Desde a origem do homem, as mais diversas tecnologias foram sendo elaboradas para atender necessidades da humanidade. De simples artefatos, como a pedra lascada, até formas de tecnologias mais elaboradas, como as envolvidas na capacidade de manejar o fogo, o ser humano vem sempre desenvolvendo maneiras de aperfeiçoar suas relações com o planeta, com a sociedade e consigo mesmo.
Assim, Marcuschi (2002, p. 20) afirma que “não é difícil constatar que nos últimos dois séculos foram as novas tecnologias, em especial as ligadas à área da comunicação, que propiciaram o surgimento de novos gêneros textuais”. Silverman (2009, p. 165) afirma, também, que “é lugar-comum declarar que a comunicação está sendo cada vez mais mediada pela tecnologia da informação”. E são justamente esses
gêneros que surgem como demanda de tais tecnologias - aos quais, por sua maneira de realização denominamos gêneros digitais - que realizam os eventos e práticas discursivas que buscamos investigar. Silverman retoma as palavras de Markham ao ressaltar o potencial investigativo da internet enquanto objeto de pesquisa, afirmando que,
como um contexto de construção social, a internet é um meio discursivo singular que facilita a capacidade do pesquisador para testemunhar e analisar a estrutura da conversa, a negociação do significado e da identidade, o desenvolvimento de relacionamentos e comunidades, e a construção de estruturas sociais à medida que elas ocorrem em termos discursivos (MARKHAM, 2004 apud SILVERMAN, 2009, p. 165).
Apesar de o desenvolvimento tecnológico perpassar a história da humanidade, é inegável que nos últimos 30 anos a tecnologia digital evoluiu a uma velocidade nunca antes percebida. Quanto à rapidez com que a tecnologia, e em especial a internet, evoluiu nos últimos anos, Xavier (2005, p. 30) apresenta um relevante comparativo:
A rede digital tem crescido em uma velocidade espantosa; basta comparar seu crescimento com o de outros veículos de comunicação: o rádio levou 38 anos para atingir uma audiência de 50 milhões de pessoas; a TV aberta, 16 anos; a TV a cabo, 10; a Web apenas 5 anos. Marcuschi e Xavier (2010, p. 14) retratam a importância que os meios tecnológicos adquirem gradualmente. E chegam a fazer a comparação com outros
artefatos tecnológicos indispensáveis na vida da sociedade: “O computador será nos
próximos anos uma necessidade tão fundamental como a geladeira, o fogão, ou a escova de dentes”. Marcuschi (2002, p. 19) enfatiza ainda a importância da internet para a consolidação desses novos gêneros.
Hoje, em plena fase da denominada cultura eletrônica, com o telefone, o gravador, o rádio, a TV e, particularmente o computador pessoal e sua aplicação mais notável, a Internet, presenciamos uma explosão de novos gêneros e novas formas de comunicação, tanto na oralidade como na escrita.
E, de fato, para as gerações mais novas, as tecnologias da informação já ocupam um espaço considerável de sua atuação discursiva e social. Estas têm bastante
familiaridade com a maior parte dos gêneros digitais, transitando de maneira rotineira entre vários deles, como parte de sua prática social cotidiana. Vejamos o que Santos (2005, p. 151) diz a esse respeito:
A comunicação eletrônica está presente na vida de nossos jovens já há bastante tempo. Para essa meninada, nascida no final do século XX, ligar um computador, desenvolver sites, conversar na rede, expressar- se através de blogs, fotoblogs, enviar e-mails ou participar de fóruns é algo absolutamente corriqueiro.
Essa evolução tecnológica, que encontra maior receptividade nas gerações mais novas, à medida que é incorporada com naturalidade em suas concepções de mundo, gerou mudanças profundas na comunicação e nas formas por meio das quais nos relacionamos com o outro. Vivemos em um novo mundo. Um mundo em que há poucos anos não era possível uma comunicação sem fio e que hoje oferece com facilidade telefones celulares, inclusive para crianças. A comunicação com pessoas nos lugares mais distantes pode ser estabelecida sem grandes custos, em tempo real. Sampaio e Leite (1999, p. 37) posicionam as tecnologias de informação como fatores de interligação na sociedade contemporânea, afirmando que “as tecnologias da comunicação tornaram-se os principais fatores de interligação no mundo atual, pois através deles as informações são recebidas quase imediata e simultaneamente em diferentes pontos do planeta”.
Nesse contexto, seria ingênuo imaginar que as relações sociais, e consequentemente as formas de comunicação, pudessem permanecer as mesmas. Sobre o assunto, Marcuschi (2010, p. 20) afirma que:
se tomarmos o gênero como texto situado histórica e socialmente, culturalmente sensível, recorrente, ‘relativamente estável’ do ponto de vista estilístico e composicional, segundo a visão bakhtiniana (Bakhtin, 1979), servindo como instrumento comunicativo com propósitos específicos (Swales, 1990) e como forma de ação social (Miller, 1984), é fácil perceber que um novo meio tecnológico, na medida em que interfere nessas condições, deve também interferir na natureza do gênero produzido.
A forma de perceber o mundo parece ter sido consideravelmente alterada como fruto dessas transformações. E, simultaneamente, essas transformações alteram o
mundo. Ao invés de uma visão linear, cadenciada, nessa nova sociedade percebe-se uma visão tridimensional, mais dinâmica, verdadeiramente hipertextual (trataremos de forma mais detida sobre o conceito de hipertextualidade a seguir). Sampaio e Leite (1999, p. 34) abordam essa temática, ao afirmar que “as tecnologias da comunicação provocam também mudanças de comportamento em função da linguagem por elas utilizada”.
Percebe-se aqui, mais uma vez, a relação dialógica que a linguagem estabelece com a sociedade. Por fazerem parte indissociável da sociedade, as mudanças que nela ocorrem alcançam diretamente a linguagem. Em contrapartida, as modificações na linguagem e, consequentemente, nos gêneros textuais, têm reflexo na sociedade. Desenvolvemos novas tecnologias e a comunicação é alterada. Essas mesmas tecnologias e formas de comunicação alteram a sociedade ‘em função da linguagem por elas utilizada’. Mey se refere a essas relações que buscamos investigar em termos de uma ‘sociedade paralela’11, materializada nas relações por intermédio da internet:
Na ‘sociedade de informação’ atual, o caráter todo-poderoso da informação – e a estrutura que ele impõe à sociedade – cria um ‘tecido’ societal interpenetrado por todo tipo de ‘informações. Estamos efetivamente falando de um tipo de ‘sociedade paralela’: o tecido universal fabricado a nossa volta pela moderna tecnologia computacional, conhecida também por ‘rede mundial de computadores’ ou ‘Internet’ (MEY, 2001, p. 56).
O autor (2001, p. 58) pontua também o papel prioritário da informação que, segundo ele, “tornou-se um objetivo por direto, e a única coisa importante parece ser o quanto dela cada indivíduo consegue acessar, fazendo uso de um número mínimo de teclas”. Dessa forma, o próprio acesso à informação acaba por estabelecer assimetrias de poder, já que nem todas as pessoas têm acesso aos meios de comunicação e informação.
Como já ressaltamos, os gêneros textuais vêm atender às demandas da sociedade. Dessa forma, os usuários da língua acabam por criar e por legitimar gêneros criados digitalmente. Segundo nosso referencial teórico, os gêneros são criados coletivamente nas práticas sociais e discursivas, mas pode-se questionar essa afirmação ao falar dos gêneros digitais. Isso porque os suportes digitais desses gêneros são
11 Outros autores optam por denominar tais relações como “comunidades virtuais”, ou ainda, “sociedades
desenvolvidos por empresas privadas. Assim, é possível questionar até que ponto a demanda da utilização desses gêneros é criada pelas empresas de desenvolvimento de tecnologias de comunicação, e não é fruto de uma demanda genuína da sociedade. Mas é justamente a aceitação e o uso que determina até que ponto esses gêneros são de fato resposta a uma demanda social - ainda que fabricada.
Ou seja, embora várias empresas privadas elaborem espaços de interação por meio de variadas plataformas de Redes Sociais, apenas uma pequena parcela é efetivamente utilizada pelos usuários recorrentemente, e assim, por meio das próprias práticas sociais, os gêneros digitais são modificados, reafirmados e até eliminados. A aceitação desses gêneros digitais fica a critério dos usuários da língua e suas reações. De acordo com Marcuschi (2010, p. 37),
Esses gêneros são mediados pela tecnologia computacional que oferece um programa de base (uma ferramenta conceitual) e servem- se da telefonia. São diversificados em seus formatos e possibilidades e dependem do software utilizado para sua produção.
Muitos novos gêneros digitais e suportes vêm tomando espaço como meios de comunicação digital, e muitos deles, inclusive, deixam de ser utilizados gradualmente por parte dos usuários por motivos diversos. Em alguns casos, tornam-se obsoletos, tendo em vista o surgimento de plataformas mais modernas; e em outros, recebem algum tipo de repúdio por parte dos usuários, o que acaba se reproduzindo de maneira exponencial e gerando uma considerável diminuição do uso.
Alguns exemplos de Redes Sociais que podemos citar são: Mirc, ICQ, Blogs,
MSN, Orkut, Facebook, Second Life, Twitter etc. Alguns desses, como é o caso do Second Life, tiveram alguma repercussão quando da sua criação, mas logo em seguida
foram esquecidos, pois, de alguma forma, não corresponderam às necessidades e expectativas de comunicação socioculturais. Outros, como ICQ, Mirc, e Orkut, chegaram a contabilizar grande número de usuários, mas na atualidade são pouco utilizados.
Dessa forma, é pertinente pontuar novamente que a seleção do Facebook e do
Twitter enquanto plataformas para geração de dados para a presente pesquisa diz
respeito à sua abrangência na atualidade; no entanto, há a possibilidade de futuramente tais Redes Sociais não serem mais tão representativas, a depender das mudanças
sociodiscursivas que venham a tomar espaço na nossa sociedade nos próximos anos. Marcuschi (2010, p. 30) pontua também essa preocupação, afirmando que “o grande risco que corremos ao definir e identificar esses gêneros situa-se na própria natureza da tecnologia que os abriga. Seu vertiginoso avanço pode invalidar com grande rapidez as ideias aqui expostas, o que nos obriga a ter muita cautela”.
Além disso, muitos gêneros, que tradicionalmente existiam e eram consumidos apenas no suporte de papel, já vêm sendo desenvolvidos e acessados em suportes digitais, a ponto de em 25 de outubro de 2010, a empresa Amazon12 divulgar que naquele ano vendeu o dobro de livros digitais em relação aos livros impressos. Essa realidade nos leva a perceber que o mundo digital toma maior espaço a cada dia. E como estudiosos do discurso, tal percepção é algo que não podemos ignorar. O sucesso desse tipo de material digital se deve, em grande parte, à interação de múltiplas semioses, como afirma Marcuschi (2010, p. 16): “parte do sucesso da nova tecnologia deve-se ao fato de reunir em um só meio várias formas de expressão, tais como texto, som e imagem”.
Por seu turno, a comunicação, as relações sociais, e até mesmo a compreensão textual sofreram modificações perceptíveis com o advento dos gêneros textuais digitais. Araújo destaca essas novas práticas discursivas que se inscrevem nos espaços digitais:
A rede mundial de computadores amplia as possibilidades de ‘novas’ práticas discursivas e, por esta razão, muitos estudiosos têm se interessado em compreender a maneira como a comunicação humana se processa em um ambiente virtual (ARAÚJO, In MARCUSCHI & XAVIER, 2010, p. 110).
Dentre essas práticas sociodiscursivas, podemos destacar algumas características relevantes que constituem os espaços de interação discursiva propiciando especificidades nas práticas digitais, enquanto características composicionais presentes nos gêneros digitais de uma forma geral: o hibridismo entre oralidade e escrita, resultado da “reinvenção” da relação tempo e espaço; o hipertexto, que possibilita ao usuário da língua múltiplas escolhas discursivas; e a transitoriedade dos eventos, que alcançam repercussão relevante nesses espaços.
12http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/noticias/amazon-vende-duas-vezes-mais-livros-digitais-que-
O hibridismo, ao qual nos referimos, diz respeito às características do texto oral que se apresentam no texto escrito em tempo real, como as abreviações, o uso de recursos para representar expressividade e marcas não-verbais típicas do texto oral. Já o hipertexto compreende o caráter de rede do acesso não-linear aos textos e interações discursivas, em que, através de um clique, o usuário pode percorrer trajetórias imprevisíveis em seu contato com o texto. E, por fim, a transitoriedade se refere à rapidez com que eventos e práticas sociais, amplamente divulgados e de grande repercussão, caem no esquecimento, dando lugar a novas repercussões sociais.
É preciso evidenciar que as interações a que se procede nesses espaços fazem parte de uma esfera de comportamentos linguísticos especializados e complexos, com características específicas ainda em formação. Certamente poderíamos elencar um número muito expressivo de características próprias aos gêneros textuais enquanto categoria de práticas sociais e discursivas que perpassam a internet. No entanto, buscamos nos deter apenas nessas três mais representativas (hibridismo, hipertexto e transitoriedade), visando apresentar, ainda que de forma breve, a conjuntura discursiva na qual os dados desta pesquisa se inserem. Dessa forma, dedicaremos as próximas seções ao detalhamento das características composicionais mencionadas.