3.2 Colorectal cancer in inflammatory bowel disease
3.2.1 Carcinogenesis of CRC in IBD
Na sitcom, Senhorita Morello é interpretada pela atriz Jacqueline Mazarella. Ela é responsável por boa parte dos discursos que dissemina estereótipos contra o protagonista. A professora Morello sente compaixão por Chris por achar que ele não tem condições economicas para se manter, achar que em função disso, Chris tem muitos irmãos, que sua família passa necessidades, que sua mãe usa drogas e não conhece os vários pais de Chris e dos irmãos, etc. A parte isso, ela também aparenta ser uma verdadeira aficcionada por estereótipos sobre negros (muitas vezes, referentes ao próprio Chris).
Vejamos algumas sequências discursivas em que a professora Morello dissemina suas opiniões sobre o aluno negro:
SD49 SD
:“Chris, você pode ser negro, mas não é à prova de fogo” 50: “Chris, de que tribo você veio?”
Figura 57 - Senhorita Morello e o protagonista Chris
103 DS51
SD
“Infelizmente acho que o Chris é um filho da droga, a mãe dele tem alucinações. O
cérebro foi afetado por anos de uso de drogas e excesso de vinho barato. Ela está mesmo convencida de que tem um marido que trabalha em dois empregos, e de que eles tem uma casa no gueto! Não acredite em nada do que ela disser!”
52
SD53“Chris fiquei sabendo que você tem pai, Legal” SD
“Chris, eu estou muito decepcionada com você! Eu sei que nicotina, torresmo e bebidas
fortes são vícios dos negros! Mas por que infectar o Greg?”
54 SD
“Chris. Vocês negros têm uma capacidade incrível de dissimular. Vai ser ótimo ter um
negro representante na peça!”
55 SD
“Malvo, com educação apropriada você poderia fazer tantas coisas! Você poderia ser
lixeiro, motorista do carro do lixo, recolher o lixo do carro do lixo, uma lista infinita.”
56 SD
“O povo do Chris tem o costume de acordar com o canto do galo para ir trabalhar no campo”.
57 SD
“Não é educado o senhor jogar sua macumba contra brancos. (para Julius)” 58
SD59 “Precisa superar sua mentalidade de favelado”. SD
“Uma favela psicológica”
60 DS
“É difícil para mim porque eu não tenho 19 ou 20 irmãos como você”
61
SD
“você vai ser pai solteiro já que você entende deste assunto com a criação que teve”... “se pelo menos sua mãe soubesse o nome (pai) dele”... “são todos iguais por dentro” (se referindo ao ovo).
62
(Quando Greg está dormindo na sala da aula a Srta Morello pergunta o que aconteceu) “É anemia fusiforme, raquitismo ou gripe suína?” (perguntando sobre os motivos da doença coma família de Chris)
SD63
SD64 Chris: - É que ele dormiu lá em casa... Srta Morello – “Ai meu deus! Ele está bêbado?!” (Chris vai para a escola com o carro do pai:)
SD65 SD
Greg – “Nossa, você veio com o carro do seu pai?! Legal!” 66
SD
Caruso – “Você veio com a banheira do seu pai? Legal.” 67 Srta Morello: - “Chris, soube que você tem um pai! Legal!” SD68“Seus amigos atletas e dançarinos”.
Segundo Pereira (2001, p. 116), há um deslocamento dos negros para a condição de coisa. As frases enunciadas pela professora mostram a exarcebação de violência aos negros, reduzindo-os à condição de um ser que vive às margens (favela, gueto), desprovido de paternidade (não sabe quem é o pai), e desassistido de programas de assistência social (fome) e médica (doenças). É o negro sendo construído pela identidade dos sistemas culturais dominantes da mídia.
Se pensarmos pela ótica cultural de Hall (2006, p. 13), a construção das identidades ocorre por um processo de identificação em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. A Senhorita Morello é interpelada pela cultura da dominação branca ao longo da história americana. Ao enunciar que
104
O povo do Chris tem o histórico de acordar com o canto do galo para ir trabalhar nos campos (SD56
Na sua obra O problema do racismo nos Estados Unidos, Josephine Pacheco mostra como chegaram e como viviam os negros que desembarcaram como escravos nos Estados Unidos por volta de 1619. A autora relata que além dos trabalhos nas colônias, eles “não podiam congregar-se em grandes números, em virtude do perigo de insurreições, nem viajar sem salvo-conduto, e estavam sujeitos aos castigos impostos pelos caprichos dos senhores” (1983, p. 38).
) ela resgata através de uma memória discursiva a história dos colonos negros que eram forçados aos trabalhos no campo bem antes do sol nascer.
Esta extensão dos debates sobre o regime escravista das colônias nos Estados da Virginia e Maryland foi ressaltada por John Hope e Alfred Moss na obra Da escravidão à
liberdade: A história do negro americano43
As sequências discursivas denunciam uma multiplicidade de aspectos sobre a negritude. Na sequência 57, a professora faz uma associação da macumba com ao personagem negro, uma vez que sua formação discursiva compreende que os africanos cultuam esse tipo de manifestação. Nas sequências 58 e 59, há uma retomada na memória do lugar social quando a família de Chris morava nos conjuntos habitacionais. Corroborando com a sequência anterior, o fato de Chris ter muitos irmãos, segundo a professora, se caracteriza pela falta de educação ou de planejamento familiar a qual as famílias que habitam os . Os autores ressaltam que, além de “não serem reconhecidos como cristãos, a mão de obra negra era precisamente daquilo que a Virginia necessitava para acelerar o desmatamento e o cultivo de safras maiores e melhores de fumo” (1989, p. 67). Assim como os senhores donos das colônias colocavam os negros nas condições de serviçais e submissos, ou seja, produto de mão de obra, a professora expõe em seus comentários sobre os negros um padrão reducionista dentro das relações entre os seres humanos. Ainda segundo Pereira (2001, p. 124), os deslocamentos nos quais coloca o negro como desprovido de qualquer assistência, não se nutre somente no aspecto biológico oriundo da noção de raça, tampouco de um modelo socioeconômico que torna “negros” todos os pobres. A discriminação é gerada por meio de formulações ideológicas, ou seja, ocorre como a construção de sentidos para aquilo que se entende como “raça” e aquilo que se entende como “pobre, portanto negro”. É através das nações de raça e do modelo socioeconômico que permite a formulação de comentários discriminatórios. Ao colocar Chris dentro do espaço gueto ou favela, a professora demarca o espaço separatista entre os alunos negros e brancos.
105 conjuntos residências desconhecem. Nas sequências 55 e 68, a posição-sujeito da professora atribui que os negros só podem se destacar como atletas ou dançarinos. Percebemos na
sitcom, constantes dizeres dentro do ambiente escolar em que o fracasso escolar ou a ausência
de estudo leva as pessoas a conseguirem trabalhos menos valorizados. Para Indursky, “trata-se ainda da retomada de saberes já-ditos em outro discurso, em outro lugar e cujo eco ressoa no discurso do sujeito” (2011, p. 69). A construção do discurso da professora revela a posição sujeito autorizada a dizer que sem uma faculdade as pessoas estão submetidas aos subempregos.
No imaginário coletivo, os lugares sociais dos negros (gueto, tribo, campo, favela) estão associados à exclusão do modelo; Profissões: lixeiro, motorista, dançarino, jogador; Vícios: nicotina, bebidas fortes, vinhos baratos; Hábitos alimentares: bacon, torresmo; Etnias: branca, negra. Sobre os negros que ocupam estes lugares e as suas condições sócio-históricas: negros discriminados.
O próximo ponto será relevante para percebermos que, assim como a disseminação da submissão ou ausência de personagens negros nas sitcoms, eles aparecem nessas produções nos e em outras produções nos Estados Unidos e no Brasil.