O corpo humano é um dos pontos centrais de debate na atualidade, envolvendo as visões filosóficas, psicológicas e, recentemente, as políticas e econômicas, ou seja, o corpo como fator de formação das relações sociais e de investimento econômico. A teologia tam- bém deve estar atenta para o debate sobre o corpo, o que parece ter sido pouco realizado até agora. Galantino alerta para o pouco espaço que o corpo ocupa dentro da Teologia, reduzi- do-o a um pequeno tema dentro da Antropologia Teológica e, talvez, nem mesmo exista uma teologia do corpo. Os novos desafios relacionados ao corpo e, consequentemente, liga- dos ao conceito de humanidade, devem aumentar os estudos sobre o corpo. A revelação cris- tã apresenta a história da salvação atravessada pela corporeidade. No eixo criação- encarnação-escatologia, nota-se que o corpo é lugar de revelação e salvação.125 Mas a ques- tão fundamental para o estudo desta parte é pensar o conceito de ser humano pensado pela revelação.
A afirmação imediata Ruiz de La Peña é de que o homem é criatura de Deus.126 Encontram-se na antropologia hebraica três termos para designar o ser humano: basar,
nephesh e ruah.
125 GALANTINO, N. Il corpo in teologia: oltre il platonismo. Rassegna di teologia. Rivista Bimestrale di Teo- logia e Scienze Umane, Napoli, v.6, 2005, p. 873-874.
126 RUIZ DE LA PEÑA, J. L. Imagen de Dios: antropología teológica fundamental. 2. ed. Santander: Sal Ter- rae, 1988, p. 19-26. O autor apresenta uma visão geral dos termos bíblicos a respeito do ser humano, antes de abordar os específicos dos dois relatos bíblicos da criação do ser humano. O relato javista, Gn 2, 4b-25 e o sacerdotal, Gn 1,26-2,4a, são analisados posteriormente na sua obra. Para reflexão usa-se o comple- mento dos dois relatos com suas temáticas principais, para elucidar a visão antropológica do Antigo Tes-
O primeiro termo a tratar é basar, que significa originariamente carne de qualquer ser vivo, seja homem ou animal. È uma manifestação da vitalidade orgânica do ser vivo, que se torna visível para os demais seres humanos. Esse termo designa o ser humano na sua tota- lidade e integralidade. Pode-se concluir aqui duas indicações de sentido para basar: uma de solidariedade e de fragilidade da vida. Para o ser humano, como para os animais, existe um
substrato orgânico e um âmbito ontológico, que aproximam esses seres vivos. Há um paren-
tesco, uma solidariedade entre os humanos por partilharem de certa forma a mesma “carne”.
Basar indica que o ser humano pertence ao mundo biológico, juntamente com os animais e
compõe uma solidariedade da espécie humana. A “carne” compõe uma irmandade entre to- dos os seres humanos.
Na outra dimensão, basar representa a debilidade humana, indica a fragilidade e efemeridade. A carne não representa aqui um princípio do mal ou a causa da morte humana, como pode indicar uma leitura dualista. A alma imortal liberta-se do corpo mortal para, livre do cárcere, encontrar-se com a divindade. O termo indica a limitação humana da mortalida- de e fragilidade que faz parte do ser humano na sua integralidade. Trata-se do ser humano inteiro que é mortal, frágil e efêmero e não simplesmente um corpo mortal. A imortalidade e a eternidade são características divinas, enquanto o ser humano passa pelo nascimento e de- saparecimento no tempo. Algumas indicações bíblicas ressaltam a condição criatural de se- res mortais, como em Isaías 40, 6-7: “Toda carne é erva e toda a sua graça como a flor do campo. Seca-se a erva e murcha-se a flor, quando o vento de Iahweh sopra sobre elas”, ou no Salmo 78,39: “Lembra-se de que eram apenas carne, um vento que vai, sem nunca vol- tar.”
A “carne” significada com o termo basar, no seu substrato orgânico não representa um ser humano fechado na sua existência biológica. Trata-se da criatura aberta para a trans- cendência, cheia de vitalidade, um princípio vital que anima o ser humano, que possui esta- dos psíquicos, representados pelo segundo termo nephesh. Seu primeiro significado pode ser traduzido por garganta, respiração; é a vida com seus sentimentos e estados psíquicos.
Nephesh não significa uma parte separada do ser humano, como uma leitura dualista grega
tamento. Segundo Ruiz, não existe termos equivalentes na linguagem moderna ocidental a esses três ter- mos bíblicos, já apresentando a dificuldade da concepção de ser humano. Existem também as relações da cultura hebraica com o helenismo e a utilização de termos gregos para traduzir Basar, nefesh e ruah, que trazem consigo a carga dualista grega, como exemplo o Livro da Sabedoria. O autor explica que, apesar de a Bíblia conter termos gregos, o sentido permanece semita, o que garante a integridade da revelação sobre o ser humano.
pode indicar; a alma imortal separada do corpo. O termo hebraico também comporta o ho- mem na sua totalidade, na vida orgânica e afetiva, de abertura e diálogo com o Criador. As- sim, na visão integral hebraica, o ser humano não é corpo nem é alma, mas é a comunhão de corpo e alma.
O ser humano possui, pela sua condição de criatura, uma relação estabelecida com o Criador. Essa abertura de transcendência e vitalidade recebe o nome de ruah, que também significa vento, sopro e vitalidade do ser vivo. Ruah é o sopro ou o espírito de Yaweh, uma vitalidade divina que impulsiona o ser humano para a resposta à relação Criador-criatura.
Ruah pode ser uma “fuerza creadora o de un don divino especifico”, o espírito de Deus que
habita o ser humano, que não o deixa fechado na sua imanência. Assim, temos uma unidade psicossomática e dinâmica do ser humano, que estabelece relações consigo mesmo, com os demais seres vivos e com abertura ao transcendente. Possui uma “carne” semelhante aos demais animais, animada pela nephesh e que comporta o espírito de Deus em sua existên- cia.127
Nos relatos sobre a criação do ser humano, elabora-se uma síntese da antropologia bíblica. O homem é criatura de Deus dependente do seu Criador, moldado por Ele, como o barro nas mãos do oleiro e recebe de Deus a dignidade de ser a sua imagem e semelhança. Ruiz de la Peña apresenta a tríplice relação do ser humano: sua dependência e inferioridade em relação a Deus; a igualdade da relação homem/mulher e a superioridade do ser humano frente ao mundo criado. Com essa explanação, importa, para dialogar com a nova antropo- logia nascida da revolução tecnológica, alguns pontos. É o ser humano aquele que dá sentido à criação de Deus, que age como administrador do mundo criado; por isso, busca sua huma- nização, supera-se a cada instante, sem que isso seja um atentado contra sua vocação. A in- tegridade bíblica do ser humano confronta-se com os dualismos ou reducionismos apresen- tados por ciências humanas; a antropologia bíblica revela a dignidade inerente do ser huma- no e o respeito à sua fragilidade e vulnerabilidade.128 Vejam-se mais de perto esses pontos.
127 As reflexões sobre os três termos bíblicos para designar o ser humano, apresentados, foram retirados do li- vro de RUIZ DE LA PEÑA, J. L. Imagen de Dios: antropologia teológica fundamental, p. 20-26. Os ter- mos também foram complementados com conceitos do livro de SUSIN, L. C. A criação de Deus: Deus e criação. São Paulo: Paulinas; Valência: Siquem, 2003, p. 100.