A Educação Infantil e o Ensino Fundamental I se configuram em „salas multisseriadas com língua de instrução Libras‟. O professor regente é bilíngue, ou seja, proficiente no uso da Libras e da Língua Portuguesa. São realizadas discussões frequentes com a coordenadora e demais professores/profissionais envolvidos no Programa sobre estratégias pedagógicas mais adequadas aos alunos surdos e os conteúdos a serem ministrados. O funcionamento dessas salas será melhor detalhado mais à frente neste capítulo.
No Ensino Fundamental II e na Educação de Jovens e Adultos (EJA), os alunos surdos frequentam as „salas bilíngues‟, isto é, são inseridos em salas de aula com os alunos ouvintes, as aulas são ministradas pelo professor regente e a inclusão é mediada por um intérprete de Libras.
Pode-se dizer que a inserção dos alunos surdos no Ensino Fundamental II é um desafio para os gestores da escola-polo e para a assessoria do Programa. Essa etapa da educação, por si só, conta com especificidades que exigem trabalho cauteloso por parte de todos os envolvidos: os jovens passam por muitas mudanças nessa fase - com relação à própria escolarização (já que diferentes professores passam a ministrar as inúmeras disciplinas), ao desenvolvimento físico e emocional. Já a escola, deve aceitar e se empenhar para uma série de mudanças, de forma a se tornar bilíngue: uma experiência nova que demanda envolvimento de toda a equipe escolar. Além desse fato, os alunos surdos, dessa etapa da educação, muitas vezes, vieram de experiências escolares anteriores pouco satisfatórias, com domínio restrito da Libras e a partir de propostas que visavam mais a uma inclusão social (assistencialista) que o aprendizado efetivo, visto que até então o município não oferecia propostas de inclusão como esta (SANTOS, 2014).
Os professores desta etapa, por sua vez, devem lidar com a presença de inúmeros surdos em sala de aula e adequar suas aulas para atendê-los de forma satisfatória, com pouco ou nenhum conhecimento de Libras e das necessidades de seus alunos surdos. Soma-se a isso a presença dos intérpretes, que devem estabelecer parceria com professores e alunos, além de buscar sempre a melhoria em seu desempenho para poder acompanhar o desenvolvimento dos alunos durante as aulas. Para tal, é necessário criar um espaço de interlocução entre os profissionais – professores e intérpretes - a fim de discutir as necessidades formativas dos alunos bem como instaurar práticas dialógicas entre os profissionais, visando à adequação do trabalho pedagógico (SANTOS, 2014).
Considerando a especificidade do ensino de português para surdos, conforme prevê a legislação (BRASIL, 2005), são ministradas aulas de Língua Portuguesa como segunda língua para estes alunos do Ensino Fundamental II e Educação de Jovens e Adultos, separadamente dos alunos ouvintes. Essas aulas são conduzidas por professor bilíngue e preparadas de acordo com as necessidades do grupo, sempre assumindo a Libras como língua de instrução. Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I o português é ministrado pelo próprio professor regente, que é bilíngue.
Atividades de Educação Física, Artes, passeios, entre outras, são desenvolvidas com a participação conjunta de alunos surdos e ouvintes, constituindo-se em espaços privilegiados para a inclusão e convivência com a diversidade. Para essas atividades faz-se necessária a presença do intérprete de Libras para mediar as relações entre surdos e ouvintes.
Aos alunos surdos, em todas as etapas, é oferecida a oportunidade de aprendizagem da língua de sinais durante todo o período escolar, considerando-se que boa parte das crianças e adolescentes surdos não tem acesso precoce a esta, e que a maioria deles, conforme cita Moura (2000), é constituída de filhos de pais ouvintes.
Todos os alunos surdos possuem acesso às propostas e conteúdos desenvolvidos pelos professores das diferentes áreas de conhecimento, de acordo com as diretrizes e parâmetros curriculares para cada ano (BRASIL, 1998a, 1998b).
Além do ensino da Libras, língua através da qual os surdos têm acesso a todas as informações presentes no espaço escolar, nesse espaço podem-se abordar questões relacionadas à identidade e aspectos culturais, já que há na escola uma instrutora surda adulta, representante dessa comunidade, que atua como um modelo para os alunos.
São oferecidas oficinas de Libras para as crianças ouvintes e comunidade, ministradas pelo instrutor bilíngue (surdo ou ouvinte), já que a vocação Inclusiva Bilíngue da escola requer que tanto o português como a Libras circulem no espaço escolar. Também são oferecidas oficinas de Libras para os familiares dos alunos surdos, visando à circulação da língua em todos os espaços e permitindo a comunicação com iguais e diferentes.
Além dessas atividades pensadas e desenvolvidas para os alunos surdos, todos os profissionais da escola (diretor, coordenador pedagógico, professores, monitores, merendeiras dentre outros) participam de oficinas de Libras, propiciando, assim, que esses profissionais compreendam as especificidades desta língua e possam se relacionar diretamente com os alunos surdos nas situações do cotidiano escolar sem depender da presença dos intérpretes.
Santos (2014) destaca que, diferentemente de muitas experiências de inclusão em que se observa a presença de um único aluno surdo por classe ou escola, a proposta deste Programa é criar um ambiente com igualdade de condições e oportunidades a esse aluno, oferecendo experiências de semelhança e diferença, com a presença de mais de um surdo por classe.
Possibilitar trocas linguísticas é determinante na construção de um real espaço bilíngue. A proposta deste Programa vai ao encontro da visão de Lebedeff (2006), quando ele afirma que “se não ter uma língua compartilhada com o professor já é difícil, não compartilhar a mesma língua com trinta colegas provoca uma sensação de permanente alijamento” (p. 51).
Com parte do financiamento que o Programa Inclusivo Bilíngue recebe da FAPESP, está sendo montado o Laboratório de Recursos Imagéticos, que potencializará as possibilidades de os professores criarem materiais adequados para a metodologia de que os alunos surdos precisam, além de os próprios alunos também poderem desfrutar desses recursos.