As primeiras UFs que constituíram objeto de análise (mesmo antes de serem classiicadas como tal) foram as parê- mias (provérbios, refrães, ditos, sentenças, aforismos, welleris-
mos, dialogismos etc.)9.
9 Para uma classiicação minuciosa das parêmias ver Leite de Vasconcelos (s.d.); Carrusca(s.d.) e Pires de Lima (1963).
Podemos dizer que as parêmias estariam entre as pri- meiras unidades fraseológicas que suscitaram interes- se, pois há testemunhos muito antigos delas, inicial- mente de maneira dispersa e posteriormente, dentro de coleções (GONZALEZ REY, 2002)10. Paczolay11 cita
exemplos do antigo Egito e da Mesopotânia (1997, p. 12), além de fontes literárias que incluíam grande nú- mero de parêmias, como os livros clássicos chineses e sânscritos (1998, p. 263). No ocidente, a Bíblia é a fon- te paremiológica por excelência: nos livros atribuídos ao rei Salomão, Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos abundam as máximas que izeram história (ver CANTERA, 1993); e do Novo Testamento proce- dem muitos dos provérbios ocidentais mais difundidos (ver FUNK12: 1998a; 1998b; SCHULZE-BUSACKER13,
1997) (IÑESTA & PAMIES, 2002, p. 8).
Dada a heterogeneidade de suas características, as parê- mias têm sido objeto de estudo das mais diversas disciplinas (antropologia, semiologia, etnologia, folclore...), tendo sido consideradas por Pires de Lima (1963) como um dos capítulos mais importantes da etnograia.
Embora haja estudiosos que se ocupem exclusivamente das parêmias, há fraseólogos que a elas se dedicam, como par- te das unidades lexicais de que se deve ocupar a Fraseologia. 10 GONZALEZ-REY. La prhaséologie du français.Toulouse: Presses Universitaires du Mirail, 2002.
11 PACZOLAY, Gyula. Some notes on the theory of proverbs. In: P. Durčo (Ed). Phraseology and paremiology, 1998.
12 FUNK, Gabriela. (a) A constrastive analysis of the textual and social function of proverbs in german and portuguese. In: P. Durčo (Ed.). Phraseology and paremiology (p. 262-266), 1998. (b) A Bíblia como indicador da importância do provérbio no âmbito de culturas diferentes. Paremia, v. 7, p. 97-106.
13 SCHULZE-BUSACKER, Elisabeth. La place du proverbe dans la mentalité
Consideramos as parêmias como parte da Fraseologia de uma língua dada, ainda que possa ser tratada à parte, o que nos permite falar em Fraseoparemiologia.
Em relação às pesquisas paremiológicas contemporâ- neas, podemos citar pelo menos três importantes publicações
sistemáticas: Proverbium14; De Provérbio15 e Parêmia16.
Uma das principais características dos provérbios é transmissão de uma lição, ensinamento ou conselho de forma independente, impessoal e atemporal, sem o com- prometimento direto do enunciador.
Vejamos um exemplo, diante de uma situação em que um enunciador a julga que b está sendo precipitado e que sua precipitação poderá prejudicar a conquista dos objetivos de b, se ao invés de alertar b, explicitando sua opinião a disser, quem tem pressa come cru, estará transferindo a responsablibidade da enunciação para a memória coletiva da comunidade lin- guística partilhada por a e b.
Ao utilizar um provérbio, o enunciador não se compromete, nem se responsabiliza pelo conteúdo proposicional veiculado, uma vez que não é o autor do enunciado. Além disso, cabe ao interlo- cutor aceitar ou não a proposição como uma crítica a sua conduta. A atemporalidade dos provérbios é garantida pela possibi- lidade de atualização/adaptação de seu conteúdo semântico, sem carecer do conhecimento de suas condições iniciais de produção (origem, motivação, interlocutores, referentes, contexto...). 14 Revista Proverbium (University of Vermont, Burlington, Estados Unidos), dirigida por Wolfgan Mieder.
15 Revista De provérbio (University of Tasmânia, Austrália), dirigida por Teodir Flonta.
16 Revista Parêmia (Universidad Complutense de Madrid), dirigida por
Desta forma, em mais vale um pássaro na mão do que dois voando, o sentido será construído levando em conta o co- nhecimento partilhado entre os interlocutores, que por sua vez deverão adaptar o plano do conteúdo à enunciação. Tal plasti- cidade, decorre principalmente do reconhecimento implícito de que os provérbios são transmissores de conhecimentos uni- versais, herdados da experiência de nossos ancestrais.
Se deinir uma UF, para incluí-la ou não, já é tarefa di- fícil, a deinição de provérbios não escapa de tal diiculdade.
A definição e delimitação das parêmias têm sido ob- jeto de estudo de inúmeros pesquisadores, podemos citar, destacando apenas alguns: Sevilla, Chacotto, Diaz Ferrero, Funk, Anscombre, Mieder, Mejri, Tamba, Zouogbo, Klei- ber e Conenna.
Embora provérbio seja o protótipo da categoria, diversas sentenças são incluídas como objeto de estudo, tais como: adá- gio, refrão, dito, ditado, frase feita, máxima, citação, sentença, aforismo, wellerismo, dialogismo...
Optamos pela expressão sentença proverbial, que consi- deramos como um hiperônimo, sinônimo de parêmia, como um conceito guarda-chuva, passível de abrigar todos os mem- bros da categoria, sem estabelecer uma gradação. O que signi- ica dizer que para o estudo que pretendemos empreender, não haverá membro prototípico, nem periféricos, ou seja, todos os membros da categoria serão 100% membros.
Embora haja divergência nos estudos que contemplam as parêmias de uma forma geral, notadamente em relação ao seu caráter didático, ou ainda acerca do sentido metafórico, preten- demos destacar-lhes as congruências. Portanto, consideramos sentença proverbial as expressões linguísticas que são:
• gramatical e textualmente independentes, do ponto de vista da enunciação, constituindo uma frase e até mesmo um texto – Tal pai, tal ilho. / Pai fazendeiro, ilho doutor, neto pescador.
• relativamente ixas do ponto de vista morfossintático, nas quais as lexões e alterações sejam bloqueadas, ou pelo menos restritas – Quem tem boca vai a Roma. / Em casa de ferreiro, espeto de pau.
• propícias à memorização, do ponto de vista fônico, por meio de recursos sonoros característicos: alitera- ções, assonância, rima, eco... – Quem conta um conto aumenta um ponto. / Beleza não se põe na mesa. • testemunhas da herança cultural, do ponto de vista
didático e pragmático, com as quais se possa acon- selhar, avaliar, julgar... – Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. / Quem fala a verdade não merece castigo. / Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Consideramos as sentenças proverbiais como peças propícias a uma série de reflexões de cunho social, etnoló- gico, cultural e linguístico, que pretendemos levar a cabo no capítulo cinco, com a apresentação de propostas didá- ticas nas quais será conferido um tratamento específico a sequências, tais como:
Caiu na rede é peixe.
Deus dá o frio conforme o cobertor.
Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas. Cana na fazenda dá pinga, pinga na fazenda dá cana. Praga de urubu não pega em beija-lor.