4. Findings and Analysis
4.3 Presentation of results
4.3.3 Business strategies to address the impacts of Covid- 19
A personagem de A chegada define-se pela sua condição de imigrante, que é assumida no desenho pelo contexto dos espaços representados. Estes espaços são variantes das imagens fotográficas que, no início do século, criam a memória coletiva das estações onde os imigrantes se concentravam para fazer a triagem necessária na alfândega dos novos países. Por si só, a figura do imigrante também nos dá traços do pensamento do ilustrador em relação ao seu protagonista e a sua projeção pessoal na obra: um estrangeiro em terras desconhecidas, mas que na medida que o a narrativa segue, cria laços afetivos e forma ali um novo lar. Esta condição de adaptação, inerente ao ser humano, pode ser sugestionada por Tan na medida em que sua personagem transmite também uma mensagem como metáfora do vínculo de um indivíduo com um espaço e uma esfera social, e como o sentimento do afeto é construído com o passar do tempo.
Muitas vezes a procura realizada em cada imagem é no sentido de encontrar coisas estranhas o bastante para convidar a um certo grau de interpretação pessoal, mas ainda mantendo uma relação com a verdade. A experiência dos imigrantes desenha um paralelo interessante com a maneira criativa e crítica de olhar que o artista tenta seguir, sendo que há um tipo semelhante de busca por sentido e identidade em um ambiente fictício que pode ser ao mesmo tempo alternadamente transparente e opaco, sensível e confuso, mas sempre aberto a reinterpretações.
Por este ângulo, novamente de acordo com Nikolajeva e Scott (2011, p. 239), uma categoria intricada e complexa pode ser extraída por meio do jogo entre realidade e fantasia nos livros ilustrados, onde cabe ao espectador o poder da decisão sobre a leitura mimética ou simbólica. Segundo as autoras, em qualquer obra que aborda e possui elementos fantásticos, seja ela um romance fantástico ou um livro ilustrado, é possível existir no mínimo dois meios de interpretação dos acontecimentos ali apresentados. Eles de fato podem ser admitidos como se realmente tivessem ocorrido, o que significa que o leitor aceitou o elemento fantástico como componente integrante do plano narrativo criado pelo artista, ou então as proezas dotadas de tons mágicos devem possuir uma explicação racional, tratando-as como sendo delírios, visões, sonhos ou expressões de pura imaginação das personagens ou do narrador, propiciadas por uma situação febril ou devaneio emotivo, por exemplo.
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Já em A chegada, apesar das possibilidades de especulação de uma narrativa psicológica em função da semelhança física do autor com a personagem principal, somos apresentados a uma realidade que não se contradiz, e pela ausência de texto, não entra em jogos de discordância entre enunciado e exposto. A busca por um referente real, pela verossimilhança, comum ao realismo mágico como visto anteriormente, se faz presente ao longo de toda a obra. Por mais fantástica e sobrenatural que seja, fica claro que a intenção do autor não é botar aquela realidade em dúvida, mas sim nos apresentar como uma possibilidade crível, em um mundo similar ao nosso, e que em última instância, na prática, poderia ser tomado por real.
Analisando o que dizem Kress e Leeuwen sobre o antagonismo da ilustração surrealista e a fotografia, fica novamente claro que A chegada estabelece uma ponte entre estes polos, pois se vale da fantasia para tematizar a obra, e da fotografia para lhe dar credibilidade. O próprio fato do método de trabalho do autor realizado na concepção temática e visual de sua obra se valer da utilização de fotografias do dia a dia para a inserção de elementos absurdos e sobrenaturais também revela uma aproximação com assuntos pertinentes aos do realismo mágico. Sem mudar o semblante das personagens envolvidas nestas inserções, que depois de colocadas nas fotografias são aplainadas pela ilustração à grafite, Tan faz com que o absurdo deixe de ser inserção para ser devidamente condensado em um mesmo contexto de representação gráfico, o estranho deixa de ser uma mera aplicação desviante, uma rasura em uma fotografia sugerida pelo autor, para fundir-se na realidade daquelas personagens, realizando o conceito fundamental do realismo mágico, que é a revelação do aspeto quotidiano do sobrenatural.
Por fim, em uma última análise, pode-se dizer que A chegada se situa nos limites das fronteiras do realismo mágico. Adquirindo características típicas do movimento, como por exemplo a constante aproximação com um mundo real na questão da caracterização de suas personagens, mas ao mesmo tempo apresentando um passo além na questão da fantasia, como a aparição de criaturas fantásticas e totalmente diferentes das convencionais, a obra ficcional se pinta ao mesmo tempo com pinceladas reais, porém cheias de tons mágicos. E é neste contexto, onde a personagem do imigrante condensa toda a narrativa em torno de em si, que Shaun Tan através de suas ricas ilustrações nos transporta para uma aventura altamente imersiva, expondo-nos a uma temática que nos dias de hoje é cada vez mais corriqueira e real: o abandono de um lar destruído por forças externas, na busca por um ideal de vida carregado de esperança. O retrato da trajetória de um imigrante comum que se vê sem alternativas, que ao chegar no estrangeiro depara-se com um estranho país, de estranhos hábitos, situações e criaturas
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surpreendentes. Um país recheado de dificuldades diárias, mas que é ao mesmo tempo acolhedor, inspirador e humano, onde são traduzidas por meio dos desenhos de Tan as incertezas e surpresas da vida da sua personagem principal, assim como são vividas na realidade por muitas pessoas.
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