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Ao contrário do poeta nostálgico, que cantou os sabiás e as frondosas palmeiras de sua terra no retorno à Pátria amada Brasil, sentimento que se reverberou nos mais belos versos, Lima Barreto, o escritor marginal, de modo direto, valendo-se de poucas imagens, disse que a terra de sabiás e palmeiras estava repleta de formigas e de outras pragas, por isso, eram necessárias medidas urgentes e planejamento por parte do Governo para dirimir o problema e tornar o solo cultivável. Outro escritor maldito, Monteiro Lobato, apontou o estado de ignorância e abandono em que vivia o caboclo Jeca Tatu, produto do descaso governamental e vítima da verminose, que, sem alternativas para o plantio, tinha de valer-se da queimada, prática herdada de seus bisavós. Entretanto, ainda que o autor de Urupês não saísse completamente ileso, apenas, a nosso ver, o simplório mulato, criador de Triste fim de Policarpo

Na verdade, os estigmas impingidos à obra de Lima Barreto, na ocasião da publicação de Recordações do escrivão Isaías Caminha, perseguiram-no por toda vida. Salvo exceções, sequer obras-primas como Triste fim de

Policarpo Quaresma e Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá demoveram a

crítica de seu propósito de silenciar sobre o escritor. No Diário íntimo, sem perder o espírito irônico, Lima Barreto manifesta sua indignação em relação ao silêncio da crítica sobre a publicação de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Meu livro, o Policarpo, saiu há quase um mês. Só um jornal falou sobre ele três vezes. Em uma delas Fábio Luz assinou um artigo bem agradável. Ele saiu nas vésperas do carnaval. Ninguém pensava em outra coisa. Passou-se o carnaval e Portugal teve a cisma de provocar guerra com a Alemanha. As folhas não se importavam com outra senão com o gesto cômico de Portugal. Enchiam colunas com notícias como esta: ”A esquadra portuguesa foi mobilizada. Acham-se em pé de combate o couraçado Vasco da Gama, o cruzador Adamastor, a corveta dona Maria da Glória, a nau catarineta, a caravela Nossa senhora das Dores, o brigue Voador e o bergantim Relâmpago”. E não têm tempo em falar no meu livro, os jornais, estes jornais do Rio de Janeiro. (Barreto, p.181).

Já em relação à Vida e morte de J. M. Gonzaga de Sá, não obstante essa ter sido citada na lista das melhores obras de um concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras, a revista da entidade, numa atitude de menosprezo em relação ao escritor, limitou-se aos seguintes comentários: “Seu último romance, último tão somente na ordem cronológica, é Vida e morte de

M.J. Gonzaga de Sá. Ele tem o gosto démodé dos títulos extensos, a século

XVIII”. (apud Martha 2005, p.16).

Alice Áurea Penteado Martha, apoiada nas teorias de Bordieu, observa que a imprensa da época, ao silenciar sobre a obra de Lima Barreto ou ao execrá-la, atuava na condição de quarto poder, como aparelho ideológico do Estado, e bania tudo que não estivesse coadunado com os ditames e interesses estatais. Partindo desse princípio e levando-se em consideração o

contexto de sua época, o reconhecimento de Lima Barreto como grande escritor estava longe de acontecer.

Em que pesem todos os infortúnios vividos por Lima Barreto, é possível encontrar um ponto positivo entre tantos malogros. A literatura barretiana floresceu às margens da oficialidade, e essa posição, malgrado tenha causado sérios dissabores ao romancista, conferiu-lhe maior possibilidade de visualizar as esferas do poder e também a liberdade para criticá-las, porquanto não se via compelido a acatar nenhuma imposição.

Passado quase um século da morte do escritor e superados os paradigmas de sua época, a obra barretiana vem sendo descoberta pela crítica e não são raros os esforços para situá-la em posição de destaque no cenário da literatura nacional. Entretanto, é preciso ressaltar que a valorização póstuma do escritor não se deve à benevolência da crítica, mas ao próprio amadurecimento ocorrido em sua obra. Afinal, as últimas produções de Lima Barreto, que atestavam sua maturidade literária, tiveram uma parcela de reconhecimento de seus contemporâneos. Esses, via de regra, embora o abominassem, não puderam se furtar ao reconhecimento de suas qualidades como escritor. Portanto, os próprios atributos da obra de Lima Barreto foram cruciais para que o silêncio sobre ela se rompesse.

Atualmente, alguns estudos desempenham um importante papel na valorização da obra de Lima Barreto. Assim, Carlos Erivany Fantinati, em O

profeta e o escrivão (1978), mostra-se avesso à idéia de que Recordações do escrivão Isaías Caminha seja um romance panfletário ou à clef. Segundo o

crítico, a concepção de literatura militante e profética nortearia a produção literária barretiana, caracterizada pela contestação do presente, “com a qual o artista militante suporta a contradição na força da esperança de uma época de consumação”. (apud Freire 1995, p.134).

Maria Zilda Ferreira Cúri (1998) chama a atenção para o nome do protagonista do romance de estréia de Lima Barreto: Isaías Caminha, composto respectivamente pelo nome de um profeta, que pressupõe a denúncia da opressão, e pelo nome do escrivão da esquadra cabralina, que

representaria o anúncio de algo novo, quer no aspecto ideológico, quer do ponto de vista estético.

Osman Lins, em Lima Barreto e o espaço romanesco (1976), analisa a configuração do espaço na obra do escritor e, ao comentar Recordações do

escrivão Isaías Caminha, pondera que parte significativa da trama se passa

em uma redação de jornal e, de modo paradoxal, não há comunicação entre os personagens. Para o critico, esse fato seria intencional e objetivava criticar a imprensa, que, apesar de sua missão de informar, presta-se a certa afasia, retratada por meio do personagem Floc, crítico literário, que se suicida devido à sua incapacidade de escrever.

Também com o propósito de resgatar a obra de Lima Barreto, Carmem Lúcia Negreiro de Figueiredo, em Lima Barreto e O fim do sonho republicano (1995), situa o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma como um grande escritor, que pelo sarcasmo e pela caricatura, revela as mazelas da República velha e a distância entre os ideais humanísticos republicanos e a real prática dos dirigentes da nação na época.

Já Antônio Arnoni Prado, em Lima Barreto, o crítico e a crise (1989), a exemplo de Alfredo Bosi, vê o escritor como precursor do modernismo brasileiro, embora considere que, na literatura barretiana, a visão do novo e a permanência do velho confrontam-se.

O trabalho de Zélia Nolasco Freire (2005), Lima Barreto, imagem e

linguagem, desmistifica os postulados da crítica, que condenou a obra do

escritor por julgá-la de má qualidade. Segundo a autora, essa apreciação não se pautou em critérios justos e imparciais, mas no fato dessa literatura ter sido elaborada por um ser humano desprestigiado por uma sociedade preconceituosa.

Além dos trabalhos citados, inúmeros outros, de qualidade indiscutível, buscam fazer emergir a tão preciosa literatura barretiana do mar de descaso em que foi atirada. Por conta disso, parece-nos que, para fazer justiça a Lima Barreto, a crítica da atualidade tem longo e árduo caminho a ser percorrido.

Capitulo II

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