Uma das importantes características da diversificação genómica deste vírus é que populações geográficamente distintas parecem compartilhar uma alta proporção de variantes comuns. Esta falta de relação das distancias (espaciais) entre o locais de origem dos isolamentos e as estimativas das divergências nucleotídicas manifestou-se tanto entre regiões (países, provincias) como ao nível local, dentro da mesma vinha. Este facto é bastante surpreendente pois a disseminação do GFLV, quer através do material de propagação vegetativa quer pelo nemátodo vector, Xiphinema index, está intimamente
ligada à proximidade espacial (no que respeita à popagação vegetativa, pelo menos em Portugal, a principal fonte de material para enxertia é geralmente local). No entanto com o TMGMV que em condições naturais apenas se transmite por contacto também foi demonstrada a inexistência de correlação entre a distancia geográfica e a divergência nucleotídica (Rodriguez-Cerezo et al., 1991), bem como a falta de evidência para a sub- divisão da população ao nível geográfico (Moya et al., 1993).
Outro aspecto que se revelou interessante foi a população de isolamentos existente num raio de algumas dezenas de metros apresentar uma divergência nucleotídica semelhante à que se encontrou num raio de milhares de quilómetros (Vale de Parra: 73,8; Europa: 84,7 substituições por 1000 bases). Também aqui existe algum paralelismo com o caso do TMGMV (Rodriguez-Cerezo et al., 1991), em que a divergência, embora em termos absolutos fôsse menor que para o GFLV, apenas aumentou de 14,2 para 21,6 substituições por 1000 bases ao considerar locais de amostragem com um raio de metros ou de centenas de quilómetros. Aqueles autores sugeriram que existiria um limite máximo da diversidade genómica em resultado de uma selecção negativa sobre a variação em determinados locais do genoma. No caso do GFLV, a proximidade desse eventual limite ainda parece mais marcada, mas apenas se encontrou um local de restrição (com Hinf I) comum a todos os isolamentos. Parece assim que, de forma independente, e portanto partindo de isolamentos distintos, cada população é capaz de explorar a potencialidade de variar de certos locais do seu genoma tendendo para um limite máximo de diversificação em que a composição das populações tende a aproximar- se.
Embora o número de casos em que se efectuou a tipificação genómica do vírus simultaneamente a partir de diversas partes da mesma planta ou em anos consecutivos, fosse reduzido, verificou-se a quase ausência de variação em cada planta, sugerindo a existência de um equílibrio da população de variantes genómicas de cada isolamento. Num caso analisado mais em pormenor pôde verificar-se que este equílíbrio é possível mesmo com uma população multi-modal de variantes.
Na vinha de Vale de Parra, o elevado número de plantas infectadas próximas umas das outras e a presença do nemátodo vector, são indicações fortes de que grande parte das plantas tenha sido infectada pelo vector, já depois da instalação da vinha. Nesta situação esperava-se qua a transmissão pelo vector actuasse como factor de homogeneização entre os isolamentos, o que não se verificou. Uma vez que os isolamentos de cada planta parecem estar em equílibrio, é algo intrigante a origem da variabilidade entre as plantas. Uma possível causa da variabilidade poderá, paradoxalmente, estar relacionada com a própria transmissão pelo vector devido à falta de representatividade da população que é
transmitida relativamente à população genómica de origem. Esta diferente distribuição da população inoculada daria origem nos tecidos recém infectados a novas relações de concorrência entre as variantes genómicas, possibilitando o surgimento de populações com outras distribuições genómicas e com variantes modais diferentes das da população original. Para tal seria necessário que as variantes genómicas mais frequentes na população original representassem relativamente ao total da população uma fracção pequena, tal como no caso do fago Qβ (Domingo et al., 1978), e que a quantidade de partículas virais inoculada pelo vector fôsse pequena. Não há de momento dados que permitam inferir directamente a validade desta hipótese mas recentemente (Esmenjaud et al., 1993), (Esmenjaud, comunicação pessoal) verificou-se a existência de acentuada variação nucleotídica entre sequências de GFLV obtidas de X. index de uma mesma amostra de solo. A influência da transmissão viral em condições naturais, na variabilidade, não tem sido estudada em virologia vegetal. Em virologia animal são conhecidas diversas situações em que a variabilidade é, em condições naturais, afectada por episódios periódicos de redução drástica da população ligados à transmissão viral, alternando com o restabelecimento de grandes populações (Duarte et al., 1993).
Não foi possível atribuir significado biológico aos diversos tipos genómicos encontrados, por se ter partido de uma população de isolamentos não caracterizada biológicamente, na maior parte vegetando em condições de campo. No entanto encontrou-se uma nítida sub-divisão em dois grupos facilmente distinguíveis pela presença, ou não, de um determinado local de restrição por Hinf I. O significado desta divisão será agora mais facilmente investigado no que respeita a sintomatologia, transmissibilidade e outras características, com a certeza de que, se existir, é possível identificá-lo. Esta abordagem para tentar relacionar as propriedades biológicas com a tipificação genómica é oposta à geralmente utilizada, em que se parte de uma caracterização biológica mas se corre o risco de não encontrar um marcador molecular apropriado, ou as propriedades biológicas selecionadas em ambiente controlado de estufa não terem contrapartida em condições de cultura naturais (por exemplo a reacção de "Seedling-Yellows" no caso do CTV).