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ima Barreto1 foi um dos cronistas mais perceptivos das transformações urbanas ocorridas no Rio deJaneiro, entre fins do século XIX e o início da década de 1920. De sua pena saíram constatações importantes acerca do processo de introdução dos elementos norte-americanos naquela plaga. Crítico ferrenho deste processo, Lima Barreto exprimiu o incômodo provocado pelas relações comerciais e culturais do Brasil com os Estados Unidos, como esta passagem, de um artigo de 1919, revela: “nós não estamos ficando surdos com as coisas americanas, mas (...) cegos; e, na clássica imagem, somos como mariposas que a luz atrai, para matá-las” (LIMA BARRETO, 1919, citado por TOTA, 2000: 9).
Esta declaração de Barreto deixa clara a opinião de uma parcela da sociedade urbana brasileira com relação ao americanismo, nos anos da República Velha. Paradoxalmente, ela revela também que, ainda hoje, quando se tenta analisar a recepção dos produtos, modelos, técnicas e relações culturais do Brasil com os Estados Unidos pouco se sabe sobre as “coisas americanas” que estavam à disposição do cidadão urbano do período retratado por ele. São poucos os estudos que permitem identificar o que havia de norte-americano antes da primeira metade do século XX, no país. Focando aspectos relativos às representações dos Estados Unidos no Brasil, este capítulo procura mostrar, sistematicamente, alguns traços que permitem esclarecer a atuação dos profissionais do espaço ligados ao mundo americano. Para tanto, convém acompanhar os movimentos recíprocos entre Brasil e Estados Unidos no arquitetar de suas relações comerciais e culturais.
1 Affonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 1881, e faleceu na mesma cidade, em 1922. Seu pai, João Henriques Lima Barreto, era um tipógrafo, e sua mãe, Amália Augusta Barreto, era filha de ex-escrava. Lima Barreto, apesar de sua mãe ter sido educada formalmente até tornar- se professora, vivenciou muitas situações de preconceito, a começar por sua ascendência negra. Contudo, o escritor sofreu rechaços também por seu nível educacional, julgado baixo por seus pares. O fato de seu pai ter sido doente mental somado à sua opção por viver no subúrbio carioca, também o deslocou do circuito erudito de sua época. Lima Barreto foi escritor de importantes obras literárias nas quais sempre apontou a introdução de novos comportamentos na sociedade. Foi, ainda, um dos mais astutos e diretos cronistas da vida política e urbana do Rio.
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É certo que os meios de comunicação, até a primeira metade do século XX, aprimoraram-se década a década, permitindo, assim, que se passasse do domínio da pausada informação telegráfica à estonteante e frenética era do rádio, até o culminar da televisão, nos 1950. Inegavelmente, estes três veículos de comunicação, juntamente com o cinema, muito devem aos Estados Unidos, principalmente na catalisação do processo de produção de massas. Visando sua consolidação como principal distribuidor de produtos industrializados, os Estados Unidos soube divulgar seus produtos por meio de algo que é considerado, por muitos autores, como uma das molas-mestra do capitalismo: a propaganda (PADILHA, 2001). Valendo- se da aura sedutora das novidades, nos oitocentos; de atores populares, nas primeiras décadas do século XX, e da criação da necessidade de consumo, nas décadas centrais daquele século, a propaganda foi uma importante ferramenta para a construção da recepção do mundo americano, no Brasil.
Embora se saiba que a propaganda cria demandas na população consumidora objetivando a capitalização dos industriais, pode-se afirmar que nas últimas décadas do século XIX, ao lado deste, havia um outro objetivo na propaganda emanada dos Estados Unidos: vencer a concorrência exercida pela Grã-Bretanha e pela Alemanha na competição industrial ao redor do mundo. Estas duas nações eram, em fins daquele século, os principais centros industriais do planeta, os quais produziam desde objetos de uso doméstico até imóveis completos que eram vendidos por catálogos, como os da indústria escocesa MacFarlane, especializada na produção de casas, estações de trem, abrigos e igrejas em ferro e aço (COSTA, 2001). A Alemanha também era muito importante na educação tecnológica e na conseqüente produção e venda de aparelhos e peças, em franca expansão naquele tempo. Desta forma, aos Estados Unidos competia criar uma estratégia que permitisse, num primeiro momento, erradicar as ações britânica e alemã no suprimento de produtos em seu próprio país e, depois, incrementar sua própria produção industrial visando a ampliação do leque de países receptores de suas mercadorias. Esta iniciativa estadunidense perpassou a constituição de redes simbólicas de representação, como as exposições internacionais, que foram, ao mesmo tempo, vitrine e espelho da americanização, sobretudo no Brasil.
Fig. 47 - máquina de costura exibida durante a “Centennial”, nos Estados Unidos, em 1876. Fonte: WEBER, 2005.
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2.1 – 2.1 –2.1 – 2.1 –
2.1 – Cir Cir Cir Cir Circulação de pessoas, idéias e prculação de pessoas, idéias e prculação de pessoas, idéias e prculação de pessoas, idéias e produtosculação de pessoas, idéias e produtosodutosodutosodutos
“Recebi e agradeço uma revista de São Paulo que se intitula Klaxon. Em começo, pensei que se tratasse de uma revista de propaganda de alguma marca de automóveis americanos. Não havia, para tal, motivos de dúvidas, porque um nome tão estrambótico não podia ser senão inventado por mercadores americanos, para vender seu produto.”
Lima Barreto, 1922 [2005].
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omo pontuou Jeffrey W. Cody no livro Exporting American ArExporting American ArExporting American ArExporting American ArExporting American Architecture: 1870 - 2000chitecture: 1870 - 2000chitecture: 1870 - 2000chitecture: 1870 - 2000chitecture: 1870 - 2000 o marco inicial da afirmação estadunidense no campo das relações comerciais entre os países da América, e mesmo da Europa, está inscrito no efeito desempenhado pela Exposição do Centenário da Independência dos Estados Unidos. A International Exhibition of Arts, Manufactures and Products of the Soil and Mine, mais conhecida como The Centennial Exhibition, ocorrida na Philadelphia,2 entre maio de 1876 e meados de 1877, é umponto-chave tanto para o livro de Cody, quanto para esta tese. A iniciativa, além de comemorar o feito que lhe dava nome tinha, também, o objetivo de expor inventos estadunidenses a vários países do mundo que participavam da feira (PESAVENTO, 1997). Imbuída de um caráter “celebrador do progresso”, como aponta Sandra Jatahy Pesavento, e seguidora do mesmo ideário-motriz das Grandes Exposições Internacionais, surgidas em 1850, na Inglaterra, a Exposição do Centenário da Independência estadunidense mostrava, com preponderância, as criações dos Estados Unidos3 e revelava as intenções expansionistas
dos industriais daquela nação. A Centennial, segundo Pesavento
“foi acompanhada da publicação de uma série de obras ilustrativas e explicativas do que fora capaz aquela nação ao longo de cem anos de sua vida independente. O sentido laudatório era manifesto, e a América era apresentada como a terra da promissão, o maior exemplo de democracia já construído no planeta, a nação que, a partir de uma origem modesta e tímida, foi capaz de se igualar, após um século, com as maiores potências do mundo. (...) Segundo sua auto-apreciação, os Estados Unidos não só haviam dado ao mundo uma demonstração do seu gênio como a América comprovava ser uma nação do primeiro mundo (...) [que superava os velhos países da] Europa pela sua produção em série e pelos engenhosos inventos que tornavam mais fácil e cômoda a vida cotidiana (PESAVENTO, 1997: 149, 152).
Essa gama de novidades “facilitadoras da vida cotidiana” foi explorada com astúcia pelos anfitriões yankees. Como mostrou Cody, o sucesso da Centennial foi tamanho que a imprensa de todo o mundo ajudou a cristalizar a idéia dos Estados Unidos como a terra dos maiores avanços tecnológicos do século XIX
2 A Philadelphia foi, até a inauguração de Washington, Distrit of Columbia, em 1800, a capital norte-americana. Tal centro, por este motivo, tornou-se o palco da assinatura da Declaração da Independência e, cem anos depois, foi escolhido como o lugar natural para a celebração do centenário de nascimento da república norte-americana. 3 Entre os produtos mostrados estavam máquinas de escrever, armas, lanternas, fornos, máquinas de costura, vagões de trens, carruagens, equipamentos agrícolas etc (WEBER, 2005. Disponível em www.assemblymag.com. Acesso em 04 jul 2005).
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Fig. 48 - Gravura que retrata a abertura da “Centennial”, nos Estados Unidos, em 1876. Fonte: POST, 1976.
Fig. 49 - Aspecto interno de um dos pavilhões de exposições da Exposição da Philadelphia, em 1876. Fonte: POST, 1976. Fig. 50 - Parte da implantação da “Centennial” no “Fairmount Park”, na Philadelphia. Fonte: MATTIE, 1998.
Fig. 51 - Planta do rés-do-chão do pavilhão de exposições da “Centennial”. Fonte: PENNSYLVANIA BOARD..., 1878.
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Fig. 52 - “Memorial Hall”, anexo, na Exposição de 1876. Fonte: PENNSYLVANIA BOARD..., 1878.
Fig. 53 - Planta do “Machinery Building” da “Centennial”. Fonte: PENNSYLVANIA BOARD..., 1878.
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(CODY, 2003: 6-7). O mesmo autor revelou que, ainda durante os meses finais da mostra, em 1877, a dupla de jornalistas Charles Root e Franklin Tinker estabeleceu uma publicação destinada a divulgar e a vender os produtos industrializados dos Estados Unidos, por terem vislumbrado o sucesso alcançado pelos inventos de seu país, naquela exposição. Esta publicação foi batizada de The American ExporterThe American ExporterThe American ExporterThe American ExporterThe American Exporter e se tornou uma das principais fontes de informação para vendas no além-mar, durante as décadas finais daquele século. O sucesso e a repercussão desta revista foi grande, permitindo, inclusive, a anexação de outro periódico de mesma linha editorial, denominado American Mail and Export JournalAmerican Mail and Export JournalAmerican Mail and Export JournalAmerican Mail and Export JournalAmerican Mail and Export Journal (CODY, 2003: 7). A publicação resultante da junção das duas revistas se inseriu, assim, numa disputa corpo-a-corpo com os britânicos e com os alemães que controlavam os principais centros industriais do planeta. Como mostrou Jeffrey Cody a revista foi enviada para quase todos os países da América: a Argentina, por exemplo, importou moinhos de vento fabricados em aço e madeira para seus campos de trigo valendo-se das reportagens ali estampadas, e vários países da América Central adquiriram casas de madeira pré-fabricadas por conta de anúncios de empresas especializadas anunciadas, na publicação (CODY, 2003: 8, 5).4
O Brasil também foi alcançado pelos efeitos da feira em questão, sobretudo com a viagem do Imperador Pedro II como convidado do governo americano. A presença do imperador brasileiro no evento inaugurou um novo momento nas relações Brasil – Estados Unidos, em várias frentes. Embora tenha declarado que viajava como “cidadão brasileiro e não como chefe de Estado,”5 Pedro II despertou interesse na imprensa
norte-americana pelo fato de ser “a primeira vez que um monarca pisava território norte-americano independente” (SCHWARCZ, 2003: 374). A presença do chefe imperial brasileiro em terras setentrionais permitiu a visita, ao longo de quase três meses, a escolas, a instituições científicas e a museus. Pedro II também inaugurou estradas e fábricas; conheceu Niagara Falls e viu de perto o legado de um de seus intelectuais preferidos: o naturalista Louis Agassiz.6 O que convém mostrar é que a presença de D. Pedro
II nos Estados Unidos, bem como nas outras localidades estrangeiras que visitou7, lhe garantiu o contato
com várias invenções de seu século, como a fotografia,8 o telefone9 e a eletricidade,10 as quais acabaram
sendo trazidas e divulgadas no Brasil, por sua mão.
A viagem à exposição da Philadelphia, muito embora apareça na história que trata das relações Brasil – Estados Unidos como um caso isolado, não deve ser vista desta forma. Apesar de não ser possível criar uma genealogia das relações intelectuais, comerciais e urbanas com aquele país tomando como fato inaugural apenas a presença de D. Pedro II lá,11 pode-se usar a excursão do imperador como um marco
4 Não se localizou edições do The American Expoerter, no Brasil. Contudo, outros catálogos de origem norte-americana foram localizados no país, como o United States Steel Products Company, editado em New York, em 1916. Esta edição pertence ao acervo do CONDEPHAAT e traz fotografias e descrições sobre peças para ferrovias, pontes, capitéis para colunas de construções, pregos, taxas para sofás etc.
5 Conforme assinala Lilia Moritz Schwarcz, em As Barbas doAs Barbas doAs Barbas doAs Barbas doAs Barbas do Imperador:
Imperador: Imperador: Imperador:
Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, “no exterior, o imperador fazia questão de tirar o “Dom” e assinar apenas Pedro de Alcântara; portava seu sobretudo preto e gostava de afirmar: ‘O imperador está no Brasil. Eu sou apenas um cidadão brasileiro’.” (SCHWARCZ, 2003: 373). 6 É Marcus Vinicius de Freitas, em Charles FCharles FCharles FCharles FCharles Frederick Hartt:rederick Hartt:rederick Hartt:rederick Hartt:rederick Hartt:
um naturalista no Império de Pedro II quem aponta o evento: “Quando de sua ida aos Estados Unidos em 1876, por ocasião da Exposição Universal da Filadélfia, Pedro II janta em casa de Elisabeth Agassiz, em Cambridge – o marido já havia morrido -, com Emerson e Longfellow presentes. Ligando-se aos cientistas, Pedro II, ligava-se aos artistas e aos poetas” (FREITAS, 2002: 119).
7 Dom Pedro II viajou, pela primeira vez a Portugal, França, Alemanha, Itália, Palestina, Ásia Menor, Egito, em 1872; em 1876 foi aos Estados Unidos, Canadá, a partes da Ásia e da África; ainda passou pela Alemanha, Dinamarca, Suécia, Noruega, Rússia, Turquia, Grécia, Áustria, Bélgica, Holanda, Suíça e concluiu a longa viagem por Portugal. (SCHWARCZ, 2003: 361-371; 373 - 379).
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importante para o início de um relacionamento novo entre as duas nações, o qual veio a ser sucessivamente ampliado durante as décadas seguintes. A presença do monarca brasileiro junto aos inventos, aos produtos e em meio à simbologia norte-americana de “desenvolvimento e progresso”, metaforizou o início de uma mudança de aceitação de paradigmas, no Brasil. D. Pedro II, como mostra Lilia Schwarcz, concedeu aos Estados Unidos o epíteto de uma terra progressista: “a grande nação americana” (SCHWARCZ, 2003: 373). Esta afirmação serve para ilustrar que não havia, como tradicionalmente se pensa, um distanciamento tão grande do Brasil em relação ao mundo americano no que concerne à idéia de parceria comercial e de referência cultural. O monarca que se pretendia cientista conheceu, experimentou e encomendou produtos norte-americanos que, não tardaram muito, vieram a fazer parte das cidades e das casas dos brasileiros. Mas, além disso, o imperador imputou respeitabilidade à ciência norte-americana e aos feitos dos profissionais lá atuantes, razões que ajudam a entender alguns caminhos da interação entre o Brasil e os Estados Unidos, a partir da década de 1870.
A participação do Brasil na feira de 1876 também gerou a idéia de que o país poderia se tornar mais próximo dos Estados Unidos não apenas para a obtenção de tecnologias e produtos industrializados, mas, especialmente, para ampliar seu mercado externo. A intenção brasileira era incrementar a venda de produtos agrícolas, como a borracha, o cacau e o café, que era usado como bebida estimulante pelos americanos, muito embora houvesse a intenção de demonstrar os diversos tipos de indústria das províncias. Dessa forma, em 1874, foi instituída, por decreto imperial,12 a comissão encarregada de organizar a participação
brasileira no certame. A comissão ficou alocada dentro da pasta do Ministério da Agricultura e era constituída pelo Conde D’Eu (presidente), pelo Visconde de Jaguary (1º vice-presidente), pelo Visconde de Bom Retiro (2º vice-presidente), pelo Visconde de Souza Franco, pelo Comendador Joaquim Antônio de Azevedo (membros), pelo Conselheiro Francisco Ignácio Marcondes Homem de Mello e pelo Conde do Bonfim (comissários) (ALMANAK LAEMMERT, 1874: 81; 1876: 91). Por meio do relatório do Ministro da Agricultura, publicado no Almanak LAlmanak LAlmanak LAlmanak LAlmanak Laemmertaemmertaemmertaemmertaemmert, em 1875, foi possível não apenas entender as etapas preparatórias da exposição do Brasil na Philadelphia como, também, qual era o conceito empregado pela comissão nos trabalhos:
”Para promover e dispor os trabalhos preparatórios da exhibição dos productos brasileiros no comparthimento, com a extensão de 1851 metros quadrados, que lhes foi destinado no palacio construido no parque Fairmount em Philadelphia, nomeei o chefe da legação brasileira em Washington, Conselheiro Antonio Pedro de Carvalho Borges. (...) Em abril do corrente anno deverão realizar-se nas provincias exposições dos respectivos
fotografar, chegou ao Brasil, em 1840, e D. Pedro II, na época, com 14 anos, foi um dos primeiros brasileiros a adquirir o invento, atribuindo-lhe respeitabilidade (MAUAD, 1997: 197).
9 Durante a exposição norte-americana, Dom Pedro II testou o invento de Alexander Graham Bell, e encomendou um aparelho que, em 1877, foi instalado no Palácio Imperial de São Cristóvão, no Rio.
10 É interessante notar, também, como aponta o historiador João Luiz Máximo da Silva, que a viagem de Pedro II aos Estados Unidos, serviu para viabilizar, em certo sentido, a introdução da energia elétrica no país, entre 1880 e 1900, a partir do “surgimento de pequenas usinas geradoras (...), sempre ligadas ao fornecimento de luz e força motriz para fábricas” (SILVA, 2002: 15).
11 Tal construção genealógica demonstraria certa ingenuidade histórica, já que, a despeito da pouca regularidade desses contatos, essas relações já existiam antes da viagem do monarca, e se fizeram presentes no ideário da Inconfidência Mineira, no século XVIII, bem como na formulação do Código Criminal Brasileiro, por volta de 1830, como mostrou Philip Gunn, citando Wright (1978): “o contato de políticos brasileiros com essa obra [Código Criminal dos EUA] é comprovado no ‘Relatório Confidencial’ do encarregado de negócios dos Estados Unidos no Brasil em 1830. Nesse relatório [revela-se] que o Marquês de Abrantes solicitou por empréstimo uma tradução francesa do Código, pois era feita, então, a ‘revisão das leis penais e criminais do Brasil’” (WRIGHT, 1978, citado por GUNN, 1986: 80).
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Fig. 54 - Comitiva imperial em visita a “Niagara Falls”, em 1876. Fonte: WILLIAMS, 1937.
Fig. 55 - Charge mostrando Dom Pedro II como cientista, após sua visita aos Estados Unidos. Fonte: WILLIAMS, 1937. Fig. 56 - Pavilhão brasileiro na Exposição da Philadelphia, em 1876. Fonte: POST, 1976.
Fig. 57 - Stand brasileiro num dos pavilhões de exposições da “Centennial”, em 1876. Fonte: POST, 1976.
Fig. 58 - Presidente Ulysses S. Grant e Dom Pedro II acionando o “Corliss Engine” na abertura da “Centennial”, em 1876. Fonte: PESAVENTO, 1997.
Fig. 59 - Um boletim científico distribuído por ocasião da “Centennial”, retratando os avanços tecnológicos da Segunda Revolução Industrial nos Estados Unidos. Fonte: POST, 1976.
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productos industriaes, e na corte a 7 de Setembro proximo vindouro, para que se possa fazer seleção dos que tenhão de ser enviados a Philadelphia. (...) Fiz as mais instantes recommendações ás presidências das provincias, para que envidassem todos os esforços, afim de que se obtivessem os melhores productos, e em quantidade que tornassem patentes a actividade e o adiantamento dos diversos ramos da industria nacional. Estas recomendações têm sido em geral observadas, sendo de esperar que o Brasil ocupe lugar de distincção entre os povos cultos, mesmo no conceito, embora severo, dos profissionaes norte-americanos” (ALMANAK LAEMMERT, 1876: 92-93).
Já nos Estados Unidos, em 1876, Pedro II, ao lado do presidente norte-americano Ulysses Simpson Grant, acionou “o engenho Corliss, gerador que provia força para todas as máquinas” do Machinery Hall, o pavilhão destinado à exibição dos avanços tecnológicos dos países participantes (KUHLMANN JÚNIOR, 1996: 38). O gerador Corliss – “grande como uma casa”, na linguagem de seus contemporâneos – anunciava o caráter de feitos superlativos no ramo tecnológico que seria uma das marcas da civilização norte-americana durante todo o século XX. Pedro II, “como um cientista interessado”, na interpretação de Lilia Schwarcz, seduziu-se pelos sinais de progresso que a feira demonstrava.
Após a Centennial, o Brasil foi contatado por algumas instituições americanas voltadas à ciência. Essas instituições estavam interessadas em trocas com as instituições similares brasileiras, como mostra Heloísa Maria Bertol Domingues. Esta autora revelou, ainda, que em 1876 o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, recebeu pedidos do Departament of Agriculture, de Washington, do Smithsonian Institution of Philadelphia e da Secretaria de Agricultura do estado de Illinois propondo a permuta de sementes de árvores florestais americanas por madeiras brasileiras, espécies de frutas, fibras, elementos botânicos, fósseis, mudas, dentre