Conforme vem sendo afirmado, desde a introdução desta tese, nossa pesquisa se propôs a discutir as relações entre os currículos prescritos e praticados sob o cenário da competência no âmbito da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo pelo professor de Matemática, com base nos discursos produzidos, seja por intermédio de questionários ou entrevistas.
Assim, este capítulo analisa os discursos dos professores (Ver Anexo A e Anexo B), quanto aos três elementos pesquisados, ou seja, o currículo, as competências e as práticas docentes no contexto da implementação curricular na SEESP na última década. Para tanto, fazemos uma análise do currículo, destacando as compreensões, concepções e crenças dos professores. Quanto às competências, abordaremos as relações que os professores apontam para o que se deve ensinar e quais expectativas estabelecem diante dessa lógica. Por fim, analisaremos a prática docente neste momento de reforma, abordando, essencialmente, sua formação no desenvolvimento curricular e a resistência produzida pelos professores. Essa resistência, para Giroux (2004), é mais que uma resposta a um currículo autoritário, que em tempos recentes já nem sequer evoca um propósito democrático. A resistência é um sintoma de um simples projeto alternativo que, em muitas ocasiões, não é evidente para os próprios atores.
Desta forma, nos aproximamos do currículo executado na sala de aula pelos discursos dos professores investigados. Michel Foucault, em seu livro A Arqueologia do Saber expõe, da seguinte forma, uma proposta de análise e suas ligações no campo do discurso:
Na análise proposta, as diversas modalidades de enunciação, em lugar de remeterem à síntese ou à função unificante de um sujeito, manifestam sua dispersão: nos diversos status, nos diversos lugares, nas diversas posições que se pode ocupar ou receber quando se exerce um discurso, na descontinuidade dos planos de onde se fala. Se esses planos estão ligados por um sistema de relações, este não é estabelecido pela atividade sintética de
uma consciência idêntica a si, muda e anterior a qualquer palavra, mas pela especificidade de uma prática discursiva. (FOUCAULT, 2008, p. 61). A análise do discurso, nessa perspectiva, trata a relação dos signos para designar as coisas naquilo que o sujeito diz, muito mais do que conceber ou remeter a conteúdos que deveriam representar. Foucault, no entanto, não nega que esses discursos também evoquem as representações, mas aquilo que é dito é evidência clara do que deve aparecer. Buscamos, contudo, uma regularidade nesses discursos.
O discurso, de acordo com Foucault, como ferramenta que utilizamos para analisar os questionários e entrevistas dos professores, pode ser compreendido segundo as seguintes ordens: a primeira, pela referência a algo que identificamos ou buscamos evidenciar nos questionários e entrevistas, seja pelo currículo, pela competência ou, ainda, pela sua prática docente; a segunda, por se ter um sujeito, alguém que pode efetivamente afirmar sua relação entre o currículo e suas nuances e a objetivação das ideias que compõem os textos, as metodologias propostas. Falamos, neste caso, dos professores, atores da implementação e interpretação curricular e que atuam nas salas de aula; a terceira ordem de que tratamos é o fato de o enunciado não existir isoladamente, mas sempre em associação e correlação com outros enunciados do mesmo discurso. Trata-se da delimitação que fizemos, sobretudo, nas entrevistas; e, finalmente, a quarta ordem diz sobre a materialidade do enunciado, as formas concretas com que ele aparece nos discursos, tanto naqueles textos escritos pelos professores quanto nas falas extraídas deles. (Foucault, 2008, p. 132 – 133)
Enfim, Foucault (2008, p. 133) diz, com relação ao discurso:
[...] um feixe complexo de relações que funcionam como regra: ele prescreve o que deve ser correlacionado em uma prática discursiva, para que esta se refira a tal ou qual objeto, para que empregue tal ou qual enunciação, para que utilize tal conceito, para que organize tal ou qual estratégia. Definir em sua individualidade singular um sistema de formação é, assim, caracterizar um discurso ou um grupo de enunciados pela regularidade de uma prática. (Idem, p.82 - 83)
O nosso trabalho está situado nas produções discursivas dos professores e na visão de que trata Foucault. Constituiremos, assim, as unidades localizadas no entrecruzamento dos discursos dos professores, tendo como finalidade mostrar uma determinada realidade e, desta forma, indo além de uma simples redução daquilo que foi dito ou enunciado.
5.1.1 Síntese dos dados profissionais dos professores pesquisados nas entrevistas.
É relevante conhecer os sujeitos que pesquisamos, em sua dimensão profissional como: o tempo de experiência no magistério, a categoria de contratação ou seu regime de trabalho, o nível de ensino em que atuam e as primeiras vivências com o currículo, pois são elementos importantes, que influenciam na prática dos docentes.
Assim, dos 15 (quinze) professores entrevistados, 9 (nove) professores estão sob o regime de efetivos em suas unidades escolares pertencentes à rede estadual de São Paulo, enquanto os demais exercem suas funções sob o regime de contratação. A diferença é quanto à estabilidade e à atribuição de aulas: apenas os professores efetivos têm estabilidade, já que o modo de ingresso na profissão é a aprovação em concursos públicos de provas e títulos, ou seja, os contratados passam por um processo de seleção. Quanto à atribuição das aulas, a cada ano há um processo de atribuição de aula para os professores efetivos e contratados. Os efetivos têm prioridade de escolha e as aulas remanescentes são destinadas aos professores contratados.
Quanto ao tempo no magistério, os professores pesquisados apresentaram em média 12,6 anos de trabalho, com média igual a 2 e mediana igual a 8. Seu desvio-padrão de 10,21 deve ser entendido como uma grande distorção entre os anos trabalhados pelos professores. Esses professores atuam tanto no Ensino Fundamental como no Médio.
Já quando relacionamos o trabalho desses professores à sua formação e ao conhecimento que estes têm dos documentos curriculares produzidos pela SEESP, 12 (doze) professores admitem conhecer estes documentos. No entanto, destes documentos, apenas são citados os cadernos do professor e do aluno, ficando de fora o documento que faz o percurso teórico. Outros 2 (dois) professores dizem conhecer parcialmente e 1 (um) professor entrevistado diz desconhecê-los.
Dos 12 (doze) professores que disseram conhecer ou conhecer parcialmente o currículo, quando questionamos de que forma foram capacitados para seu trabalho, 6 (seis) professores disseram que não tiveram nenhum curso ou orientação. Entre os outros professores que tiveram alguma orientação de formação sobre o currículo, essas formações se diversificaram entre reuniões nas HTPCs, cursos com Professores Coordenadores do Núcleo Pedagógico da Diretoria de Ensino e Curso de Ingressante por meio da Escola de Formação de Professores (EFAP).