3 Brukerinteresser
3.4 Bygg og inngrep
O amor é hoje em dia, a justificação que legitima e deve orientar as relações, não só sexuais, mas entre parceiros/as, no sentido da conjugalidade. Já na década de 50, do século XX, Goode (1959) defende a importância teórica do amor. Para o autor (Goode, 1959), o amor, determina frequentemente a intensidade de uma atração, ou do repúdio, no sentido de um relacionamento com outra pessoa, tornando-se, deste modo, um elemento nas decisões e/ou nas ações dos indivíduos. Neste sentido, Torres (2001) refere que, para Goode, o amor é visto como uma mola impulsionadora da ação, uma força com o poder para criar novas relações sociais, sobre a qual incidem restrições e formas de controlo. Este pode, por um lado, ser percebido como tendo poder atrativo como veículo para a intimidade, na medida em que é criador de novos laços, que adquirem contornos específicos em diferentes contextos sociais. No entanto, por outro lado, pode também ser disruptivo da ordem social, pelo que as diferentes sociedades, e diferentes grupos numa mesma sociedade, exercem diferentes formas de controlo sobre ele. O padrão do amor, ou seja, o facto de se encarar o amor como base para a decisão final do casamento, existe em muitas sociedades, mas só em algumas, como na sociedade ocidental, este padrão se transformou numa ideologia prescrita como desejável no momento em que se começa a namorar e depois para se casar (Goode, 1959; Torres, 2001).
Ora, as mudanças existentes na conjugalidade, nos países ocidentais contemporâneos, traduzindo uma passagem de uma visão institucional do casamento para uma definição interna e subjetiva do
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Para além disso, Plummer (2003: 30) não deixa de sublinhar que, por todo o mundo, “muitas intimidades passaram a ser vividas em mundos de vitimização, de assédio, de abuso, de coerção, de ódio, de corrupção, de exclusão e de exploração”; sendo que a maioria das vítimas são mulheres, crianças e minorias étnicas.
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casal, em que o casamento deixa de ser negociado pelas famílias e passa a ser objeto de uma escolha pessoal dos elementos do casal, que deve ser regida imperativamente pelo sentimento amoroso, sublinha a importância atual do amor (Torres, 2002; Bozon, 2005 [2002]). Este torna-se então o pretexto legítimo para o casamento, existindo, simultaneamente a ideia de que o amor suspende o tempo e o espaço, e que “vence todos os obstáculos e supera todas as dificuldades” (Torres, 2002: 89). Neste ideal de amor romântico sobrepõem-se amor, paixão, atração física, impulso sexual33 (Torres, 2002), sendo de sublinhar, para o propósito deste trabalho, a crescente importância que a sexualidade assume na constituição e na manutenção da relação conjugal (Bozon, 2005 [2002]).
Na teoria sociológica, o amor tem sido representado com uma maneira de assegurar a salvação, no mundo moderno, e de experimentar algo para além do rotineiro e ordinário (Bertilsson, 1986). Segundo Bertilsson (1986), tal como a religião, o amor assegura a identidade pessoal do indivíduo (embora a primeira a um nível mais coletivo e a segunda a um nível mais individual), funcionando como um meio de trocas simbólicas e enriquecendo o quotidiano, ao acrescentar-lhe dimensões extraordinárias.
Torres (2000; 2004), desenvolvendo o argumento de Bertilsson, dá conta de dois temas que atravessam as propostas sobre o amor: a questão da individualização e a questão da igualdade entre homens e mulheres. Vários outros autores retomam o primeiro tema (Beck e Beck-Gernsheim, 1995; Kaufman (2007 [1993]); Jackson, 1993; Weeks, 1995), considerando que o amor traz a esperança e o ideal de realização pessoal, satisfação, companheirismo e afeto.
Assim, para Beck e Beck-Gernsheim (1995), o amor tende a ser, nos dias de hoje, um novo centro à volta do qual as vidas destradicionalizadas giram. Este, sendo geralmente associado ao prazer, à confiança, ao afeto e à igualdade34, tornou-se uma crença fundamental, à qual a maioria das pessoas adere. Deste modo, embora possam rejeitar um modelo de casamento ou de vida familiar, a maioria do/as jovens procura um compromisso, sendo que a existência de um(a) parceiro/a estável continua ser um ideal e um objetivo. O modo como o amor é idealizado reflete as mudanças sociais da modernidade, na medida em que a sua “glorificação” serve para contrabalançar a vida quotidiana (Beck e Beck-Gernsheim, 1995: 33). À medida que outros pontos de referência se vão esvanecendo, que os indivíduos têm que navegar entre os riscos e as incertezas de uma sociedade cada vez mais individualizada, estes passam a desejar cada vez mais dar sentido e segurança às suas vidas, com as pessoas que amam.
É deste modo que o amor se torna aquilo que, segundo Weeks (1995: 172), é uma panaceia, ou seja, “um veículo para o significado individual, num mundo sem significado”. Apesar da diversidade das suas formas e significados, este permanece como algo de fundamental para os indivíduos, sendo
33 No entanto, segundo Torres (2002: 89) mantêm-se as assimetrias entre homens e mulheres, cabendo à mulher “o trabalho do amor”, na medida em que será esta que está vocacionada “para as emoções, a domesticidade, [e] as relações familiares”.
34 Contudo, segundo Beck e Beck-Gernsheim (1995) o amor está também, relacionado com o tédio, a raiva, o hábito, a traição, o desespero, a solidão e a intimidação.
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um modo através do qual as experiências e as necessidades interiores dos indivíduos são reconhecidas e validades e, através do qual, os indivíduos podem ser transformados. Neste contexto, a relação sexual torna-se num modo de expressão do amor, cuja importância depende da capacidade da relação em dar prazer e satisfação, enquanto dura35.
O sentimento amoroso está, assim, de acordo com Kauffman (2007 [1993]) associado à reflexividade, à individualização e à gestão da própria vida. A emoção envolve uma reformulação do Eu controlada pelo indivíduo; construindo um sentido positivo para o sujeito amoroso: estar enamorado do/a parceiro/a é estar em harmonia com o sentido da sua própria vida. Deste modo, o sentimento amoroso constrói a individualidade e a unidade, a segurança ontológica e a positividade, ou seja, o que cada um procura para si mesmo. Há então um duplo benefício de se estar enamorado, quando o amor é partilhado: o sentimento amoroso fixa a identidade sobre um objeto, estabilizando-o, e a pessoa amada reforça o trabalho pessoal de construção do Eu. “O milagre” do amor é o de realizar esta troca no quadro de um fluxo emocional. A proximidade dos corpos e presença das emoções, a ligação intima entre sentimento e sexualidade, fazem com que o reconhecimento mútuo das identidades tenha uma densidade, uma concretização, uma força de realidade, que a constituem como antídoto perfeito num universo frio de relações interpessoais e formais da modernidade (Kauffman, 2007 [1993]).
Mas, como referido em cima, outros autores (Bourdieu, 1999; Giddens, 1996), embora não de forma necessariamente contraditória (podendo as duas perspetivas estarem interrelacionadas), fazem depender o amor de uma maior igualdade nas relações de género e/ou consideram que este apenas é atingível quando existe igualdade entre parceiros/as (Jackson, 1993; Torres, 2000, 2004). Este é o caso de Bourdieu (1999: 95), para quem o amor foi instituído como norma ou ideal, “digno de ser visado por si próprio e pelas experiências de exceção que proporciona”. Para o autor, o amor é um lugar de milagres: o milagre da não-violência, “tornada possível pela instauração de relações baseadas na reciprocidade plena e autorizando o abandono e a entrega de si”; o milagre do reconhecimento mútuo “que permite […] que alguém se sinta “justificado na sua existência””; e o milagre do desinteresse, “que torna possíveis relações desinstrumentalizadas, baseadas na felicidade de dar felicidade” (Bourdieu, 1999: 94). Deste modo, o amor suspende a dominação masculina, na medida em que o indivíduo apaixonado só pode obter reconhecimento do outro se houver uma abdicação da intenção de dominar. Todavia, o amor é também considerado como intrinsecamente frágil, em face de exigências excessivas e da ameaça da rotina e do pensamento individualizado.
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No entanto, para o Weeks (1995), existem, também, outros aspetos do amor: o amor como cuidado (a preocupação, esperanças, necessidades e potencialidade da(s) pessoa(s) que se ama(m)); o amor como responsabilidade (que responde às necessidade e aos comportamentos responsáveis dos outros, é baseado na obrigação mútua e no reconhecimento que o ato do indivíduo tem consequências para o outro); o amor como respeito (que toma em consideração a dignidade do outro, a sua autonomia enquanto pessoa); ou o amor como conhecimento (a abertura para perceber as necessidades pessoais e as necessidades do outro, requerendo, assim, um reconhecimento mútuo).
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Também para Giddens (1996) a possibilidade de maior igualdade entre homens e mulheres está relacionada com aquilo a que chama de relações puras, quer sejam laços sexuais duráveis, casamentos ou relações de amizade. Estas tornam-se num dos elementos essenciais do projeto reflexivo do eu. Por seu turno, o compromisso tem um papel essencial na relação pura, sendo o amor uma forma de compromisso. Mas este compromisso implica que o indivíduo decida comprometer-se e que haja reciprocidade na relação. A relação pura assenta também na existência de uma intimidade, e consequentemente, uma preocupação com a qualidade da relação e algum grau de privacidade da parte de cada parceiro/a; o envolvimento sexual faz também parte de uma procura de intimidade. Estritamente relacionada com a procura de intimidade está a confiança mútua que a relação pura exige, confiança esta que tem que ser ganha. A abertura ao outro faz parte das novas formas de confiança que a relação pura exige. Na relação pura, a identidade pessoal é (re)negociada através de processos de autoexploração e de desenvolvimento de uma intimidade com o outro, criando histórias partilhadas. Mas a relação pura pode ser terminada se assim for desejado, sendo mantida apenas enquanto existir ganhos suficientes para cada um dos indivíduos. Neste contexto, o amor confluente surge, a partir da fragmentação do amor romântico, em face da pressão da emancipação sexual e da autonomia feminina, tendo como pressuposto a igualdade na dádiva e contra dádiva emocional. O amor confluente desenvolve-se na medida da intimidade36, ou seja, na medida em que cada parceiro/a está disposto para contar ao/à outro/a as suas preocupações e necessidades, e para lhe ser vulnerável. Neste modelo, a realização do prazer sexual recíproco é um elemento chave para a continuidade ou a dissolução de uma relação, desenvolvendo-se numa sociedade em que quase todas as pessoas se podem realizar sexualmente (Giddens, 1996).
Criticando a proposta de Giddens sobre a relação pura e o amor confluente, Jamieson (2005 [1998]) argumenta que, nas sociedades ocidentais contemporâneas, a intimidade é percebida como estando no centro de uma vida emocional significativa. A intimidade é aqui associada ao conhecimento, proximidade e amor do/a e pelo/a parceiro/a, que implica conversar, ouvir, partilhar pensamentos, mostrar sentimentos – a intimidade revelada (“disclosing intimacy” no original). A intimidade revelada enfatiza, deste modo, a abertura mútua do eu, revelando constantemente os pensamentos e sentimentos mais íntimos ao outro, e requerendo uma igualdade, entre parceiros/as, na relação. No entanto, embora as representações sobre a vida pessoal enfatizem a intimidade até um grau sem precedentes, para a autora não há evidências concretas desta ser um princípio organizador importante das vidas pessoais, sendo que na relação entre pais e filho/as, parceiros/as, e/ou amigos/as, outras questões, como o apoio emocional ou material, são também sublinhadas. Para além do mais, para a autora, se a intimidade revelada sublinha a importância de uma relação próxima, em que há um conhecimento privilegiado e profundo do indivíduo, a compreensão deste/a e alguma forma de amor, esta não tem em conta outros aspetos, como os aspetos práticos da partilha e dos cuidados ao outro.
36 Para Giddens a intimidade é “antes de tudo uma questão de comunicação emocional, com os outros e com o próprio, num contexto de igualdade interpessoal” (Giddens, 1996: 90).
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Jamieson (2005 [1998]) refere ainda que, se a intimidade revelada está cada vez mais presente no domínio da vida pessoal e privada, a diferença entre histórias públicas e vidas pessoais torna a questão mais complicada. As histórias sobre a vida privada mudaram mais do que as suas práticas. No entanto, a autora admite também que o facto de histórias públicas, histórias privadas e práticas se articularem entre si, ajudando a criar-se mutuamente, pode levar a que esta enfâse na intimidade revelada tenha alguma relevância no quotidiano dos indivíduos. Tem, contudo, que se tomar atenção ao facto de que esta é uma história selecionada, que dá conta, apenas, parcialmente, daquilo que será um futuro emergente. Outras histórias de como a vida deve ser vivida coexistem, de forma alternativa, competindo com o ideal de intimidade revelada. Acresce ainda que, segundo Jamieson, se atualmente se vive num mundo, em que os indivíduos têm, geralmente, condições materiais, que lhes permite procurar “boas relações” (Jamieson, 2005 [1998]: 174), que não sejam orientadas por necessidades, as relações pessoais são mais complexas do que o termo identidade revelada implica, incluindo uma mistura de amor, cuidados, partilha, compreensão, conhecimento, dependência, apoio e ajuda do e para com o outro, isto é, algum tipo de assistência prática, mutuamente negociada.
Em jeito de resumo pode dizer-se então que, atualmente, o amor tende a ser representado como um motor de ação, com consequências práticas na vida social, na medida em que constrói realidades concretas. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, este está implicado na construção da identidade pessoal, assegurando um sentido de segurança ontológica contra um mundo despersonalizado da modernidade. Ajuda ainda a mascarar os motivos da escolha do parceiro, surgindo como motivo dessa escolha, a justificar a iniciação sexual, as práticas sexuais, e a entrada em relação conjugal. Por fim o amor torna-se numa peça central da vivência em conjugalidade, que, juntamente com a relação sexual, entre outros aspetos, consolida a intimidade no casal, ajuda a resolver os seus problemas e/ou serve de termómetro do bem-estar da relação.
Contudo, tal como referido por vários/as autores/as (Jackson, 1993; Jamieson 2005 [1998]) Torres, 1987; Weeks, 1995; Kauffman, 2007 [1993]), o amor é sociocultural e historicamente construído, sendo, portanto, necessário “situar as relações amorosas e as representações coletivas e individuais sobre o amor, num contexto cultural e espaço temporal”, na medida em que “as práticas sociais e os universos simbólicos sobre o amor a que se referem, variam de época para época, de cultura para cultura.” (Torres, 1987: 25). Deste modo, o amor, o carinho e a partilha, constituindo dimensões da intimidade, têm adquirido significados diferentes ao longo do tempo (Jamieson, 2005 [1998]). Atualmente, o amor oferece uma linguagem, uma série de narrativas, códigos de comportamento e múltiplas possibilidades de dar sentido à necessidade que os indivíduos têm uns dos outros, incorporando relacionamentos sexuais e emocionais (Weeks, 1995).
Veja-se agora, de forma generalizada, como é que estes processos de mudança social da intimidade se deram em Portugal.