Historicamente,aGeometriaconstituiu-secomoconteúdodisciplinarcindidoem
duasinstânciasdistintas(umaprática,decaráternãoobrigatório,eoutraabstrata,considerada
ramo da disciplina Matemática), direcionadas para públicos também distintos (a prática
direcionadaàgrandemassaeaabstrataconsideradaapenasparaaelite),oquesevislumbraé
uma diversidade que também atinge as escolhas didáticas do grupo dos professores.
Diversidade a última, que tem se revelado negativamente por meio das dificuldades dos
alunos retratadas pelos resultados das avaliações em larga escala, conforme apontado em
trabalhoscomosdePavanello(1989),Meneses(2007)eCamilo(2007).
Desta feita, a partir da proposta de trazer uma melhor compreensão acerca dos
elementos que compõem as representações sociais que os professores do5.º ano do Ensino
Fundamental têm da Geometria, e de que modo tais representações poderiam justificar os
problemasdeaprendizagemdosalunos,buscou-seaideiaderepresentaçãosocialexpostapor
Moscovici(2010,p.17),aquiconsideradacomo“umsistemadevalores,ideiasepráticas”.
ConformeafirmamPimentaeDias(2012,p.116),asrepresentaçõessociaissão
“asbasesdetodaequalqueraçãoe,emnossocaso,fundamentamasaçõesdosdocentes,as
quais não se constroem apenas nos espaços formativos, mas também nas atividades e nos
discursoscotidianos”.Issoimplicatratá-lasdeformaquesearticulemoselementosafetivos,
mentais, sociais, integrando a cognição, a linguagem e a comunicação às relações sociais
(SPINK,2012,p.98).
Esse tratamento é também defendido por Arruda (2002, p. 219), no qual se
encontram as justificativas para a escolha da Teoria das Representações Sociais para o
presenteestudo:
[...] ela propõe captar o movimento subjetivo de compreender/elaborar a
realidade,massempresituando-onumcontextoeencarandoestemovimento
comocaracterísticodeumtipodesociedadeoudecultura,comoasnossas,a
um dado momento da história; [...] ela não desconhece o sujeito nem sua
inserçãosocial,emuitomenosopanodefundodaculturaquegeracódigos
paradecifrarsujeitoecontexto(ARRUDA,2002,p.219).
Desenvolvidanadécadade60porSergeMoscovici,aTeoriadasRepresentações
Sociais surge a partir do interesse do autor pelos processos que estariam envolvidos na
popularizaçãoetransformaçãodoconhecimentocientíficoemconhecimentocomum.Apartir
doencontrocomáreascomoaantropologia,afilosofia,asociologiaeahistória,Moscovici
busca delimitar a matéria-prima de sua teoria, encontrando no senso comum um amplo e
instigante espaço de investigação, que tem como vetor principal a linguagem, conforme
explicaArruda(2002,p.17):
A perspectiva basal de que o pensamento ingênuo, o senso comum, é
respeitável,eficaz,eserveaumpropósitoe,dequeossujeitossãoativose
criativosemsuasrelaçõescomomundo,cruza-secomadequeaconstrução
socialacontecenacomunicação,portanto,recorreàlinguagem.
Se até a década de 60 a ciência e as ideias marxistas estavam interessadas no
modo como o conhecimento científico influenciava a vida das pessoas e transformava seu
mododepensareagir,buscando,sobretudo,explicaçõesquejustificassemosdesviosdaquilo
queeraconsiderado“normal”,apropostadeMoscovicivislumbravajustamenteooposto.Seu
interesse estava em investigar de que maneira um conhecimento científico, pertencente ao
universoreificado,seintegravaàsociedade,setransformavaemconhecimentocomumdetal
modoquepudessesercompreendido,comunicadoetransformadoematitudes.
O conhecimento científico pertence ao universo reificado, enquanto o
conhecimentodosensocomumpertenceaouniversoconsensual.Essesdois
universosdiferemumdooutronosentidoqueoprimeirotentaestabelecer
explicações do mundo que são imparciais e independentes das pessoas,
enquantoqueoúltimoprosperaatravésdanegociaçãoedaaceitaçãomútua
(MOSCOVICI,2010,p.323).
Considerada a obra inaugural da Teoria das Representações Sociais, La
psychanalise, son image et son public, publicada em 1961, por meio do uso da análise de
critérioslinguísticoseestudandoasuagênesemedianteaconversação,apropaganda,amídia
e outros meios de comunicação baseados na linguagem, o autor consegue explicar o modo
como as ideias e a linguagem psicanalítica constituíam-se como parte importante do
conhecimentocomumedaculturafrancesa,ouseja,conseguiuexplicaraformacomosedáo
nascimentodeumnovoconhecimentocomum.
Apartirdessaobra,Moscoviciconseguenãosócolocarosensocomumnocentro
de suas investigações, configurando-o não mais como algo impuro, errado e, portanto,
desprezível,mascomoalgomuitomoderno,dinâmicoecomplexo,comotambémesclarecem
osmecanismosdeobjetivaçãoeancoragem,queseencontramimplicadosnatransformação
deumconhecimentocientíficoemconhecimentocomum.
Oprimeiroaspectoaserconsideradoparaapresenteanálisedizrespeitoàbusca
deMoscoviciporumavisãodialéticaentreoindivíduoeasociedade,nãomaisconsiderados
comoentidadesdistintas,mascomofacesdeumamesmamoeda.
Arepresentaçãoéentendidacomoumaformadialógicageradapelasinter-
relaçõeseu/outro/objeto-mundoeestánabasedetodosossistemasdesaber.
Éimprescindívelcompreendersuagênese,seudesenvolvimentoeseumodo
deconcretizaçãonavidasocialparapodermosentenderarelaçãoqueamarra
oconhecimentoàpessoa,acomunidadesemundosdavida.“Épormeioda
representação que podemos compreender tanto a diversidade como a
expressividade
de
todos
os
sistemas
de
conhecimento”
(JOVCHELOVITCH,2011,p.21).
Tratando-sedeumasociedademoderna,marcadapeladiversidadeevariaçãode
ideias,porpontosdetensão,oresultadomuitasvezeséafaltadesentido,onãofamiliar,o
desconhecido,aquiloqueameaça.Éapartirdessedesconhecidoquesurgeanecessidadede
torná-lo familiar, compondo o conceito básico de representação que implica tornar o não
familiaremfamiliar,oausente,empresente,que,segundoexplicaMoscovici(2010),decorre
doacionamentodedoismecanismos:aancoragemeaobjetivação.
Asrepresentaçõessociaisconstroemapontequelidacomadistânciaentre
os atores sociais e objeto-mundo criando sentidos, ferramentas e
entendimentos que o domesticam e o tornam conhecido. Elas criam
familiaridade e respondem a antigas e profundas necessidades de se sentir
emcasanomundo(JOVCHELOVITCH,2011,p.191).
Porancoragem,Moscovici(2010,p.61)consideraoesforçoempregadoporum
determinado grupo para tornar o não familiar em algo familiar, sobretudo por meio da
classificaçãoedanomeaçãodoobjetorepresentacional,cujoobjetivoéatribuir-lheumvalor
positivo ou negativo, considerá-lo “normal” ou “aberrante” (MOSCOVICI, 2010, p. 65).
Tudoaquiloquenãopodesernomeadoouclassificadomostra-se“nãoexistente”eaomesmo
tempo “ameaçador”, “[...] é relegado ao mundo da confusão, incerteza e inarticulação”
(MOSCOVICI, 2010, p. 66). Por essas razões “nós sempre fazemos comparações com um
protótipo, sempre nos perguntamos se o objeto comparado é normal ou anormal”, e dessa
perguntaasrespostasdãoorigemàsconsequênciasqueserelevampormeiodasatitudes,e
afetos, justamente por transformar o objeto representacional numa “convenção”
(MOSCOVICI,2010,p.66-67).
No entanto, segundo o autor, esse mecanismo não é puramente intelectual, mas
decorre da modificação de outras representações preexistentes, “de tal modo que adquirem
uma nova existência” (MOSCOVICI, 2010, p. 70). De acordo com Jodelet (2001, p. 17),
“guiamomododenomearedefinirconjuntamenteosdiferentesaspectos,tomardecisõese,
eventualmente,posicionar-sefrenteaelesdeformadefensiva”.
Oatodereapresentaçãoéummeiodetransferiroquenosperturba,oque
ameaça nosso universo, do exterior para o interior, do longínquo para o
próximo. A transferência é efetivada pela separação de conceitos e
percepçõesnormalmenteinterligadosepelasuacolocaçãoemumcontexto
ondeoincomumsetornacomum,ondeodesconhecidopodeserincluídoem
umacategoriaconhecida.(MOSCOVICI,2010,p.57).
Ooutromecanismopeloqualumarepresentaçãosocialéformadadizrespeitoao
processodeobjetivação,queconsiste,segundoMoscovici(2010,p.71-74),nauniãoda“ideia
denãofamiliaridade”comaprópriaideiade“realidade”,tornando-se“averdadeiraessência
darealidade”,“passamaexistircomoobjetos,sãooquesignificam”.Razãopelaqualfaz-se
necessáriobuscarentãoacaracterísticanãofamiliarquemotivouaconstruçãodeumadada
representaçãosocial,equefoiporelaabsorvida(MOSCOVICI,2010,p.59).Namedidaem
que nos comportamos como se o objeto representacional realmente existisse, ele passa não
apenas a simbolizar “sua personalidade, ou sua maneira de se comportar”, mas se constitui
como a sua própria personalidade, ou ainda “sintetizando em um clichê que se torna um
emblema”(MOSCOVICI,2010,p.216).
ConsiderandoestudosrealizadosnaáreadadidáticadaMatemática,apresentados
anteriormente, sobre as crenças que os professores de diferentes níveis possuem sobre a
Matemática, e o modo como impactam as atividades desenvolvidas em sala de aula, este
trabalho tem justamente o objetivo de trazer uma compreensão mais ampliada sobre as
representações sociais que os professores do 5.º ano têm da Geometria e de que modo tais
representações justificam as dificuldades dos seus alunos. Conforme afirma Gilly (2001, p.
321),“ointeresseessencialdanoçãoderepresentaçãosocialparaacompreensãodosfatosde
educaçãoconsistenofatodequeorientaaatençãoparaopapeldeconjuntosorganizadosde
significaçõessociaisnoprocessoeducativo”.
Diantedosresultadosdasavaliaçõesemlargaescalaquesinalizamproblemasno
processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos geométricos, é importante compreender
quais as estratégias utilizadas pelos professores, mas, sobretudo, entender a partir de quais
ideias são orientadas, pois, conforme destaca o autor, a construção de uma representação
socialpode“assegurarumafunçãoconservadoraqueprotege”aspráticasdesenvolvidasem
sala de aula, remetendo para fora do aparelho escolar a explicação de seus infortúnios”
(GILLY,2001,p.324).
Dessemodo,alertaMoscoviciparaofatodeque:
Quantomaissuaorigeméesquecidaesuanaturezaconvencionaléignorada,
mais fossilizada ela se torna. O que é ideal, gradualmente torna-se
materializado. Cessa de ser efêmero, mutável e mortal e torna-se, em vez
disso,duradouro,permanente,quaseimortal.
Compreendendo as representações sociais, conforme afirmam Melo e Carvalho
(2012, p. 96), como “algo comum a um conjunto social, não sendo perenes nem
generalizáveis por si mesmas”, convém destacar a dimensão histórica implicada na sua
construção,postoquenãodependeapenasdosconhecimentosproduzidoslocalmenteporum
determinado grupo, mas implicam a tomada da própria trajetória histórica do objeto
representado(VILLASBÔAS,2010;ARRUDA,2002).
Asrepresentaçõessociaissãosemprecomplexasenecessariamenteinscritas
dentro de um referencial de um pensamento preexistente; sempre
dependentes,porconseguinte,desistemasdecrençasancoradosemvalores,
tradiçõeseimagensdomundoedaexistência(MOSCOVICI,2010,p.216).
Portanto, em relação ao tema tratado neste estudo, vislumbrou-se adicional
cuidado à análise do modo como a Geometria foi concebida nas diferentes reformas
curriculares nacionais, bem como nos textos oficiais de orientação curricular publicados na
década de 90 e ainda em vigor, haja vista que das orientações macrocurriculares podem
derivarentendimentos,açõeseaformaçãodeumavisãobastanteespecíficaacercadoobjeto
representado. E conforme o seu grau de estruturação, pode, segundo Moscovici (1998),
desenvolver um maior predomínio sobre as práticas simbólicas e afetivas, dando origem à
representação do tipo hegemônicas, posto que atravessa a todos e ultrapassa os limites de
produçãodeumgrupoespecífico.
Asrepresentaçõessociaissãosemprecomplexasenecessariamenteinscritas
dentro de um referencial de um pensamento preexistente; sempre
dependentes,porconseguinte,desistemasdecrençasancoradosemvalores,
tradiçõeseimagensdomundoedaexistência(MOSCOVICI,2010,p.216).
Justamente por serem históricas, consideradas como produtos sociais, as
representações sociais manifestam-se por meio de palavras, sentimentos e condutas,
permitindo que sua análise seja feita a partir da compreensão das estruturas e dos
comportamentossociais.Enecessitamseranalisadasapartirdosseuscontextosdeprodução,
sempreremetidasàscondiçõessociaisqueasengendraram.
As representações sociais são entidades quase tangíveis. Elas circulam, se
entrecruzam e se cristalizam continuamente, através duma palavra, dum
gesto, ou duma reunião, em nosso mundo cotidiano. Elas impregnam a
maioriadenossasrelaçõesestabelecidas,osobjetosquenósproduzimosou
consumimoseascomunicaçõesqueestabelecemos(MOSCOVICI,2010,p.
10).
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09-02267
(sider 37-45)