4. DISCUSSION AND CONCLUSIONS
4.4. C ONCLUDING N OTES
Estes resíduos em abundância sugerem outra ordem estrutural para a cidade, fruto do processo de degradação das suas próprias estruturas dominantes, aquelas consideradas novas e modernas. Estes, os velhos, ditos entulhos, não mais submetidos a um controle modular, acabam entrando em estado de transmutação com o ambiente. Ao serem esquecidos, passam a constituir conteúdo próprio, vida outra, ainda que desprezível sob um ponto de vista modernista.
Estes rejeitos fazem parte da própria estrutura urbana da cidade. Não estão relegados a um espaço específico. Mas mais do que fazer parte da paisagem, eles criam a sua
própria paisagem, memória vivente, e por isso, em dissolução, sobre a cidade. Para Robert Smithson são também monumentos, mas esquecidos, perdidos no tempo e espaço da cidade.
No texto-obra “Um passeio pelos monumentos de Passaic”, Smithson faz o relato de um passeio que empreendeu em 30 de setembro de 1967, em Passaic (sua cidade natal), em Nova Jersey. Uma viagem exploratória para encontrar estes novos monumentos. Para isso, ele adentra um território periférico, suburbano, lugar esquecido, tomado pela indústria e em intensa desagregação estrutural, deslocado da própria cidade, ou aquilo que é considerado cidade. Smithson os fotografa, em uma experiência que definiu como “pseudoturística”. São estruturas pouco convidativas e sem qualquer atrativo especial mas que aprofundam uma realidade intrínseca: “monumentos autogerados pela paisagem, feridas que o homem impôs à natureza e que a natureza reabsorveu transformando o seu sentido” (CARERI, 2013, p.148). Ou seja, estes monumentos são restos inevitáveis de nossa própria ocupação e modo de vida territorial, mas que agora estão sendo absorvidos pela terra, destinados a uma reconfiguração que obedece a circunstâncias novas e imprevisíveis. A experiência de Smithson, portanto, trata e atenta para a necessidade de nos relacionarmos com estes resíduos e espaços, e os aceitarmos em sua indefinição - visto que não estão mais sujeitos a formas e conteúdos específicos - como parte integrante de nossa realidade urbana; como parte constitutiva de nós mesmos, um distante que está muito próximo.
Em meu estado de relação com a cidade de Fortaleza, fui assiduamente assediado por estes resíduos. Mas diferente da experiência de Smithson em Passaic, não precisei me deslocar para um território apartado do núcleo da cidade. Posso encontrá-los em qualquer lugar logo ao me encontrar com a rua. Sua abrangência desliza onipresente por todos os poros da cidade e o que parece é que sua contenção torna-se a cada dia uma tarefa tão impossível quanto improvável; reflexo simultâneo do processo de crescimento urbano.
O contato com estes rejeitos é inevitável. Para alguém que percorre as ruas de Fortaleza não será novidade deparar-se com pequenos ou grandes desarranjos estruturais que sobram ou vazam excessivamente. Incomodam, sobretudo, naquilo que revelam sobre a própria condição tempo-espaço da cidade: um passado que é já um futuro esquecido.
Não podendo me abster desse contato, assumi esta relação ambígua, diariamente recorrente, e passei a experimentar estas paisagens divergentes. Que tinham a dizer? Uma paisagem submersa, marginal, periférica; dotada de um dinamismo violento, impossível de acompanhar de modo analítico, uma confusão de materiais e materialidades, texturas e visualidades. Eu intuía de antemão uma intensa linha narrativa, que gritava a necessidade de ser desvelada.
Robert Smithson, The Monument of Passaic, 1967. Extraídas da série de 24 fotografias em preto e branco de 7,6 X 7,6 cm expostas pelo artista.
Dentre muitas presenças ensurdecedoras, notei a recorrência de garrafas de água mineral. Muitas delas ainda com água dentro. Ali estavam as garrafas de água mineral, desterradas em um imenso cemitério de águas mortas que, em vão, pedem a misericórdia dos homens: que pelo menos as deixem evaporar em paz. Quanto tempo ficariam ali, barradas, impossibilitadas de escoar?
Esta pequena percepção deu margens a uma infinidade de paisagens emergentes, e em cada uma delas observei um pequeno fragmento narrativo. Estes fragmentos, em constante atualização, perseveravam em imagens que atestavam sua própria condição. Notei, por exemplo, algumas bolinhas que se acotovelavam do lado de dentro de várias das garrafas que ainda estavam tampadas. Fruto da ação do sol, pareciam sufocadas, querendo sair, desesperadas para respirar, querendo secar. Outras, destampadas, expostas severamente ao sol, encarnavam uma aparência enrugada e sofrível, já um tanto deformadas, como se todo o ar de dentro estivesse, aos poucos, sendo drenado.
A rua acabou, a seu modo, por fundi-las em seu corpo espontâneo. Não podendo limpá-los, pôde absorvê-las, dissolvê-las em si, misturando-as com seus outros elementos. Isso, por sua vez, abriu um canal de abordagem. Como eu poderia me relacionar com estas micro paisagens? Descobri nestas presenças um modo de adentrar a cidade e ouvi-la em seus subterrâneos. Comecei a caminhar, obedecendo a determinados critérios metodológicos, a intenção implícita de recolher estas garrafas. Mas mais do que as garrafas em si, me interessava a composição urbana que elas infundiam, a depender de sua posição e de seu estado físico podiam sugerir uma diversidade infinda de cenas e imagens. Passei a registrar estas imagens em anotações poéticas após cada caminhada.
Ao mexer nestes pequenos mundos perdidos também mexi em mim mesmo. Passei a tomar a consciência dessa invasão urbana, aparente chegada repentina de uma multiplicidade de objetos estranhos – ainda que familiares quanto a sua função originária - mas que não nos cabem, não reconhecemos como nossos. Há uma roda furiosa que se volta contra nós e habitam as ruas da cidade. Mais cedo ao mais tarde, forçosamente ou não, vamos nos dar conta de que estamos sendo invadidos por nós mesmos. O que fazer com essa consciência?
Em primeiro lugar há que se assumir a desmistificação e o abandono dos privilégios que julgamos ter na cidade, impulso antropocêntrico de dar conta de tudo a custa de seguidas exclusões. Com esta inflexão, passa-se a compreensão de que devemos encontrar e “pensar novos modos de habitar e intervir na cidade” (CARERI, 2013, p.143). Esse encontro nos levará a outro modo de conceber e amplificar a cidade e tudo aquilo que a
atravessa. Longe de escapar as suas armadilhas, esta experiência nos leva a elaborar novas questões e estados de relações. Penetrar a pé as contradições da cidade contemporânea é estar desarmado de suas convicções e ansiedades. É passar a um novo estado de pensamento, uma espécie de democratização do conhecimento capaz de suprir as lacunas comunicacionais de uma experiência que pode ser muito mais ampla.
- Pegar estas garrafas me transmite uma sensação sufocada de aridez. Eu vou muito próximo do lixo. Depois de um tempo, não sou eu que me abaixo, é o lixo que vem até mim. Eu passo a ver demais, sou transbordado pelos detalhes. A cidade passa a ser preenchida por incontáveis poros e deles uma quantidade absurda de lixo escoa. São as espinhas da cidade.22
Talvez devamos retornar rapidamente ao início do século XX, em 28 de março de 1909, na pequenina Fortaleza de outrora, quando se deu a chegada do primeiro automóvel na cidade, para entender de que forma estas novas relações devem ser conjugadas.
Assim que desembarcou no porto o Rambler precisou ser rebocado por um jumento, dado que ninguém sabia ao certo como funcionava o seu motor. Só veio a rodar dias
22 Estas inscrições destacadas em itálico, e que no desenrolar do texto se tornarão mais frequentes, foram extraídas dos cadernos que denomino “Caderno de Caminhares” e “Caderno Quarto|Jardim”; ambos disponíveis em anexo.
depois, tendo sido alvo dos mais íntimos esforços para funcionar. A máquina, completamente desconhecida, gerou um inventário de boas histórias no tempo em que circulou solitária pelas ruas da cidade. O veículo movimentou-se ruidoso e deslocava-se lentamente, mas o mistério de suas engrenagens persistia e por diversas vezes ao sair para um passeio estancou, precisando ser rebocado constantemente. Houve uma intensa dedicação por parte dos proprietários a procura de desvendar os seus segredos. “Clóvis Meton e Alfredo Euterpino Borges meteram-se de corpo e alma a deslindar o segredo da misteriosa máquina. E dias e dias ficaram misturados com o seu maquinário esquisito” (MENEZES, 2000, p.131). Tudo foi feito e trabalhado de modo espontâneo, a custa de muitas improvisações, visto a impossibilidade de reposição de peças ou profissionais especializados.
Extraio deste exemplo o comportamento deveras afoito e infatigável que reuniu diversas pessoas na tentativa de adentrar suas engrenagens e desvendar os seus mistérios. O
Rambler tornou-se centro motor de uma esgarçada curiosidade de olhares e discursos, e
alimentou, a sua maneira, o cotidiano da cidade e de seus moradores. Mas a novidade passou. Outros automóveis chegaram e naturalmente toda a euforia fora apaziguada, o carro passou a ser integrado à cidade, cada vez menos estranho.
O que se acrescenta à cidade, neste presente eufórico e catatônico, portanto, já não tem nada de novo, as novidades são velozmente saciadas e absorvidas, ao tempo em que, estranhamente, a cidade vai tornando-se desconhecida. O contrário se dá: antes, o estranho chegava e nós nos aproximávamos interessados por saber e experimentar; hoje, tudo o que nos chega é familiar e nós passamos a nos distanciar, estamos estranhos a nós mesmos e ao espaço que nos rodeia. Grande parcela de nossa curiosidade foi deposta, pouco há a ser perscrutado ou posto em espaço de discussão.
A caminhada que quero aprofundar bebe de um movimento que quer deixar-se envolver novamente “de corpo e alma” com a cidade, este ser misterioso que aqui reside faz tempo, mas que poucos notam. Essa vontade furiosa de se aproximar e encarar os desconhecidos que endossam a maquinaria urbana deve ser transposta para além de um simples funcionamento – liga e desliga, põe e repõem -, é preciso investir em possibilidades de novas composições, que inventem, a seu modo, formas outras de funcionar. Não mais um objeto pronto que chega como núcleo motor e sobre o qual todos os olhares se aglomeram esbugalhados, para logo depois de consumido passar a ser objeto comum.
Trata-se de uma curiosidade criativa, curiosidade que cria, improvisa em um território supostamente constituído. Há um “isso” que está presente nas ruas e sobre o qual não sabemos apontar uma relação precisa. Esta relação necessita, portanto, tal como no
exemplo do automóvel, ser inventada. Há que se voltar para elementos disformes, indefinidos. Ora, se o caminhar deixou de ser força latente no dia a dia urbano, retorna-lo seria redescobri- lo em campos e sensações desconhecidas, seria retornar ao corpo e restitui-lo de sua capacidade de decidir seu destino. O mesmo se dará com a rua, e nesse caso, não somente estaremos inventando, como também estaremos sendo inventados.