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Espírito História Direcção Decadência FISIOGNOMIA

Partindo, pois, de uma perspectiva filosófica historicista e raciovitalista, a qual toma o ser humano individual e existencial, como epicentro e potenciador de si mesmo, autodeterminado e criador de valores num mundo complexo e mutável, e seguindo tanto quanto possível as fontes, esta tese situa-se na confluência de dois rumos de orientação que aqui se pretende articular e integrar - a Filosofia da História e a Filosofia da Cultura.

Devo reafirmar que o horizonte temporal que aqui é objecto de reflexão, cinge-se a uma baliza de aproximadamente dois séculos, isto é, vai de meados do século XIX até á primeira década do século XXI, coincidindo, grosso modo, com a baliza spengleriana (1800- 2000/10), o mesmo é dizer, até ao tempo em que vivemos. Nela centrar-se-á também a atenção no período específico que ficou conhecido como a ‘Cultura de Weimar’, um dos principais centros de difusão cultural europeu após o século XVIII, e que muito marcou a pós-Modernidade. Na passagem dos finais do século XIX até ao advento do nacional- socialismo, este período foi muito fértil em termos de substância crítica e sentido prospectivo da contemporaneidade, no modo resoluto e perspicaz como as figuras da primeira geração de Frankfurt conseguiram igualmente ‘antecipar’ os novos sinais dos tempos, amplamente escalpelizados por Baudrillard ou Lipovetsky.

Deste modo, considero que a filosofia da História, deve entender-se, antes de mais nada, como uma reflexão sobre a natureza da história e sobre o pensamento histórico. A expressão foi pela primeira vez usada no século XVIII por Voltaire, na sua obra Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações (1756), para designar o novo género histórico de inspiração

iluminista, que se debruçava sobre a interpretação dos acontecimentos históricos, mudança e sucessão dos factos e, sobretudo, da origem e evolução das sociedades das nações.

A filosofia da história começou a ser considerada matéria independente no período que se inicia com a publicação, em 1784, da primeira parte das Ideias para uma História Filosófica da Humanidade, de Johannes Herder (1744-1803), e terminou um pouco depois do aparecimento da obra póstuma de Hegel, Conferências sobre a Filosofia da História, em 1837. Mas esse estudo, tal como foi concebido durante esse período, era em grande parte uma questão de especulação metafísica. Agora, o grande objectivo é trazer à luz do dia, a textura interna do tecido da história, que permitiria decifrar o enigma do sentido.

Na sua Ideia de uma História Universal sob o Ponto de Vista Cosmopolita, de 1784, Kant não só estimulou a procura da interpretação racional da história, como também defendeu a ideia de que ela deveria ser escrita sob o prisma de ‘uma história universal geral’ que abarcasse toda a humanidade. Essa ambição correspondia aos tempos iluministas, quando um surto cosmopolita ocorreu entre a intelectualidade do Velho Mundo, fazendo com que fossem superados os muros medievais em que o pensamento estava, até então, contido. O objectivo quer de Kant quer de Hegel era o de chegar a um entendimento do curso de história como um todo; mostrar que apesar de muitas anomalias e inconsequências que apresentava, a história podia ser considerada como uma unidade que compreendia um plano geral, isto é, um plano que uma vez percebido, esclareceria o curso detalhado dos acontecimentos ao mesmo tempo que nos permitiria entender o processo histórico como satisfatório à razão.

Estas filosofias pretendiam oferecer uma compreensão da história mais profunda e valiosa do que qualquer coisa que os historiadores pudessem apresentar, uma compreensão que, no caso do Hegel, o mais mediático desses autores, tinha uma base, não num estudo directo da evidência histórica (embora Hegel não fosse indiferente em relação aos factos, como pretende ser, por vezes), mas em considerações puramente filosóficas. A filosofia da história praticada por esses autores, passou a significar um tratamento especulativo de todo o curso de história, com o qual se esperava revelar o seu ‘segredo’, de uma vez por todas.

No Iluminismo, uma época caracterizada pela absolutização de um certo optimismo universal centrado no esquema triádico Razão (Conhecimento/Liberdade) + Progresso (Ciência/Felicidade) + Paz (Fraternidade/Igualdade), acreditava-se que a idade da superstição e da barbárie estava a ser progressivamente substituída pelo sol radioso

daqueles três atributos universais, concedendo-se igualmente à história, uma linha evolutiva de carácter moral.

Sob a influência de Herder, o qual pela primeira vez acentua a existência de leis naturais na história, a Humanidade é concebida como um macro-indivíduo que passa por ciclos históricos. Herder na sua obra Ideias para uma Histórica filosófica da Humanidade, manifesta uma ruptura face às teorias que interpretavam a História como seguindo um padrão uniforme ao longo de períodos históricos diferentes. Sublinhando a variedade e individualidade das nações na sua evolução e mutação históricas, afirmou a crença nas leis do crescimento e da decadência, antevendo o paradigma spengleriano da história. Herder refere, a este propósito:

“ (...) Toda a espécie de conhecimentos humanos tem os seus limites próprios, isto é, a sua natureza, o seu tempo, o seu lugar e o seu período de vida (...) Portanto, tudo é transitório na história (...) A causa desta transitoriedade de todas as coisas terrenas, reside na sua própria essência, no local em que se encontram, na lei geral a que está subordinada toda a nossa natureza (…) Somos forçados a seguir as leis da sua trajectória, que mais não são do que nascer, ser e morrer.” 5

Kant levou esta ideia mais longe. Deu-lhe um significado mais abrangente, de história universal ou mundial, de tal modo que a filosofia da história se converteu na procura de um sistema grandioso sobre o desdobramento da evolução da natureza humana, encarada como um desígnio da natureza e testemunhado metodicamente em fases sucessivas, embora envoltas num clima de desconhecimento e imprevisibilidade dos seus fins últimos (o progresso da racionalidade ou do Espírito).

A partir das ideias telúricas de Kant, da influência dos factores climáticos e geográficos no desenvolvimento humano, Herder antecipou magistralmente aquilo que haveria de ser o fundamento epistemológico da obra spengleriana. Destacou o carácter efémero e transitório da vida, comparando-a, tal como Goethe, a uma planta que nasce para morrer, inexoravelmente. Assim, Herder formulou uma importante filosofia da história da Humanidade, cujas principais ideias, de algum modo perspectivistas, podem ser balizadas do seguinte modo:

 as forças vivas do homem são a mola da história humana, e como o homem tem a sua origem a partir de uma raça específica, a sua formação, educação e

modo de pensar são, desde logo, genéticos. Tal como a água de uma nascente recebe do solo donde brota a sua composição as suas qualidades actuantes e o seu sabor, assim o antigo carácter dos povos proveio de traços raciais, clima, tipo de vida e educação, das ocupações primitivas e das acções peculiares a cada um desses povos;

 os costumes dos antepassados enraizaram-se profundamente e tornaram-se o protótipo íntimo da raça, sendo que a formação de um reino depende primordialmente do tempo e do lugar em que se nasce, das partes que o compõem e das circunstâncias exteriores que o rodearam. Como é efémera e transitória, toda a obra humana, acaba por tornar-se a melhor das instituições, ao fim de algumas gerações, pois ‘o que é, é: o que pode ser, será; o que é susceptível de perecimento, perecerá’;  a tradição é em si uma excelente instituição da natureza, indispensável ao

género humano, mas logo que ela cerceia a faculdade de pensar, impedindo todo o progresso da razão humana e toda a melhoria adequada às novas circunstâncias e aos novos tempos, torna-se então o verdadeiro ópio do espírito;

 existem nações que florescem e outras que declinam, mas de nenhuma das que declinam surge uma flor nova, muito menos uma flor bela, sendo que a cultura de um povo é a flor da sua existência sempre efémera;

 a cultura progride, mas nem por isso se torna perfeita, pois a natureza do homem continua a ser a mesma. No ano dez mil, por exemplo, o Homem continuará a nascer com paixões, como já nascia com paixões no ano dois mil e passará pelas mesmas loucuras até chegar a uma sabedoria imperfeita, tardia e inútil. A raça humana é, por isso, uma realidade vã destinada à extinção;

 o humanismo é a finalidade da natureza humana. Aquilo que um povo ou toda a raça humana quer convictamente para o seu próprio bem, e em que se empenha com todas suas energias, é-lhe concedido pela natureza, a qual lhes impôs como finalidade, não déspotas ou tradições, mas a melhor forma possível de humanismo, cuja essência, finalidade e destino, residem na razão e na justiça.

A filosofia de Herder foi de grande importância para o movimento romântico, que aproveitou muitas de suas ideias. Segundo a sua visão, a língua pode ser considerada o

repositório vivo dos sentimentos, da cultura, da inteligência de um povo, tal como a Poesia e a Literatura são as expressões máximas da língua, é nelas que podemos encontrar a ‘alma da nação’. A alma é sempre como que a consequência do devir transitório, cuja essência renovadora atingirá sempre uma finalidade ‘máxima’: a caducidade, pois como o próprio Herder afirmava, ’o sol põe-se para dar lugar à noite, e para que os homens possam regozijar-se com uma nova aurora’!

Assim, uma nação teria como marca principal a sua língua, a sua tradição, as suas crenças, e estes elementos são aqueles que fazem de um povo, uma raça. Para Herder, o comportamento e o pensamento humanos não são iguais. Cada nação tem a sua individualidade derivada das características de sua raça, que por sua vez reflectem características específicas do meio geográfico em que se originou numa determinada época. Na realidade, a história é encarada como uma colectânea de várias histórias nacionais, com características particulares, segundo as diversas raças. Contextualizando as ideias deste pensador, vemos que elas eram especialmente importantes para a Alemanha, já que ela era na época formada por vários povos separados politicamente, sendo que o único vínculo era a língua. A ideologia de Herder reflecte o seu desejo de conceder à filosofia um estatuto universal.

Todavia, a primeira tentativa de escrever uma história universal, não foi feita por nenhum historiador profissional, mas sim por um outro filósofo, alemão como Kant, F. Hegel, que publicou as suas Lições sobre a filosofia da história universal, em 1830. No Prefácio, Hegel foi enfático ao afirmar que a história universal poderia ser explicada como a marcha da razão, e que todas as diferenças que encontramos entre povos e países, nada mais são do que as faces multiformes dessa mesma razão, que ‘uma vontade divina rege poderosa o mundo’ e que nada está sujeito ao acaso, mas sim faz parte de uma ordenação regida por leis naturais, perceptíveis pela mente humana. É neste sentido que Hegel nos fala da ‘astúcia da razão’, cujo ardil se aproveita das paixões e dos interesses subjectivos (dos chamados indivíduos histórico-cósmicos) para realizar o universal. Dessas paixões se geram afinal os grandes homens, a que chama heróis, os quais por sua vez desencadeiam o ‘espírito do povo’ e que, por seu turno, fazem a efectiva realização do ‘espírito do mundo’.

Hegel organizou a sua concepção histórico-filosófica numa curiosa sistematização, em quatro grandes blocos: o Mundo Oriental, o Mundo Greco, o Mundo Romano e o Mundo Germânico. Em cada um deles situados temporalmente, categorizava uma perspectiva e radicava uma tendência:

Mundo Oriental (China, Pérsia, Índia) Mundo Grego (Grécia) Mundo Romano (Roma, Imperio Romano) Mundo Germânico (Europa Central e do Norte)

Idade Antiga Época Clássica Idade Média Renascimento

Só um é livre (o Imperador) e todos os outros são súbditos. O Estado impõe-se ao indivíduo e esmaga- o.

Alguns são livres

(aristocratas e cidadãos), a maioria é escrava. Harmonia entre os interesses universais do Estado e do Cidadão, representado nas Assembleias da Cidade (Democracia) (O mesmo que na Época Clássica). Os interesses do indivíduo sobrepõem- se aos interesses do Estado, espiritualizando o mundo do além e procurando a união ao criador (Cristianismo)

Todos são livres e iguais. Há uma harmonia entre os interesses universais do Estado e os interesses particulares do cidadão,

reconciliando na vida

social, a infinitude divina e a finitude humana.

(Protestantismo/Luteranis mo)

COLECTIVIDADE LIBERDADE

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