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C OFFEE PRODUCTION , PROCESSING AND EXPORTING

5. CASE STUDY FROM CHIAPAS, MEXICO

5.3 C OFFEE PRODUCTION , PROCESSING AND EXPORTING

A mulher nordestina migrante vem sendo aprisionada em uma identidade carregada de não reconhecimentos, forjada por uma política de identidade de invisibilidade social construída desde os tempos da colonização do Brasil. Ela é invisível por sua etnogenia, é invisível por seu gênero, é invisível por seu tipo de trabalho,é invisível por sua condição econômica. Ela incorpora a “severinidade”, a visibilidade do estigma da invisibilidade em sua pior atribuição de irremediavelmente “miserável e inferior”. Uma identidade cristalizada que lhe foi atribuída, por interesse dos grupos de poder políticoeconômicos. Como alguém nesta condição pode desenvolver a autonomia identitária e ser capaz do exercício da cidadania para construção da democracia é comumente impensável pela sociedade que a institui.

Mas, o estudo de caso de Gardênia, baseado no sintagma identidade- metamorfose-emancipação, com aportes da teoria do agir comunicativo, por meio da análise interpretativa da narrativa autobiográfica, possibilitou a captura de aspectos da construção intersubjetiva indivíduo-sociedade, que levam à melhor compreensão da relação “singular-particular-universal” e de como se desenvolve o sentido emancipatório. Como resultado, primeiramente, tem-se que a dinâmica das personagens/papéis quanto aos tipos de formação contextual oferece a possibilidade de identificarem-se etapas no desenvolvimento do sentido emancipatório, a partir das mudanças na interação do indivíduo com a normatividade social e políticas de identidade dominantes.

No caso de Gardênia, foram identificadas 4 etapas, denominadas de sobrevivência, de enfrentamento, de luta e de querer fazer. A primeira deu-se do seu nascimento à adolescência, quando foi subjugada à normatividade do grupo familiar, caracterizada pelo trabalho escravo, sob violência física e verbal, que já revela a instituição da assimetria das relações interativas, o estabelecimento da relação hierárquica de desigualdade, visando à dominação, opressão e exploração efetivadas na passividade e no silêncio; um reflexo do adoecimento da família pela política de identidade de invisibilidade instituída no Brasil desde a colonização. A segunda etapa, caracterizada pela primeira migração e mudança das relações trabalhistas, do mangue- roça para a cidade, da escravidão para o trabalho assalariado formal e informal. Foi uma

etapa de continuidade de assimilação da normatividade da política de identidade dominante, porém, sob outra forma de trabalho. A terceira, deu-se sob nova migração, agora para uma cultura diferente, do Nordeste para o Sudeste, havendo nova mudança na relação trabalhista, mas baseada no estigma da “severinidade”; porém, inicia-se a luta para romper com a subjugação da política de identidade dominante e do estigma, buscando reconhecimento e exercício de autonomia. O marco deu-se pela apropriação do feminino, por meio da conscientização da corporeidade, ocorrida pela gravidez inesperada, trazendo efetivamente a decisão de mudar de vida. A quarta etapa caracterizou-se pela mudança nas relações trabalhistas, sem precisar haver migração geográfica, proporcionando a intensificação do exercício da autonomia, com a ruptura da interiorização da normatividade da política de identidade e do estigma, e a conquista do reconhecimento, da visibilidade social no meio da comunidade de sentidos (contratantes, família, vizinhos, etc.).

Como outro resultado, tem-se que a vergonha pode ser um sentimento/emoção regulador moral das relações interpessoais e intrapessoais indicativo de autonomia e não de heteronomia; quando feita a análise interpretativa dos seus contextos provocativos em relação à dinâmica das personagens/papéis e os tipos de formação contextual das mesmas. No caso de Gardênia, a tensão entre normatividade interiorizada e busca emancipatória, representada pela vergonha, dão indícios de que é o movimento da consciência propiciada pela atividade, que impulsionou a afetividade quanto ao sentimento e o processo de seus contextos provocativos.

Um terceiro resultado é o de que a análise interpretativa dos contextos evocativos do extraordinário pode indicar o desenvolvimento do agir comunicativo, de autonomia, pela pretensão de reconhecimento pelos outros atores; e não alienação religiosa por princípio. No caso de Gardênia, ocorre a deflação do extraordinário, à medida em que há o desenvolvimento da capacidade de seu agir comunicativo nos atos de fala com outros atores; por interoposição, vai ocorrendo a internalização do seu Deus e o desenvolvimento de seu agir comunicativo pela apropriação crescente da consciência de si; ela vai adquirindo competência interativa.

Certamente não podemos limitar a reflexão sobre a vergonha e a evocação do extraordinário unicamente ao que se apresentou nesta pesquisa58, mas o que se quer

evidenciar é exatamente a complexidade existente e a necessidade de aprofundamento que surge para a compreensão da dinâmica das categorias constituintes do psiquismo humano, quando se pesquisa baseado na ótica da identidade como metamorfose, do sintagma identidade-metamorfose-emancipação, e do agir comunicativo.

O que é importante frisar é o caráter fundamental de identificar os processos emergentes nas narrativas autobiográficas e suas interconexões, quanto à dinâmica das personagens e seus contextos formativos, as emoções e sentimentos emergentes (verbalizados e não verbalizados) que se destacarem e seus contextos provocativos, bem como suas relações com as etapas de desenvolvimento do sentido emancipatório, o desenvolvimento da autonomia e projetos de vida. A análise interpretativa da interconexão de tais processos é que possibilitará o desvelar de detalhes da construção intersubjetiva indivíduo-sociedade para novas reflexões a cerca da relação heteronomia- autonomia. Gardênia representa as muitas mulheres nordestinas migrantes em São Paulo, que a partir da década de 1980 começam a construir uma nova história. O desenvolvimento da autonomia identitária, o ser capaz de exercitar a cidadania para construção da democracia, começa a ser viabilizado.

58

Habermas (2012) baseia seu pensamento em Piaget e Kohlberg e não explora a participação das emoções no agir comunicativo. Acredito ser importante o desenvolvimento de pesquisas comparativas à teoria do agir comunicativo baseadas no pensamento de Vigotski a cerca da importância das emoções como mediação entre as categorias constituintes do psiquismo humano e os processos inconscientes (SAWAIA, 1995), para exploração do sintagma identidade-metamorfose-emancipação; mas, foge do alcance desta proposta de tese.

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