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Inter-calibration between R/V Celtic Explorer and R/V Johan Hjort Acoustic inter-calibration between R/V Johan Hjort and R/V Celtic Explorer was conducted on 24

O poeta, ao retratar com inventividade a chegada do narrador ao Porto de Manga, no rio Paraguai, envolve o leitor a partir evocação dos sentidos: visão – “empeixado e cor de chumbo; um homem apareceu no barranco; jogaram uma prancha na praia. Por ela desceram passageiros e cargas; na outra margem do rio uma casa acendeu; cardeais cruzam os barrancos; já diviso um solapão de lontras” –, audição – “deu boa noite; dois galos ensaiaram; a lancha apitou despedida” –, olfato – “vem um cheiro de currais por perto” – e paladar – “provo as delícias de uma cobra assada que me oferece Nhá Velina. Depois comeremos siputá” (LPC, p. 199-200).

Voltando-se para as insignificâncias, Manoel de Barros cria um microcosmo, um “microbrejo” para insinuar metalinguisticamente que a poesia é a “pura inauguração de um outro universo. Que vai corromper, irromper, irrigar e recompor a natureza” (LPC, p. 204).

No poema “Agroval”, observamos as pré-coisas, os embriões dos atos (poéticos), os “germes das primeiras ideias”, quando as “penas” ainda se encontram sem movimento. Seres minúsculos – “vermes, cascudos, girinos e tantas espécies de insetos e parasitas” –, que compõem ínfimas sociedades, se instauram por debaixo da arraia e instituem “trocas de linfas, de reina, de rúmen, tornando o sítio um útero vegetal, insetal, natural” (LPC, p. 203).

Pela ausência de hierarquia entre os seres, o poeta mostra que a interação, ainda inacabada e embrionária, é proveitosa. Assim, o homem, enquanto parte integrante da natureza, deve participar dessas trocas, vendo-se interdependente e aprendiz “da festa de insetos e aves no brejo” (LPC, p. 204).

Nesse sentido, conforme afirma Perna Filho (2007): “Manoel de Barros embrenha-se e emerge na densidade do Pantanal Mato-grossense para sentir- lhe o entusiástico pulsar de cada coisa”.

Camargo (2004) reforça esse argumento ao informar que

Barros tem no Pantanal a força arquetípica e telúrica da sua criação poética. Suas forças motrizes de inspiração são retiradas desse macrocosmo prenhe de elementos míticos, coisas genesicamente pré-existentes, de harmoniosa compleição auto- suficiente. Suas imagens figuram um gênese cosmogônico, onde todas as coisas e seres se correspondem numa relação verdadeiramente simbiótica e porosa (CAMARGO, 2004, p. 106). Em “Um rio desbocado” (LPC, p. 201-202), Manoel de Barros avigora essa ideia de Pantanal em estado de latência. O rio Taquari é qualificado de modo plural: ora como torneira que “derrama e destramela” devido a seus diversos afluentes; ora como tromba d’água, pois “destampa adoidado” na época das violentas cheias. O rio é, ainda, visto como cavalo desembestado que “escoicea árdego” e, também, como fruto, uma vez que ambiguamente seus estragos compõem e geram vida: o rio engravida, empacha, estoura, arromba, cava e recava. Ao “alargar”, “aprofundar”, “enxertar”, o Taquari “faz brotar, alegra e emprenha”, não só o solo do Pantanal, mas também o poema.

Em “Vespral de chuva” (LPC, p. 204-205), a construção da imagem da pré-chuva reflete a maneira como o poeta olha o real, isto é, como procura ver e captar sensorialmente não as coisas, mas as pré-coisas. Manoel de Barros quer refazer a ligação com o pré-categorial, anterior ao logos, e, para isso, usa o princípio da analogia, retratando os objetos em potencial, na sua essência.

Nosso entendimento desse conceito passa pela concepção de Cortázar (1974, p. 86) que compreende a elaboração de analogias como “sentir próximos e conexos [os] elementos que a ciência considera isolados e heterogêneos”, possibilitando, então, a captação e a exploração de um mundo antes despercebido. Por meio da direção analógica, as construções imagéticas do poema se libertam “de toda referência significativa para não nomear e não assumir senão a essência dos seus objetos” (CORTÁZAR, 1974, p. 98).

Chuva que anda por vir está se arrumando no bojo das nuvens. Passarinho já compreendeu, está quieto no galho. Os bichos de luz assanharam

(...) Suor escorre no rosto

O homem nos seus refolhos pressente o desabrochar. (LPC, p. 205).

Observamos, portanto, a instauração de conexões analógicas, pois os seres, em harmonia com a natureza, assemelham-se no sentir.

Todos sentem um pouco na pele os prelúdios da chuva. (...)

Aranhas-caranguejeiras desde ontem aparecem de todo lado. Dão ares que saem do fundo da terra. Formigas de roseiras dormem nuas.

Lua e árvore se estudam de noite. (...)

Todo vivente se assanha. (...)

O homem foi reparar se as janelas estão fechadas. Mulheres cobrem espelhos. Se sente por baixo do pomar o assanhamento das porcas.

(LPC, p. 205)

A recorrência do termo “assanhar” demonstra que Manoel de Barros penetra na interioridade dos seres para provocar, aguçar, incitar, despertar os sentidos dos leitores. Os prelúdios da chuva são, assim, experimentados por meio de imagens poéticas que procuram levar ao leitor a experiência sensorial desse momento de expectativa e espera. Diz o poema:

Nem folha se move de árvore. Nenhum vento. Nessa hora até anta quer sombrear. Peru derrubou a crista. Ruminam algumas reses, deitadas na aba do mato. Cachorro produziu chão fresco na beira do rancho

e deitou-se. Frango-d’água vai sestear no sarã. O zinco do galpão estala de sol. Jaracambeva encurta o veneno (...) Faz muito calor durante o dia. Sobre a tarde cigarras destarraxam. De noite ninguém consegue parar. (...) Mariposas cobrem as lâmpadas.

Entram na roupa. Batem tontas nos móveis.

A partir da construção de orações curtas e incisivas, graças ao ritmo e à musicalidade, a espera da chuva é reforçada e a eminência do desabrochar, do novo é evidenciada: “No oco do acurizeiro o grosso canto do sapo é contínuo” (LPC, p. 205). O poeta constrói a descrição da pré-chuva, valendo-se de locuções verbais que, além de revelarem atributos dos seres “nessa hora”, revelam certo movimento.

Chuva que anda por vir está se arrumando no bojo das nuvens.

(...)

Por dentro da alma das árvores, orelha-de-pau está se preparando para nascer.

(...)

Até o inseto de estrume está se virando. Cupins estão levantando andaimes. (...)

O jardim está pensando... Em florescer.

(LPC, p. 204-205)

O poema também prepara o ser para sentir. Há uma progressão do estado “vespral”, uma vez que o movimento cresce até motivar “uma festa secreta na alma dos seres” (LPC, p. 205) por meio de uma razoabilidade sensível. Tudo concorre, pois, para a apreensão do real de modo original: “– Do lado da Bolívia tem um barrado preto. Hoje ele chove!” (LPC, p. 205).

Assistimos, agora, à criação de novas relações decorrentes, desta vez, de como o mundo é traduzido poeticamente. Manoel de Barros, em um retorno às origens, estabelece conexões livres entre a “fala” do homem, que “foi recolher a carne estendida no tempo”, o “grosso canto do sapo” e o “assobio dos bugios na orla do cerrado” (LPC, p. 205). A fala desarticulada do homem cede lugar ao “canto do sapo” e ao “assobio dos bugios”. Tais sons, canto e assobio, são vistos como “despalavras” que expõem, de maneira mais “pura”, as impressões causadas nos órgãos dos sentidos pelo “vespral de chuva” e suas formas próprias de externá-las. O poeta “canta” as pré-coisas e a própria natureza pantaneira, em uma busca pelas relações primeiras dos seres com a realidade, relações estas fundamentalmente sensoriais.

A composição cíclica do poema indica a passagem do tempo – dia/ tarde/ noite expressam a sensação, o sentimento da pré-chuva: “Faz muito calor durante o dia. Sobre a tarde cigarras destarraxam. De noite ninguém consegue parar” (LPC, p. 204) – e a busca de um conhecimento totalizante da natureza pantaneira, da vida e da poesia.

Após caírem os primeiros pingos de chuva, o “perfume de terra molhada” pode ser sentido e o mundo se apresenta renovado/ recriado: “choveu tanto que há ruas de água; há um referver de insetos por baixo da casca úmida das mangueiras; alegria é de manhã ter chovido de noite” (LPC, p. 206).

Por meio desse jogo verbal, imagético e sensório, o poeta quer que as palavras, enquanto corpos tocáveis, afetem os órgãos dos sentidos, para que os leitores possam vivenciar a experiência do calor sufocante da véspera (vespral) da chuva e do ar refrescante posterior a ela.

No poema “Mundo renovado”, revela-se um Pantanal sem limites, onde as coisas, ainda inominadas, deixam de existir como eram: “choveu tanto que há ruas de água. Sem placas sem nome sem esquina” (LPC, p. 206). Tudo é mútuo – “a pelagem do gado está limpa. A alma do fazendeiro está limpa” (LPC, p. 207) – e o novo surge de relance. A chuva, símbolo de renovação, fertiliza material, espiritual e poeticamente o poeta, o poema e todos os seres. Por meio dela, o poeta traduz a alegria e o equilíbrio homem/ natureza. Pelo trabalho com a linguagem, o poema deita “rebentos” e também produz a sensação de (re) descoberta.

A predominância da cor verde ao longo do poema – ranchos, canteiros das hortas, árvores, capim, periquitos, mangueiras, cerrados – anuncia a ressurreição da natureza, graças às águas regeneradoras, e ressalta o despertar da vida: “E a primavera imatura das araras sobrevoa nossas cabeças com sua voz rachada de verde” (LPC, p. 207).

Posteriormente aos preparativos para o sentir, vêm as descobertas: “lagartos espaceiam com olhos de paina. Borboletas desovadas melam. Biguás engolem bagres perplexos” (LPC, p. 206). O poeta revela sua perplexidade diante do “mundo renovado” e faz com que os leitores também percebam o mundo de outro modo.