidade, como um campo unificado do social, continua presente demandando um esforço de identificação de denominadores comuns, mais além das afirmações particulares. 164

Ademais, a relação que se estabelece entre gênero e poder pela definição de Scott é também aplicável a este estudo. Diz ela: “O núcleo da definição [de gênero] repousa numa conexão integral entre duas proposições: (1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder”. 165 Logo, não se pode tratar gênero e poder de formas dissociadas; para se analisar um, deve-se levar em conta o outro. Tendo em vista os propósitos deste estudo, é essencial reter essa segunda parte da definição sem,

162 BUTLER, 2003, p.25.

163 PISCITELLI, Adriana. Reflexões em torno do gênero e feminismo. In: COSTA, Claudia; SCHMIDT, Simone. Poéticas e políticas feministas. Santa Catarina: Ed. Mulheres, 2004, p. 46.

164SORJ, Bila. O feminismo na encruzilhada da modernidade e pós-modernidade. In: COSTA, Albertina de Oliveira; BRUSCHINI, Cristina. Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1992.

71

no entanto, esquecer que a política é apenas mais um dos campos em que se pode trabalhar a partir do gênero, mas, certamente, não é o único.