Igualmente problemáticas são suas referências à dimensão experimental da física. Elas passam ao largo de toda a discussão popperiana do princípio de falseabilidade, que questiona a possibilidade de que um experimento possa ser evocado para sustentar a veracidade de qualquer teoria física. Que dizer, então de
40 Em sua entrevista de 11/02/08 no programa Roda Viva Goswami chega a afirmar que o seu
pretender usar os experimentos de Aspect e de Zylberbaum para sustentar afirmações metafísicas?
É interessante notar que durante o século 19 era comum a realização de grandes palestras populares e gratuitas sobre temas científicos. Em tais eventos muitas vezes eram apresentados também experimentos de laboratório unicamente com a intenção de criar junto ao público um sentimento de maravilhamento. Tais palestras não se destinavam meramente a demonstrar a adequação de determinadas teorias científicas para descrever o comportamento da natureza, mesmo porque a audiência muitas vezes não possuía a formação técnica necessária para compreender com clareza os conteúdos de tais teorias. Mais do que transmitir conhecimentos, tais apresentações tinham como objetivo incutir nos presentes a confiança no progresso tecnológico e o respeito pelo poder que a ciência parecia estar conferindo à humanidade; ou, para usar o termo proposto por Geertz criar e manter um certo tipo de ânimo entre os presentes.
Esta forma de apresentar o conhecimento científico associado a outros contextos de significado parece estar bem viva. Lewis observa que os livros e palestras de autores da Nova Era sempre buscaram associar a espiritualidade ao acúmulo de conhecimento e a um progressivo processo de esclarecimento. “Muito antes que surgisse o modismo de apelar para a física quântica a fim de legitimar visões de mundo alternativas, a subcultura espiritualista já havia reinterpretado o ciclo de reencarnações e sua idéia motriz de Karma como sendo um processo educativo destinado a educar a alma. Como conseqüência deste modelo do ‘cosmos como uma escola’, o movimento Nova Era encontra-se saturado de práticas e discursos de cunho educativo. Esta visão reflete-se, por exemplo, no fato de que o tipo de ‘cerimônia’ prevalente na Nova Era são os workshops, as palestras e os cursos, ao invés de rituais de adoração” (LEWIS, 2007, p. 211). Sob este ponto de vista, a palestra é uma das formas ritualísticas, característica da Nova Era; ou uma das possibilidades de interação entre seus participantes que mais se aproximam disso.
Nas duas palestras de Goswami a que assisti ministradas em 2007 e 2008, ele dava grande importância à explicação dos experimentos de Grinberg
Zylberbaum. Eles foram abordados durante a primeira parte da sua palestra, que girava fundamentalmente em torno da sua interpretação da MQ. A ela seguia-se um breve intervalo e na etapa seguinte uma abordagem de outros tópicos: a saúde, a economia, as relações humanas, a ecologia, etc. Esta estrutura também é
parcialmente repetida em The Quantum Activist, documentário, que é uma versão
um pouco mais estendida de uma palestra de Goswami. Os experimentos de Grinberg Zylberbaum são também apresentados em todos os seus livros, quase sempre nos capítulos iniciais, numa estrutura de alguma forma semelhante a das palestras.
Chamou-nos a atenção a grande quantidade de informação científica apresentada à audiência no início da palestra. Ainda que introduzidos de forma bastante simplificada e sem matemática, os conceitos de MQ a que Goswami alude são tantos e tão complexos que pareceu que dificilmente uma pessoa que esteja tomando contato com aquele material pela primeira vez (ou mesmo pela segunda ou terceira) poderia reter os pontos essenciais da sua argumentação. Nas duas vezes conversei com espectadores, durante o intervalo entre as duas metades da apresentação e, pude constatar que o grau de retenção de conceitos como o colapso da função de onda era bastante baixo, mesmo que a conversa se desse poucos minutos após o fim da primeira parte da palestra.
Conversei sobre esta impressão com Adriano Piazzi, editor da maior parte de seus livros no Brasil e que passou a trazê-lo para turnês de conferências mais longas a partir de 2007. Piazzi já assistiu a mais de uma dezena de conferências de Goswami e me disse, com relação à primeira parte, que “ninguém entende nada”. E observou ainda que “muitas pessoas poderiam falar coisas semelhantes às que ele fala na segunda parte das palestras, mas não seriam capazes de falar o que ele fala na primeira parte”
Ainda que a primeira parte da palestra de Goswami consistisse da apresentação de ideias científicas absolutamente legítimas, não creio que seus espectadores teriam a capacidade de considerá-las sob esse prisma. Eles não possuem a formação teórica necessária para conseguir adotar a atitude de “ceticismo institucionalizado” que, segundo Geertz, caracteriza a perspectiva
científica. Se pudéssemos assistir a uma palestra de Goswami, junto a um departamento de física de uma universidade, com certeza esse ceticismo seria manifestado pela audiência. Já numa plateia formada por adeptos da Nova Era,
leitores de seus livros e fãs de Quem somos nós, a perspectiva científica dificilmente
poderá ser adotada por quem escuta a apresentação.
Neste contexto, a fala do indiano sobre MQ tem uma possibilidade bem menor de ser considerada como a apresentação de “hipóteses probabilísticas”, só para retomar um dos termos de Geertz usados acima para caracterizar a perspectiva científica; aqueles que compram seus livros e ingressos para suas palestras parecem estar buscando, por trás da massa dos experimentos empíricos altamente complexos e dos conceitos teóricos quase incompreensíveis, as “verdades mais amplas, não-hipotéticas” a que Geertz se refere como compondo o horizonte do discurso religioso. E são essas que ele apresenta na segunda parte da palestra. Indubitavelmente, a física, tal como Goswami a apresenta à sua audiência, quer servir de janela para descortinar um horizonte cosmológico mais amplo; Ou seja, assim como faziam os grandes experimentos científicos públicos do século 19, as palestras de Goswami parecem ser, mais do que apenas aulas, cerimônias destinadas a difundir certas mensagens. Porém, seu foco não está em estimular a crença no progresso científico ou no poder da tecnologia. Ao apresentar “gráficos de mensuração de atividade cerebral” e argumentar que atestam diretamente a existência de uma consciência transcendente, ele reforça a autoridade persuasiva de conceitos oriundos das religiões.