2. LITERATURE STUDY
2.9. C ASING C OLLAPSE R ESISTANCE
As mães participantes desta pesquisa mantêm estabilidade em seus relacionamentos. Duas são casadas: Ivone há mais ou menos vinte e um anos e a Maria, há mais de dez anos.
Joana está separada após o terceiro casamento e cuida sozinha dos filhos.
Das famílias constituídas por casais, Ivone não chega a ter um salário mínimo de renda assegurada por mês. Declarou que recebia Bolsa Família e era integrante do Programa do Leite do Governo do Estado. No segundo semestre de 2011, conseguiu um emprego em que recebia um salário mínimo e o marido fazia/faz pequenos serviços.
Na casa de Maria, o marido trabalha e ganha mais que um salário mínimo, a filha recebe o benefício de um salário mínimo devido à doença e ela, trabalha na mesma casa, há alguns anos, como faxineira dois dias por semana, além de vender produtos de beleza em casa.
A terceira família é monoparental, Joana trabalha e recebe um salário mínimo, sendo ajudada pelas pessoas com quem trabalha. Inclusive a sua casa foi feita com a ajuda desses amigos do trabalho. Ela vive com a avó e os quatro filhos, frutos de três relacionamentos. Os dois mais velhos são do primeiro casamento e os mais novos são dos seus dois últimos relacionamentos, um de cada companheiro diferente. Não recebe auxílio de nenhum dos seus ex-companheiros.
Ensaiou colocar o pai dos filhos mais velhos na Justiça, mas desistiu de buscar a ajuda paterna porque ele não foi achado pelo fiscal de justiça quando ela moveu a ação. Tem a pensão da avó, mas o dinheiro desta se reverte todo para a própria, porque é uma senhora muito doente.
Todas as três famílias são oriundas do interior, do espaço rural, mas vivem em Natal há bastante tempo. Joana e Maria moram em casas próprias e Ivone, em casa alugada, reside no espaço da casa somente a família, não havendo parente (tios, primos e irmãos) que compartilhem a moradia. Só a família monoparental (Joana) alarga esse universo, porque a avó vive com eles.
A situação de escolaridade das famílias é de não terem estudado enquanto crianças, nem de terem parentes que estudaram regularmente. Ivone não concluiu o Ensino Fundamental anos iniciais, Maria não foi clara sobre até que ano estudou, e Joana concluiu o Ensino Médio na Educação de Jovens e Adultos (EJA) após adulta e mãe (em 2010/2011).
Duas mães nasceram na década de 1970 e uma não declarou a idade. Todas saíram de casa muito cedo. Maria, ainda criança, com nove anos e as outras duas, adolescentes, Ivone, com doze e a Joana, com dezessete anos. Esta última, já mãe de dois filhos. Mas todas começaram a trabalhar ainda crianças: Maria, aos nove anos, como doméstica; Ivone, na agricultura familiar, até os doze, quando fugiu de casa e iniciou sua vida na profissão de doméstica; Joana vendia frutas e verduras na rua para ajudar nas despesas de casa.
Joana e Ivone declararam não ter muito lazer, sendo a igreja o local que mais alegaram frequentar. Ivone e Maria se declararam evangélicas e Joana, católica. A religiosidade é uma das marcas em suas falas.
Essas mães, conforme já explicitado, não foram escolhidas pela semelhança nas suas histórias de vida, mas pelas questões relacionadas às práticas escolares dos filhos: atitudes e comportamentos que se faziam presentes na escolarização dos seus diferentes filhos na instituição de ensino. Todavia, no transcorrer das conversas dialógicas, observamos que relatavam um repertório comum de histórias, valores e contextos culturais: trabalho infantil, família de origem de agricultores, ausência não relatos de memória de afetividade familiar, desconhecimento familiar sobre escola e a sobrevivência como norte em “suas escolhas”, demonstrando em suas falas uma prática cultural compartilhada, sendo sobre isso que discorreremos nas análises que se seguem nos próximos capítulos.
3 AS REFLEXÕES NO/DO CAMINHAR: OS SENTIDOS E AS COMPREENSÕES DAS FAMÍLIAS SOBRE A ESCOLA
Assim, porque a sua vida é completamente diferente da minha. Não é isso? Você teve uma criação diferente. Uma vida diferente. Não é assim? Um trabalho diferente. Então, pelo seu modo de vida, o pensar é diferente.
Maria
A partir deste capítulo passamos a analisar o conteúdo das conversas dialógicas mantidas com as mães, nos detemos nas compreensões e nos sentidos que elas atribuem à escola. As enunciações maternas, embasadas em suas histórias, compõem os seus pensares acerca da escola (escolarização), um “pensar diferente” que se forja nas experiências de vida, como nos revela Maria na epígrafe acima.
As mães recorrem às memórias como elemento de reconstrução/explicação para as suas vidas e caracterizam os momentos vividos como fatos históricos, porque estão situados em um espaço e tempo, são permeados por contextos sócio-históricos, políticos, econômicos e culturais singulares. Dessa forma, elas nos guiaram na compreensão de como se construiu contextual e historicamente as suas compreensões e os sentidos de escola em suas vivências/experiências escolares.
Nessa perspectiva, este capítulo foi estruturado de acordo com as temáticas que se destacavam nos seus discursos sobre as suas vidas e que constituíram elementos para se reflexionar sobre a dinâmica vida e escola. Nessa dinâmica há questões complexas que envolvem a premência da sobrevivência, o trabalho e as práticas familiares cotidianas, calcadas em um fazer familiar e que serão consideradas ao final do capítulo, quando se reflexiona sobre como compreendem a escola e que sentido lhe atribuem.