• No results found

Candidates for parameters to monitor i) Ringed seal parameters

B. Climate change in the Arctic and its impacts on ringed seals

II. Developing an international ringed seal monitoring programme

3. Candidates for parameters to monitor i) Ringed seal parameters

No que diz respeito à história do termo conservadorismo no vocabulário acadêmico- político, "muitos estudiosos admitem que sua verdadeira origem data mais precisamente do início da década de 1800, nos Estados Unidos" (VINCENT, 1995, p. 65). Já na França, "o termo foi criado pelo jornal de Chateubriand, Le Conservateur, da década de 1820", ao passo que na Inglaterra adquiriu popularidade em 1835, quando "tornou-se a designação oficial do partido Tóri" (idem, p. 65).

Superando a mera discussão referente às raízes da expressão, há quem afirme que o pensamento conservador, per se, teria gênese mais remota. Auerbach, à guisa de exemplo, adverte que "um trabalho sobre o conservadorismo precisa começar com A República de Platão" (AUERBACH, 1959, p. 5, tradução nossa). Na esteira deste raciocínio, não raro se concebe que o conservadorismo transcenderia qualquer sistematização que possa ter sido realizada por homens como Burke, caracterizando-se sobretudo como uma espécie de estilo de vida, como uma índole desde sempre inerente à própria psicologia humana: "pensa-se comumente que a atitude conservadora está profundamente enraizada naquilo a que se chama ‘natureza humana’" (OAKESHOTT, s/d, p. 8). Da mesma forma, Cecil afirma que o conservadorismo é "uma propensão da mente humana" (CECIL, 1912, p. 9, tradução nossa). Não raro desejosos de preservar determinadas estabilidades, seríamos, os homens, em alguma medida conservadores.

À sua maneira, a Ciência Política apressa-se em reconhecer que os conservadorismos representam objetos notadamente amplos e imprecisos, permeados por referências alheias ao fenômeno estritamente político:

A inexistência de uma teoria política comum a que se possam referir todos aqueles que se autodefinem ou são definidos como conservadores, a pouca propensão dos conservadores a sistematizar as próprias ideias e o abuso que se faz desse termo na linguagem quotidiana, política ou não, fizeram com que se reduzisse o Conservadorismo a uma atitude e se estudasse desde o ponto de vista psicológico, na busca das motivações que impelem certos indivíduos a assumir posições consideradas na prática política como conservadoras (BONAZZI, 1998, p. 242).

34 Pode-se ser simultaneamente conservador em política e "progressista" em matéria de costumes (ou vice-versa), até porque, como pondera Bonazzi, há um "abuso" no uso do termo "conservador" nas relações sociais. Porém, apesar de ambas as esferas não serem necessariamente sincronizadas, há formas de conservadorismo plausíveis de serem classificadas como eminentemente políticas, excedendo a esfera psicológica ou comportamental.

Por isso, "o conservadorismo não existe. Existem conservadorismos, no plural, porque plurais foram as expressões da ideologia no tempo e no espaço" (COUTINHO, 2014, p. 15). Parece residir aí a explicação para que uma plêiade de pensadores e atores políticos seja associada ao(s) conservadorismo(s), a despeito dos enormes contrastes que de ordinário ficam patentes nas suas respectivas formas de produzir intelectualmente ou de agir politicamente. Para citar apenas personagens célebres, não seria demasiado heterodoxo se arrolássemos, sob o rótulo de conservadores, pensadores tão díspares como Burke e Louis de Bonald, Irving Kristol e T. S. Eliot, Charles Maurras e Eric Voegelin, Tocqueville e Karl Popper, David Hume e Russel Kirk, Michael Oakeshott e Leo Strauss, Donoso Cortès e Alasdair MacIntyre.

De modo análogo, o campo político é ainda mais prodigioso para a feitura de semelhante exercício, uma vez que de Bismark a Churchill, de Disraelli a De Gaulle, de Salazar a Reagan, de Hiroito a Thatcher, de George Washington a George W. Bush, do Visconde do Uruguai a Castelo Branco, do Visconde do Rio Branco a Carlos Lacerda (se ansiássemos incorporar nomes brasileiros), todos são considerados de alguma forma conservadores, um tanto irmanados por elos que superam as distinções que marcaram suas atividades políticas pessoais e os contextos sócio-históricos nos quais viveram.

Logo, é crível deduzir que o conservadorismo dificilmente poderia ser estimado como um bloco monolítico de pensamento e ação. Diante dessa realidade, Vincent (1992) propõe cinco balizas a partir das quais a sociologia política conseguiria abordar o conservadorismo no quadro das doutrinas políticas: "a ideologia aristocrática, a posição ideológica pragmática, a visão situacional ou posicional, o conservadorismo como disposição do hábito ou da mente e, por fim, a interpretação ideológica" (VINCENT, 1992, p. 66).

35 Com base neste raciocínio, o autor pondera que o conservadorismo, se entendido como ideologia aristocrática, remeter-nos-á ao reversionismo das classes que reagem ao ocaso da sociedade tradicional e de seus aparelhos sociais e políticos. O conservadorismo invariavelmente esposaria uma tendência de nostalgia diante do passado, especialmente quando este passado, não raro idealizado, precede a modernidade e fere os interesses da aristocracia.

De outro lado, Vincent observa que o conservadorismo pode expressar uma forma singular de pragmatismo político, para o qual a meta última seria simplesmente manter o status quo. Um tanto alheio às inclinações ou interesses ideológicos que eventualmente permeiam um dado arcabouço social, o conservadorismo trataria apenas de pelejar para sustentar a ordem existente. Haveria, assim, uma dosagem considerável de literal oportunismo nas premissas que guiam as personagens conservadoras.

A terceira baliza proposta pelo autor ("visão situacional ou posicional") está de certo modo ancorada no princípio anterior, dele decorrendo. Pragmáticos e desprovidos de algum "ideal ou uma utopia por que lutar" (VINCENT, 1992, p. 67), os conservadores erigiriam uma posição, uma trincheira contra a mudança, qualquer que seja ela. Dessa lógica deduz-se a imperiosa existência de uma relação de tensão entre duas posições distintas: a conservadora e a vanguardista14.

A quarta abordagem, como vimos, advoga que o conservadorismo se organiza como "uma disposição do hábito ou da mente". Está aqui a ojeriza às inovações repentinas, a desconfiança em face das novidades, sobretudo quando tais novidades pretendem fulminar hábitos e costumes herdados das gerações passadas. É a voz da tradição, do espírito de apreço pela estabilidade e pelas lições da experiência que estariam presentes em todos os homens dotados de bom senso (bom senso que nos impediria de crer na oratória de

14Para valermo-nos de figuras ilustrativas, uma facção trotskista de um partido comunista que continue se

negando a acatar alianças com agremiações consideradas "burguesas” seria conservadora se comparada aos grupos deste mesmo partido, que embora igualmente marxistas, passam a se mostrar abertos à conciliação com as práticas corriqueiras do sistema instituído. Não restam dúvidas de que está nesse dilema a gênese dos partidos social-democratas tão bem investigada por Przeworski (1989). Ainda que significativamente mais distantes da "direita” no continuum ideológico, esses imaginários trotskistas tornar-se-iam mais conservadores do que a corrente que transita para o centro. Portanto, de acordo com essa visão que suprime a carga ideológica das relações políticas, são de alguma forma conservadores todos os indivíduos, grupos ou instituições que alimentam o desejo de manter uma disposição específica e tradicionalmente assentada, mas que, apesar disso (ou justamente por isso), passa a ser considerada obsoleta por outros setores. Haveria, assim, conservadores de todas as colorações.

36 doutrinadores revolucionários). Em decorrência de tais características, o conservadorismo seria natural, realista e estranho às ideologias, que por sua vez, são vistas como invariavelmente artificiais, enganosas e perigosas.

Finalmente, Vincent avalia que é possível examinar o conservadorismo como uma ideologia. De acordo com essa hipótese, o conservadorismo, ao contrário da pretensão anti- ideológica de autores como Burke, seria precisamente uma forma de ideologia. Uma ideologia que busca sua fundamentação na repulsa a determinadas ideologias modernas, mas ainda assim uma ideologia. Logo, mesmo cientes da promessa de combater realisticamente os ideários totalizantes que negam as vozes dos costumes herdados, os conservadores adeririam a algum grau de idealização. Embora não mergulhe nesse paradigma, Huntingon observa que "a teoria do conservadorismo possui ordens e propósitos diferentes de outras teorias políticas, mas permanece sendo uma teoria. O conservadorismo não é apenas a ausência de mudança. Ele é uma resistência articulada, sistemática e teórica à mudança" (HUNTINGTON, 1957, p. 461, tradução nossa).

A partir destas divisões, atesta-se que são diversas as maneiras pelas quais os estudiosos podem decifrar o fenômeno do conservadorismo, realidade percebida também por Huntington15. Por conseguinte, o exame da "filosofia" conservadora em si (para além dos aportes suscitados por Edmund Burke) e dos seus eventuais valores torna-se ainda mais complexo. As interrogações suscitadas por um possível conteúdo conservador são bastante intricadas, de modo que qualquer categorização estanque incorre no risco da arbitrariedade.

Logo, é importante novamente frisar que pode haver diferenças substanciais entre o conservadorismo político e o conservadorismo como uma disposição/comportamento. Conforme veremos adiante, autores como Michael Oakeshott não consideram anômalo que alguém seja, por exemplo, conservador em matéria de costumes e radical em questões políticas, enquanto Sullivan sustenta que "um conservador gosta de uma vida intensa e de políticas monótonas. De fato, frequentemente é conservador na política de modo a poder ser radical na sua vida privada" (SULLIVAN, 2010, p. 306). Porém, também há aqueles para os quais dificilmente pode haver diferenciação entre as duas esferas: "os conservadores insistem, consequentemente, na necessidade e na importância de arranjos políticos que

15No seu artigo de 1957, Huntington propõe, em suma, três prismas a partir dos quais se poderia compreender o

conservadorismo: como "teoria aristocrática”, como "teoria autônoma” e como "teoria situacional”. Dentre estas, o autor identifica na "teoria situacional” o método mais adequado, uma vez que compreende o conservadorismo como uma visão política que reage sempre que se depara com uma situação adversa que afronta as instituições sustentadas pela experiência tradicional.

37 evitam o mal", e por isso defendem iniciativas como "a educação moral" e o "incremento da moralidade" (KEKES, 2007, p. 161).

Por esses e outros fatores, a presente tese abdica da realização de um experimento dotado da mesma natureza daquele sugerido por Vincent. A proposta que será desenvolvida a seguir objetiva apenas mapear algumas das linhagens do pensamento conservador, e não a ontologia dos conservadorismos. Sendo evidente que o conservadorismo assume diferentes contornos ao longo da história, a análise proporá um diagnóstico holístico que não deixa de reconhecer as imprecisões daí decorrentes ou as interconexões entre cada uma das linhas do pensamento conservador. Para o mais, a discussão irá se centrar sobretudo em autores de origem anglo-saxônica, embora não se possa desconsiderar que em França se consolida toda uma escola de pensamento conservador igualmente importante. Citaremos pontualmente autores franceses, como é o caso de De Bonald, De Maistre e Maurras. Contudo, para além destes, há um imenso rol de pensadores que desde a França forjaram um entendimento do conservadorismo que não raro o analisa sob prismas distintos daqueles utilizados pelos autores de língua inglesa. É o caso, por exemplo, de Lammenais, Chateaubriand, Veuillot, Claudel e Maritain, os quais em certo sentido adornaram o conservadorismo com a perspectiva católica militante. A escolha pela corrente anglo-saxônica, repita-se, não encerra qualquer pretensão de menosprezar a vasta escola francófona do conservadorismo.