6. EMPIRICAL ANALYSIS
6.1 CAR over Various Horizons in the Event Window
Paula é solteira, parda, nasceu em 1969, em Belo Horizonte, e reside no bairro Cachoeirinha, região Nordeste. Seu pai é representante comercial e sua mãe é costureira e dona de um bar, ambos cursaram até a 4ª série do ensino fundamental. Paula não tem irmãos. Na época em que respondeu o questionário estava desempregada, mas logo conseguiu um trabalho como auxiliar de uma
regional da Prefeitura de Belo Horizonte por 30 horas semanais. Ela contribui para o sustento familiar.
Paula estudou numa escola estadual no turno da manhã:
Eu terminei o ensino médio, fiquei parada um ano e fiz um outro curso de complementação ao curso de magistério no Instituto de Educação. Levava uns dois anos, aí eu adquiri um novo título. Foi em 1989. De 1989 até 2003, fiquei sem estudar. Aí, desde 2003 vim tentando, em 2007 eu passei. Em 2006 tentei cursinho Pré-UFMG. Eu não exerci nada relacionado ao magistério, só o estágio obrigatório. Minha mãe abriu um comércio (um bar) e eu fiquei dez anos trabalhando com ela. Depois continuei trabalhando no comércio em outra empresa. São muitos anos totalmente fora de sala de aula, como eu falei, só fiz estágio para pegar o diploma.
Em 2006, para tentar o vestibular, Paula contou que pediu isenção de taxa de inscrição.
Paula não possui computador em casa, não sabe digitar um texto e afirma desconhecer quase completamente as habilidades relacionadas ao mesmo.
Paula contou que sua relação com a leitura até entrar para a faculdade era menos intensa:
Na verdade, a gente lida mais com papel que com computador. A leitura é um hábito. Eu lia esporadicamente, de mês em mês ou de dois em dois meses. Atualmente, eu tenho que ler muito, todo dia um pouquinho. Como eu sei que esse é todo um processo, eu estou sentindo que estou aprendendo mais. No princípio eu lia, lia, lia e não entendia nada. Mas todo mundo da sala estava assim, então eu pensei: Graças a Deus eu sou normal! Agora estou me acostumando até mesmo com a linguagem que é bem diferente da que eu estava acostumada. Eu lia romance, poema, essas bobaginhas.
Paula conta toda essa história de forma bem divertida, achando engraçadas suas próprias palavras. Há certa leveza em tudo o que relata. Ela adquiriu seu computador no final do ano de 2007:
Financiei o primeiro computador por três anos, com a esperança de conseguir pagar em menos tempo. A Fump disponibilizou até R$2000,00
para aquisição de uma máquina. Desse total, ela [Fump] paga a metade e financia o restante. No meu caso, eu escolhi uma máquina de R$ 2.000,00, então eu pago R$1.000,00 por ela, em 36 vezes de R$27,76.
4.2.4. Vânia
Vânia é casada e tem duas filhas. Ela é branca, nasceu em 1971, em Passabém (MG). Atualmente, reside no bairro Paulo VI146, região Nordeste de Belo Horizonte. Seu pai é carpinteiro e sua mãe é dona de casa, ambos cursaram até a 4ª série do ensino fundamental. É a décima filha numa família de 11 irmãos.
Estudou numa escola municipal noturna e, para fazer o vestibular, foi preciso cursar um pré-vestibular e pedir a isenção de taxa de inscrição.
Exerce a profissão de alfabetizadora numa escola em Sabará, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Trabalha cerca de 30 horas semanais e contribui para o sustento familiar.
Não possui computador em casa, não sabe digitar e afirma desconhecer quase completamente todas as habilidades relacionadas ao mesmo.
Depois de se formar no 2º grau, em 1993, Vânia logo tentou o vestibular, em 1994, em Viçosa: “Estudei sozinha, só que não passei nessa época”.
É importante deixar as próprias palavras de Vânia expressarem como o autodidatismo é uma característica marcante na personalidade da estudante e importante para analisarmos sua entrada na cultura digital:
Vim para Belo Horizonte morar com meus irmãos, eu tinha que trabalhar para me manter e não tinha condições de pagar um cursinho, muito menos
146
Apesar dos bairros Cachoeirinha e Paulo VI estarem localizados na mesma região (Nordeste), as condições que os caracterizam são bem diferentes, pois Cachoeirinha é um bairro mais próximo ao Centro, possui serviço de água e esgoto e é bastante urbanizado; já o bairro Paulo VI fica afastado do Centro, nas proximidades do Anel Rodoviário de Belo Horizonte, e ainda apresenta muitas ruas sem calçamento.
uma faculdade particular, e eu achava que a UFMG era muito distante para mim. Na verdade, eu nem pensava nesse lugar no início. Só depois que eu me casei, o meu marido já tinha feito Economia, ele já tinha um conhecimento um pouco maior que o meu nessa área. Ele começou a me incentivar muito, pois eu falei com ele que meu sonho era fazer faculdade. Então ele me incentivou e eu pude fazer cursinho, por dois anos eu tentei Letras aqui na Federal e não passei por causa do Inglês, eu não tinha conhecimento. Eu fiz um ano de cursinho na primeira vez e não passei, aí comecei a estudar em casa mesmo. Nessa época, eu não trabalhava, eu tinha uma filha, então fiquei estudando em casa, sozinha. Eu não sabia matemática, nada de matemática. Eu peguei livro de 5ª série e comecei a estudar tudo de novo, aí fui estudando, estudando, estudando até chegar na 8ª série, daí pra frente eu não dei conta porque entrou logaritmo. Essas coisas, daí não entrou na minha cabeça, eu larguei, parei de estudar. Mas eu estava sempre lendo, para não ficar parada mesmo.
Aí, eu passei no concurso da Prefeitura de Sabará, estudando em casa também, peguei a apostila e estudei sozinha porque a situação financeira nossa não dava para pagar, mesmo que meu marido tem curso superior, ele não exerce a profissão que ele formou. Ele é funcionário público do Estado, então a situação financeira nossa não permitiu que eu pagasse cursinho. Aí, eu passei nesse concurso de Sabará, só que eu faço tudo muito organizado, senão eu não dou conta. Então, depois de passar neste concurso, eu fui tirar carteira de motorista. Depois no ano seguinte fiz cursinho de novo, por um ano, e aí passei aqui na Pedagogia. Fiz Pré- UFMG no centro da cidade.
Vânia diz gostar muito de ler e de ir à biblioteca consultar livros e dicionários. E sobre seus contatos com a cultura digital, ela relata:
No meu trabalho tem computador, mas não dá tempo. Os alunos têm aula de informática, mas nós, professores, não temos como ir lá por causa da carga horária. Eu não tenho acesso em outro lugar, não. O caixa rápido de banco é tranqüilo, eu leio os comandos lá. Celular também é tranqüilo.
Esse autodidatismo é uma das características que me chamaram a atenção em Vânia, a cada entrevista essa faceta ia aparecendo fortemente nos discursos da estudante:
A gente busca um algo mais na faculdade, então é isso. Não é ficar mais
copiando para aprender. Você tem que desenvolver o raciocínio, sua mente. Eu gosto muito disso de ler e chegar na sala, debater as idéias. Vou marcando no texto o que tenho dúvida, fazendo um raciocínio dentro do texto e anotando o que o professor fala.
Vânia se demonstrava muito animada em dar entrevistas e sempre gostava de falar além do que eu perguntava. Ser sujeito de uma pesquisa era algo muito importante, segundo Vânia, pois “poderia contar essa experiência para seus netos”. Esse comentário foi feito informalmente comigo na ocasião em que eu estava observando a turma dela. Além disso, a qualquer fato diferente que ocorria em sua trajetória rumo ao aprendizado das novas tecnologias ela vinha, animada, me contar ou me enviava e-mails dizendo ter novidades que eu iria gostar. Ela foi a primeira estudante, dentre as quatro selecionadas, a adquirir seu próprio computador, no fim de julho de 2007:
Passei muito aperto do final do semestre sem computador, o trabalho de metodologia foi muito complicado, não dei conta de entregar impresso por causa da ABNT. Enviei depois do prazo, às onze e meia da noite. Tenho agora o plano Oi 60 minutos147, para mim é suficiente porque uso para e-
mail e para pesquisar. Meu vizinho tem Velox148, mas é muito caro e a NET149 ainda não chegou ao meu bairro porque tem pouca gente na rua.
4.3. Análise da entrada dos quatro sujeitos no mundo digital
Para tentar compreender como as quatro estudantes das camadas populares participam da cultura digital e que impactos essa participação exerce na vida delas, foram construídas as categorias já apresentadas no início deste capítulo.
Para a construção da análise, recorro inicialmente às teorias de Bernard Lahire e Pierre Bourdieu, autores que discutem a questão da origem social no sucesso ou fracasso dos indivíduos em suas trajetórias estudantis, profissionais ou de vida, sob pontos de vista diferentes.
147
Plano mais barato de acesso à internet disponibilizado pela companhia telefônica Oi.
148
Provedor banda larga ligado à companhia telefônica Oi.
149
Lahire afirma que parte, em suas reflexões, de uma específica teoria da ação desenvolvida por Pierre Bourdieu. Entretanto, isto não significa que a tenha incorporado integralmente. Segundo Lahire (2002), as teorias da ação estão divididas em dois pólos. Um deles é o da unicidade do ator, posição assumida por Bourdieu ao formular sua teoria do habitus, que compreende de maneira unitária as dimensões da prática. O segundo pólo é o de sua fragmentação interna, em que se admite a multiplicidade de conhecimentos advindos das experiências vivenciadas por esse ator. Lahire afirma, a respeito da primeira posição, que ela é útil para se compreender um grupo social, numa dimensão macro-sociológica, mas que “a realidade social encarnada em cada ator singular é sempre menos lisa e menos simples” que aquela (LAHIRE, 2002, p.18). Mas, também entendo, com Bourdieu, que eles compartilham, em diversos aspectos, situações comuns que possibilitam serem observados numa perspectiva da unicidade, de cultura de classe.
Lahire alerta para que se evite um empirismo radical:
Nas duas tendências teóricas antes citadas, podemos censurar não o fato de teorizar de uma maneira ou de outra, mas teorizar de maneira geral e universal, como se os atores, sempre e em todos os lugares, devessem corresponder ao modelo do ator que elas fabricaram. Ou, a questão da unicidade ou da pluralidade do ator é tanto uma questão histórica (ou empírica) como uma questão teórica. Portanto, a pergunta deve ser colocada nestes termos: quais são as condições sócio-históricas que tornam possível um ator plural ou um ator caracterizado por uma profunda unicidade? (LAHIRE, 2002, p.24)
Ao buscar responder a questão proposta no final da citação, Lahire cita Durkheim, para explicar as condições favoráveis à unicidade do ator, utilizando as explicações dadas por este acerca das sociedades tradicionais e o regime de internato150. Naqueles casos, havia uma grande homogeneidade entre os indivíduos
150
Durkheim citado por Lahire (2002) emprega o termo habitus a propósito da educação cristã como educação que envolve a criança inteira e cuja influência é única e constante. O habitus em Durkheim corresponde perfeitamente à situação de internato.
e, portanto, uma uniformidade moral e intelectual. Assim, Lahire afirma que Bourdieu atualizou a noção de habitus151 justamente quando pesquisava sobre a sociedade Cabila152, caracterizada por grande homogeneidade. Caso Bourdieu tivesse levado em consideração o contexto histórico excepcional, teria, segundo Lahire, de relativizar a unicidade do conceito de habitus. Dessa forma, Lahire busca aprofundar/refinar os estudos de Bourdieu, que utiliza um modelo teórico construído na análise de uma sociedade pré-industrial, como a sociedade Cabila, com uma fraca diferenciação individual, para analisar sociedades complexas, com uma forte diferenciação individual, que “produzem necessariamente atores mais diferenciados entre si, também internamente” (LAHIRE, 2002, p.27).
Lahire (2002, p.27) tece considerações sobre as sociedades contemporâneas e sua complexidade, a forte diferenciação entre os indivíduos, “das esferas de ação, das instituições, dos produtos culturais e dos modelos de socialização”. Segundo ele:
Entre a família, a escola, os grupos de iguais, as muitas instituições culturais, os meios de comunicação, etc., que são muitas vezes levados a freqüentar, os filhos de nossas formações sociais confrontam-se cada vez mais com situações heterogêneas, concorrentes e, às vezes, até em contradição umas com as outras do ponto de vista de socialização que desenvolvem. (LAHIRE, 2002, p.27)
Para completar, Lahire cita a seguinte passagem extraída da obra de Benoliel e Establet (1991), para exemplificar o problema teórico e histórico dos fundamentos sociais da unicidade:
151
De acordo com Bourdieu (2003, p.53-54), “sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente”.
152
Trata-se de um estudo antropológico realizado por Bourdieu em uma comunidade da Argélia denominada Cabila.
A produção de habitus homogêneos em todas as esferas da vida é um sonho de professor. Às transposições culturais desejadas ou programadas opõem-se muitas resistências: interesses sociais mobilizados em direções opostas, públicos indiferentes, materiais culturais rebeldes, fontes de legitimidade competitivas. De um lado as intenções de prisioneiros escolares, do outro, a vida social ao ar livre. (BENOLIEL; ESTABLET citados por LAHIRE, 2002, p.30)
Portanto, para Lahire, os indivíduos estão sujeitos, na sociedade contemporânea, a variadas socializações. Logo, são “portadores de hábitos (de esquemas de ação) heterogêneos e em certos casos, opostos, contraditórios” (LAHIRE, 2002, p.31). Pretendo, neste estudo, considerar os sujeitos – Inês, Elza, Paula e Vânia – na perspectiva proposta pelo autor, ou seja, como indivíduos que, durante suas vidas, têm experimentado uma “pluralidade de mundos sociais”: a família, as relações no trabalho com pessoas do mesmo nível social ou não, as relações com o mundo acadêmico. Penso que tal perspectiva é também a melhor, por se tratar de um estudo micro-sociológico. Pesquisar numa dimensão micro- sociológica – segundo Lahire – nos impede de encontrar no sujeito a unicidade de
habitus encontrada numa dimensão macro-sociológica, que trata de compreender as
características de um grupo social tomadas coletivamente.
O que aqui se procura obter quando se faz a escolha de uma escala micro é perceber algumas singularidades do processo de letramento digital de cada sujeito selecionado. Tomo aqui o sujeito como Hall (2006) o descreve: descentralizado num mundo globalizado. Sujeitos que – sozinhos ou com a ajuda de outros – buscam particularmente alcançar o seu lugar no espaço da universidade. Sujeitos que percebem e experimentam a distância entre a cultura de sua classe social e a cultura veiculada pela academia.
A aposta da análise microssocial – e sua ação experimental – é que a experiência mais elementar, a do grupo restrito, e até mesmo do indivíduo, é a mais esclarecedora porque é a mais complexa e porque se inscreve no maior número de contextos diferentes [...] ao limitar o campo de observação, fazemos surgir dados não apenas mais numerosos, mais finos, mas que, além disso, se organizam segundo as configurações inéditas e fazem aparecer uma outra cartografia do social. Qual pode ser a representatividade de uma amostra assim circunscrita? Que ela pode nos ensinar que seja generalizável? (REVEL, 1998, p.32)
Essas questões finais da citação levantadas pelo autor me levam a entender que é possível “aparecer regularidades nos comportamentos coletivos de um grupo social sem perder aquilo que cada um tem de singular” (REVEL, 1998, p. 33). Assim, tentarei demonstrar que “a representatividade de uma amostra circunscrita” (micro), traduzida pelos efeitos que o contato com a cultura digital tem provocado nas quatro estudantes, pode nos revelar como a universidade trata como óbvia a questão do letramento digital de seus estudantes, ou seja, a universidade generaliza o fato de que o aluno ao ingressar na academia, após o disputado exame do vestibular, já possua um determinado nível/grau de letramento digital. Será o letramento digital, hoje, tão necessário à academia quanto saber, por exemplo, a língua padrão?
Numa tentativa de refletir sobre essas questões, apresento um estudo de caso com as quatro estudantes que ingressaram na universidade sem saber lidar com o computador e a internet. Cada um desses relatos tem como base as categorias de análise criadas para este estudo. Chamarei de Narrativas Temáticas esses relatos.
4.4. Narrativas temáticas: o impacto do processo de letramento digital apesar das condições adversas
Os depoimentos apresentados aqui são baseados em entrevistas realizadas nos meses de maio e agosto de 2007 e, após um ano, em agosto de 2008. Resolvi
dar um espaço de um ano para entrevistar Inês, Elza, Paula e Vânia novamente, a fim de captar uma possível intensificação de alguns traços de letramento digital presentes em suas falas ou ações. Não entrevistei, após um ano, os outros oito sujeitos, mas, para não me distanciar deles, mantive contato por e-mail e através de algumas conversas informais na universidade. Mantive também contato por e-mail com as quatro estudantes que aqui são personagens principais das minhas narrativas, até mesmo para verificar a freqüência delas em relação ao uso do computador, analisando quanto tempo gastariam para responder minhas mensagens.
4.4.1. Narrativas temáticas sobre as trajetórias, os impactos e o uso social da