• No results found

Byggskadefond

In document Forsvarlig byggkvalitet (sider 55-62)

Diante do exposto, fica evidente que Goiânia, desde a sua construção na década de 1930, sofreu um processo de crescimento acelerado e irregular. Planejada para abrigar uma população de 50.000 habitantes, a cidade comporta 1.302.001 habitantes, segundo os dados do Censo 2010 do IBGE. O processo de urbanização da cidade, diferentemente do que se previa, não se desenvolveu de forma planejada no decorrer dos anos, evoluindo para a conformação de um espaço fragmentado e “polinucleado”. O planejamento e controle

73

exercido sobre o espaço urbano nos primeiros anos deu lugar, sobretudo, nas décadas de 1980 e 1990, a um crescimento rápido e desordenado. Esse contexto é marcado, principalmente, por uma acentuada expansão urbana com a incorporação de extensas áreas rurais à cidade, fruto da proliferação de loteamentos clandestinos com ou sem a concessão do Estado e também de ocupações realizadas por amplos contingentes populacionais que chegavam à capital sem condições de habitar as áreas centrais da cidade, devido ao elevado custo da terra nesses espaços planejados e providos de infraestrutura.

Tudo isso resultou na produção de um espaço urbano espalhado, pouco coeso e bastante heterogêneo. Segundo informações da Secretaria de Planejamento do Município (SEPLAN), Goiânia, não precisa hoje de novos bairros, e sim de integrar os muitos já consolidados ou em fase de consolidação, reduzindo os espaços vazios e as áreas isoladas dos quase 400 bairros existentes na capital. Como ressalta o atual plano diretor da capital, “o processo de periferização e de segregação de grandes contingentes de população de baixa renda foi o grande responsável pela ampliação do perímetro urbano de Goiânia, fenômeno que provocou sucessivas mudanças na lei de zoneamento da capital, empurrando para cada vez mais longe a moradia dos mais pobres e agravando os problemas socioambientais”. As invasões de áreas de praças e fundos de vale tornam a situação ainda mais grave com uma estimativa, indicada pela Secretaria de Planejamento Municipal de Goiânia, da existência de 147 invasões dessa natureza na capital no início dos anos 2000. Enquanto nas áreas centrais estão disponíveis cerca 120 mil lotes vazios servidos de infraestrutura, novos empreendimentos distantes da área urbana consolidada são lançados a todo o momento, encarecendo a infraestrutura urbana e incentivando a especulação imobiliária. Neste contexto, o processo de urbanização de Goiânia não é afetado apenas pelo crescimento da cidade, mas também, pela distribuição de seus componentes, dos centros de emprego e dos sistemas de transporte.

Ribeiro (2004), a partir da análise de dados da Secretaria de Planejamento Municipal (Seplam), afirma que até o início dos anos 2000 estima-se que cerca de 35% da população goianiense tenha migrado para as regiões periféricas da cidade, passando a habitar o enorme cinturão de bairros que se formou ao redor do núcleo original, que inclui os setores Central, Sul, Oeste, Universitário e Bueno. É na região Noroeste da cidade onde se concentram os bairros mais pobres do cinturão que se formou em torno do núcleo

74

original. Fundados de forma ilegal e sem nenhuma infraestrutura, esses bairros (Vila Finsocial, Vila Mutirão, Jardim Curitiba e Bairro da Vitória) já se encontravam no começo dos anos 2000 com 71 mil habitantes e em larga expansão, ultrapassando dois terços dos moradores de alguns setores tradicionais, como Bueno, Oeste, Bela Vista e Jardim América, os mais populosos do núcleo central expandido e que abrigavam juntos pouco mais de 100 mil habitantes. A situação da periferia contrasta bruscamente com a região urbana central, servida de infraestrutura, equipamentos urbanos e serviços. Todavia, ao passo que a cidade se espraia no horizonte formando imensos vazios urbanos, no plano vertical, proliferam cada vez mais arranha-céus.

Segundo Moysés, Bernardes e Kallabis (2005):

A exemplo das grandes cidades brasileiras, a cidade de Goiânia cresce sob o signo da desigualdade social e da segregação, configurando-se como espaço de tensões e conflitos que se espacializam através da configuração de múltiplos territórios, lugares e não lugares, a despeito do discurso do planejamento e dos vários planos diretores a que foi submetida nas últimas décadas (p.5).

Do crescimento acelerado e sem controle decorre uma malha urbana descontínua, muitos espaços vazios, aumento de ocupações, ausência de infraestrutura básica para grande parte da população, dificuldade de mobilidade dos que moram nos bairros afastados, bem como outros problemas. Evidencia-se em Goiânia, todavia, um processo de urbanização que produz uma cidade fragmentada tanto social quanto espacialmente, onde o distanciamento e a desconfiança geram práticas defensivas, onde os muros são cada vez mais reforçados e os gestos tolhidos. Tudo isso gera problemas sociais e só aumenta a insegurança.

Os muros, sejam reais ou não, disseminam-se por toda a metrópole modificando significativamente o desenho e a vivência urbana. Eles parecem dividir, separar, demarcar os diferentes espaços da cidade. Moysés (2004) considera que:

O espaço urbano de Goiânia e de alguns municípios de sua região metropolitana evidencia a existência de uma cidade fracionada e fragmentada. Assim, podemos dizer que, de um lado, existe a cidade legal e, de outro, a cidade ilegal ou não-cidade. Ambas expressam a cidade concreta, real, flexível, que se metamorfoseia por obra e vontade dos homens. Legal é a cidade dos loteamentos e das edificações regulares, aprovados segundo a legislação

75

vigente. Essa pode projetar a cidade para fora como “cartão postal”. Ilegal, a construída à margem da lei, das instituições, por razões econômicas e sociais dos excluídos ou incluídos. Essa cidade ilegal só aparece publicamente quando ocorrem calamidades públicas, como enchentes, epidemias, ou através de reivindicações por melhores condições de vida, o que possibilita a visibilidade de suas entranhas e da deterioração de seus espaços e as condições precárias em que seus moradores vivem. Ambas existem, “convivem” e desconfiam uma da outra. No entanto, entre elas há “muitos muros”. (p.195/196)

Segundo Ribeiro e Santos Júnior (2007) a violência e o medo dos habitantes das cidades são, também, resultantes “do processo de segmentação socioterritorial em curso, que separa as classes e grupos sociais em espaços de abundância e de integração e em espaços de concentração da população vivendo simultâneos processos de exclusão social” (p. 9).

Em um contexto de cidade fragmentada, os encontros entre os diferentes sociais tendem a ser cada vez mais marcados pela suspeita e pela desconfiança. A difusão do medo, acompanhada de um desconhecimento do outro, consequências da conformação espacial e urbana e do estado de alarme social, tendem a criar, no imaginário social, a ideia de territórios proibidos, uma profusão de estigmas territoriais e sociais. Nesse sentido, configura-se um circulo vicioso, pois se o medo parece, ao menos nos discursos da população, justificar o enclausuramento e o abandono dos espaços públicos, essas medidas tendem, por outro lado, a reforçar o medo e a insegurança, à medida que restringem a sociabilidade e restringem ou eliminam o diálogo entre os diferentes grupos que habitam as cidades. À medida que são abandonados e ficam livres da vigilância e controle social exercidos pelos cidadãos, os espaços públicos, tornam-se suscetíveis à ocorrência de incivilidades, criminalidade e violência, o que recrudesce ainda mais os níveis de medo e insegurança.

In document Forsvarlig byggkvalitet (sider 55-62)