CHAPTER 4: “WOMEN, PEACE AND SECURITY” IN DPKO
4.3 C RITICS OF THE R ESOLUTION AND ITS I MPLEMENTATION
A terceira edição de Action Comics, de 1938, dispersa um discurso de denúncia ao descaso da elite empresarial para com a classe operária e, em casos mais extremos, para com a vida humana. Na história, assistimos ao drama de um trabalhador vitimado não por elementos criminosos, mas sim por um grande capitalista sem qualquer consciência social. O Super-
Homem na trama vai ao resgate de um trabalhador preso no desmoronamento de uma mina. Vejamos o que se desenrola na trama a partir deste resgate:
Figura 04 – O Super-Homem se compadece com a péssima situação de um trabalhador. ([1938] 2008 d, p.37).
Ao apresentar na trama o Super-Homem na posição-sujeito de salvador que protege os cidadãos que estão oprimidos pelo poder das elites econômicas e políticas, o texto constrói uma identidade de “herói do povo” para este personagem, representando, assim, o discurso de resistência da classe trabalhadora e denunciando o poder dos opressores. Analisando os enunciados da página, quando o Super-Homem interroga o trabalhador que salvou, este personagem, mobilizado pelo autor como sujeito responsável pela enunciação, faz uma denúncia das péssimas condições de trabalho que eram uma realidade para grande parte da classe trabalhadora americana nos dias da Grande Depressão, e da exploração da mão de obra por parte da elite empresarial na época, obrigada a trabalhar por salários miseráveis em empregos insalubres, correndo muitas vezes riscos de vida, a fim de sustentar, ainda que precariamente, suas famílias.
Na AD, o texto não é tomado como um conjunto homogêneo de enunciados unificados por posições ideológicas não conflitantes, mas sim como um agrupamento de discursos divergentes que se relacionam uns com os outros. No fragmento analisado, quando o dono da mina afirma que não ajudaria o funcionário acidentado nem melhoraria a segurança da mina, pois “é um homem de negócios, não um humanitário”, o autor mobiliza, por meio do personagem empresário, um discurso em voga para grande parcela da elite empresarial de qualquer época, que coloca o trabalhador como nada mais do que uma ferramenta de produção a ser usada e descartada quando perde a utilidade. Os sujeitos autores Jerry Siegel e Joel Shuster, entretanto, não falam do lugar ideológico de representantes da elite. Sabemos que eles pertencem à classe trabalhadora e é para ela que se dirigem em suas histórias. O enunciado “sou um homem de negócios e não um humanitário” está, portanto, inscrito de fato em uma formação discursiva de crítica contundente a este discurso de desprezo do empresariado para com a classe operária, enunciado pelo empresário.
Na continuação da história, ao cair da noite, o Super-Homem vai à residência do empresário, onde ele dava uma festa para seus pares da alta sociedade, e captura todos os presentes, aprisionando-os na mina onde o trabalhador foi acidentado. Desesperado e sentindo na própria pele as agruras que seus funcionários vivenciavam diariamente, o dono da mina tenta recorrer aos equipamentos de segurança, mas estes não funcionam devido à falta de cuidados técnicos de que o mineiro acidentado havia se queixado. Finalmente, quando todos estão em pânico e o empresário lamenta seu comportamento desumano, o Super-Homem remove os entulhos que bloqueavam a saída libertando a todos. Dias mais tarde, Clark Kent mais uma vez entrevista o empresário, e este afirma que, após sua experiência, sua mina será a
mais segura do país e seus operários os mais bem tratados, conforme vemos no último quadrinho da história anterior ao anúncio, na página destacada a seguir:
Figura 06 – A mudança do discurso do empresário provocada pelas ações do herói. ([1938] 2008d, p.38).
Como observamos na discursividade da trama, as ações do Super-Homem se contrapõem ao discurso jurídico. Ele aprisionou em uma mina pessoas que não tinham cometido, em uma perspectiva legal, crime algum, arriscando a vida destas pessoas e as aterrorizando, apenas para que um único homem, o dono da mina, pudesse experimentar os mesmos riscos e sofrimento a que seus trabalhadores se submetiam diariamente. Os atos do herói, entretanto, acabam fazendo com que o sujeito-personagem empresário mude de atitude em benefício de seus trabalhadores. O empresário foi forçado pelo Super-Homem a sair de sua posição e assumir outro lugar, o do trabalhador explorado. Inserido nessa nova perspectiva, ele muda completamente o seu discurso.
Assim, através de uma ação de desafio aos discursos do poder jurídico e sócio- econômico, o Super-Homem conseguiu beneficiar representantes da classe oprimida por estes mesmos poderes. Vemos, portanto, o personagem Super-Homem ser objetivado pela narrativa como um herói que ataca diretamente o poder em defesa daqueles que estão submetidos ao poder, e é isso que confere às revistas deste personagem seu caráter de crítica social e estratégia de resistência.
É importante observar que o público leitor das revistas do herói na época era constituído primariamente por jovens e crianças, e os discursos dispersos nas histórias do Super-Homem os alcançava de várias maneiras. No final da página que destacamos, por exemplo, há um anúncio publicitário conclamando os leitores a se tornarem membros dos “Super-Homens” da América, um clube em que as crianças, ao se associarem, ganhavam diversos brindes do herói, como bottons e certificados que difundiam os valores defendidos pelo personagem. Ao mesmo tempo, as mensagens do herói estavam presentes em brinquedos, artigos escolares, vestuário e inúmeros outros produtos. Os autores das revistas do Super-Homem costumavam receber cartas enviadas pelos pais dos leitores, nas quais estes pais agradeciam ao Super-Homem por servir de bom exemplo para seus filhos, levando-os a se alimentarem bem, a praticarem exercícios e, sobretudo, a se afastarem da influência de elementos criminosos que circulavam em seus bairros. Desta forma, as histórias deste personagem, com seus discursos de crítica social, rejeição ao crime e denúncia ao poder, levavam seus jovens leitores a pensar sobre os males da sociedade em que viviam e a se posicionarem como sujeitos socialmente conscientes, que um dia seriam cidadãos ativos e capazes de operar mudanças neste quadro social.