5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo proporcionou a oportunidade de avaliar o atendimento do serviço prestado às crianças em tratamento no hospital Fundação Amaral Carvalho, no setor do centro cirúrgico, através da compreensão da experiência das mesmas, quando submetidas à punção de medula óssea e lombar, com sedação prévia. O objetivo proposto pelo presente trabalho foi este, como visto, que, respeitadas a limitações, circunstanciais ou não, a ele intrínsecas, a nosso ver, veio a ser atendido.
É claro que, somente o ato de encaminhar o paciente ao centro cirúrgico e submetê-lo à anestesia antes do procedimento não irá solucionar as inúmeras dificuldades que são inerentes ao tratamento, porém, não se pode olvidar que, esta simples conduta, ao menos, poderá, senão sanar, amenizar algumas delas, relacionadas à dor e à vivência forçada pela necessidade de se realizar técnicas invasivas, cogentes a esse tratamento e ao acompanhamento da doença.
A maior parte dos sujeitos entrevistados era do sexo masculino, de sete a quinze anos de idade, portadores de Leucemia Linfoblástica Aguda e procedentes de cidades do Estado de São Paulo.
Após a organização dos dados coletados, conforme o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) emergiram-se seis temas que possibilitaram a construção de 18 DSC.
As crianças, em suas entrevistas, deixaram claro que, a experiência delas serem sedadas, foi altamente positiva a elas, pois, além da sensação agradável de terem dormido, não se recordaram dos fatos ocorridos durante a realização dos procedimentos.
Discorreram também sobre a sua visão e o seu conhecimento, em relação ao tratamento, à doença em si, ora, algumas mostrando conformidade com a situação em que se encontram, na esperança da cura e da ajuda de Deus, ora, outras questionando a ocorrência de aspectos relacionados ao tratamento e à enfermidade.
Pôde ser observado que, o sentimento de temor, de medo, tanto em relação à dor, quanto acerca da realização do procedimento em si, esteve presente, mas em dimensão menor do que o esperado, não alcançando nossas expectativas. Talvez, pelo fato destas crianças, na sua maioria, já estarem condicionadas à dura rotina imposta por esta doença crônica. Apesar disso, houve aspectos positivos, como acima salientado, como o maior contato dos pacientes com a equipe atuante no hospital, vista por eles como adequada, no sentido de os tratarem com educação, atenção, afeto, lhes oferecendo, pois, cuidados assistenciais satisfatórios, independentemente de serem clientes particulares ou não.
É preciso ainda se ter a consciência de que, a prestação de assistência diferenciada não é suficiente, por si só, para se fazer cessar traumas tão constantes na vida destas crianças, acometidas de uma doença crônica e estigmatizada, que deixa caracteres marcantes em suas vidas.
Além do tratamento em si, os DSC revelaram, outrossim, as dificuldades enfrentadas pelas crianças e pelos adolescentes para se poder realizá-lo, como a dependência de transporte público, da rotina hospitalar, interferindo nas suas necessidades básicas, a distância do lar, o rompimento com sua família, sua escola, seus amigos, com suas rotinas de vida, enfim, com os seus mundos, com o meio, que, até a pouco tempo, eles estavam inseridos, e tiveram de serem de lá retirados, à força, não compreendendo o “porque” deles terem tido esse “fatídico destino”, circunstâncias essas que, indubitavelmente, comprometem suas alto-estimas, os
tornam ainda mais vulneráveis, fragilizados, às vezes, até arredios, sobretudo, por se tratarem de seres humanos em formação, sem, desenvolvimento mental, capacidade de entendimento, de discernimento, completos, ou seja, sem maturidade, aptidão, suficientes para a vida, por conta de suas próprias idades, e, não obstante isso, sendo obrigados a carregarem um fardo que, não se sabe nem, se uma pessoa adulta estaria preparada, para tanto, o que é perfeitamente inteligível.
Há aspectos de grande importância que surgiram de forma indireta nos discursos dados pelos entrevistados, que dizem respeito à organização do Centro Cirúrgico para o atendimento desta clientela.
Em primeiro lugar, consigne destacar, a questão da organização dos recursos humanos, pois, se eles não estiverem organizados, isso, fatalmente, causará demora na realização dos procedimentos, fazendo com que as crianças e os adolescentes tenham de esperar, às vezes, bastante tempo, para se submeterem ao tratamento indicado, lhes gerando tal situação ansiedade e medo.
Outro fator de igual relevância, e que, por isso mesmo, mister ser faz aqui ser mencionado, diz respeito ao espaço físico e aos recursos materiais destinados à recreação. Deveria existir uma área específica para a recepção dos pacientes, incluindo-se aí um espaço reservado às crianças para elas poderem se distrair, brincar, enquanto aguardam a sua vez de serem atendidas, bem como um local apropriado para que pudesse ser feita a punção venosa, a indução anestésica, quando fosse recomendada, e ainda um lugar dedicado à realização da Consulta de Enfermagem.
É patente que estas pessoas, ao se submeterem a tais procedimentos, criam a expectativa de serem curadas, mesmo que, para isso, tenham que passar por um
longo e sofrido processo de tratamento, até por uma questão instintiva de sobrevivência, mas não é por causa desta circunstância que, não devemos nos debruçar em, ao menos, tentar criar mecanismos que possam tornar este tratamento, senão suave, brando, quiçá até indolor, pelo menos, suportável, menos traumático, a elas.
Este é o papel dos profissionais envolvidos nesse processo, e que motivou a realização do presente estudo, levando-se em conta que, a suas atividades abrangem muito mais do que a simples atuação como operadores ou partícipes da área da saúde, integrantes de uma complexa engrenagem, mas, mais que isso, devem se aventurar no campo psico-social, tudo com vistas ao bem-estar do paciente, - objetivo principal deles -, que, no caso, a rigor, se encontra em situação de desamparo, necessitando urgentemente de assistência diferenciada (material não material), na acepção mais ampla da expressão.