Imagem 32: Imagens do Mestre Zé do Balaio e de seu saber-fazer apresentadas na exposição “Vale do Gramame: memórias e vivências”. Arte de Daniella Lira, 2013.
A conversa com Seu José Maria Vicente da Cunha, conhecido como Zé do Balaio, aconteceu no bairro Valentina Figueiredo, para onde se mudou recentemente, com a
finalidade de ficar mais próximo dos netos e ajudar na criação deles. Enquanto conversávamos, sua netinha mais nova nos acompanhava e o mestre Zé do Balaio fazia mais uma cesta para me mostrar o seu trabalho. O material ficava espalhado pelo terreno de sua casa e vez ou outra saía para pegar um pedaço de cipó de titara ou de dendê, que cortava com habilidade com uma faca bastante afiada. As diferentes cores dos cipós fazem com que o acabamento da cesta fique com diferentes tonalidades, constituindo uma harmonia cromática. Ao final me presenteia com a cesta e agradece pela conversa.
Nascido e criado em Mituaçu, a sua fala está carregada da relação com o seu pai e do fato de ter aprendido com ele a fazer cestas e balaios de cipó, a partir apenas da observação. Novamente aqui é enfatizado o interesse do aprendiz na transmissão dos saberes. Não paritu de seu pai a iniciativa em ensinar o filho a fazer cestas. Foi ele próprio, até como uma traquinagem de menino e com medo de “levar uma pisa”, que começou a imitar o ofício do pai. E faz questão de dizer se tornou melhor do que ele e que conseguiu ganhar a vida com esse trabalho.
Meu nome é José Maria Vicente da Cunha. A minha idade, eu sou de 63 [tem 53 anos]. Eu nasci em Mituaçu, município do Conde. Filho natural de lá. Aí meus pais era humilde, meu pai trabalhava..., meu pai nunca gostou de trabalhar na agricultura. O negócio dele era aprender fazer cesta, balaio. A gente nem conhecia o que era covo [artefato de pesca de camarão], nem conhecia. Aí meu pai arrumou uma feira em Cabedelo, aí ele foi negociar em Cabedelo. Aí fazia cesta e saía de Mituaçu pra Cabedelo, negociar lá. Era uma dificuldade muito grande, ia de trem. A gente saía ali de Mituaçu pra pegar o ônibus ali em Gramame. Eu lembro, eu era pequeno e ele me levava também. Só sei que foi e foi o tempo que ele separou da minha mãe, aí deixou nós tudo pequeno, aí meu pai deixou de trabalhar na feira. Aí ele criou os filho dele só com balaio, vendendo na feira.
Aí via ele fazendo e eu fui crescendo, aí via ele fazendo. Eu com ele pros mato também e eu aprendi tirar com ele. Tinha vez que ele nunca deixava eu fazer esses negócio. “Se você gastar os meus cipó, eu vou lhe dar uma pisa.” Aí minha madrasta, a outra mulher dele, eu sei que: “Oh, Zezin. Num tem cipó aí, na capoeira? Você vai lá, tire. Você num quer aprender?” “Quero.” “Então deixe os cipó do seu pai aí, pra ele num dá em tu.” Tinha umas vez que ela era uma parte boa e outra parte ruim, né. Eu sei que eu ia nas capoeira e tirava aquele cipó de rato e aí eu fazia umas cestinha pequena. Saía aleijada, mas eu fazia. Aí uma vez, eu disse “Eu quero aprender a outra
de fazer feira.”. Aí eu fui e peguei umas titara dele, abri elas e fui fazer uma cesta. Comecei fazer uma cesta e já tinha feito em casa lá. Aí eu truxe lá pra fora, fiz o começo dela, botei ela de cu pra cima. Aí olhei, disse: “Ah, rapaz! É assim.” Aí eu comecei fazer, eu sei que eu fiz a cesta. Quando eu fui levantando ela, eu fui cumbucando, a cesta. Aí eu fui e desmanchei a parte, aí continuei de novo. Aí olhei ela, eu sei que eu fiz essa cesta. Botei asa, enrolei e deixei lá trepada. Aí quando ele chegou, eu tinha ido pra cacimba, buscar água. Minha madrasta disse: “Bau.”. E ele: “Quié?”. Toda vida ele foi bruto. Inda é, ainda. Tá vivo ainda. 75 anos ele tem. Bota os dois assim, eu sou mais vei. [risos]. Eu sei que ele disse: “O que é? O que foi que Zezinho fez dessa vez?” Ela disse: “Vem ver, olha o que ele fez.” “Eu não acredito que foi ele não.” “Foi! Foi ele que fez.”. Aí só sei que eu já vinha chegando. Aí disse: “Eita, porra! Eu vou apanhar, eu vou apanhar [risos]”. “Foi tu que fizesse?” “Foi.” “Vai, bota a água lá dentro e eu quero ver você fazendo uma dessa aqui.” Aí eu só sei que na frente dele, meu amigo, saiu aleijada a cesta. “Se num fizer, você leva uma pisa.”. “Ainda tem mais essa? Danou-se!”. Eu nervoso, né. Pensei que ele ia dá em mim. Eu tava nervoso na hora que eu tava fazendo ela. Aí eu tirei o nervosismo e eu comecei fazer. Aí eu tava fazendo mais melhor do que ele. Aí ele só butava eu pra fazer. Ele saía pra andar: “Olha, eu quero seis cesta hoje.” Tô lascado! Vou fazer. (Mestre Zé do Balaio, entrevista concedida em 06/08/2015).
Tanto seu pai quanto Zé do Balaio conseguiam sobreviver da venda das cestas e balaios. Ele não vê nenhum proveito de sua experiência no trabalho com construtoras, onde era servente de pedreiro. O trabalho, além de ser duro, não remunerava bem e precisava da ajuda de outras pessoas. Ele se satisfazia mais com a sua produção artesanal, por meio da qual conseguia comprar as coisas de que necessitava.
Eu fazia e dia domingo, a gente pegava uma ruma de cesta. Era 20, 30 cesta, pegava o ônibus de Gramame e ia pra feira do Oitizeiro. Quando a gente perdia [o ônibus], ia de Mituaçu inté no Oitizeiro de pés, nós ia com uma ruma de cesta. Chegava lá, os freguês dele era briga: “Cadê a minha?” “Ainda tem ali.”. Ele escondia as cesta, até, pros freguês dele mesmo. Aí comecemos. Depois que eu aprendi, levava 50, 60 cestas. Eu ficava era com raiva, homi. Naquele tempo vendia muitas coisas. Agora depois que inventaram essas sacolas, aí acabou. Eu vendia, eu cansava de levantar e levar 50 cestas sozinho. Inventei, inventaram o balaio. Aí fui fazer o balaio.
Tinha semana que eu fazia 60, 70 balaio. Entregava. Eu tinha um freguês no Mercado Central...
Aí eu saí de Mituaçu, vim pro Grotão. Eu ganhei uma casa no Grotão, mas eu era de menor e a casa passou pro nome de pai. Passei um bocado de tempo trabalhando em firma, sem eu fazer nada. Foi o tempo que meu pai aposentou, aí eu fui arrumei mulher. Quando saí da firma, fui direto voltar de novo, fazer balaio, inté agora. Não deixei não. ... Na firma trabalhava de servente de pedreiro, mas, rapaz, eu ganhava uma mixaria, uma sola! Eu sabendo, tendo profissão, eu to nesse matador, levando sol e sereno aqui. Levando chuva. Tinha vez, quando não dava pra ir, a gente perdia dois dia. Mas eu to abestaiando mesmo, viu? Eu vou sair dessa bosta, eu vou é fazer minhas cesta. Eu num comprava uma roupa, quando trabalhava em firma. Depois que eu comecei fazer minhas cesta e entregar, comecei ter as coisas. Eu não tinha nada não, era o povo quem me dava. Eu não tinha nadinha não. Eu comecei fazer as coisas, faço samburá, faço covo [artefatos de pesca], faço cesto de roupa suja, faço baú... Isso aí é tudo fundo de cesta, olha. Faço de todo tipo, faço redonda, oval, e faço isso aqui também [me mostra o material que tem em sua casa e algumas cestas prontas]. Se você esperar, leva uma agora. (Mestre Zé do Balaio, entrevista concedida em 06/08/2015). E faz questão de falar que para lidar com os cipós é preciso pedir licença. É uma forma de respeito com a planta e, se não houver a licença, você sai machucado.
Esse bicho aqui [cipó de dendê], a gente tem que pedir licença pra tirar ele. Olha, isso aqui foi ele [me mostra uma cicatriz na mão]. Enfiou aqui um espeto. Eu me esqueci. Quando eu dei com a faca, eu dei assim e segurei a palha. Aí tinha um por baixo. E espetou assim. Tem que pedir licença pra planta pra tirar ela. Tem que falar assim: “Dê licença, que eu vou tirar você.”. Aí não acontece nada. (Mestre Zé do Balaio, entrevista concedida em 06/08/2015).